terça-feira, 24 de janeiro de 2023

Vencer na vida

 Vencer na vida não é enriquecer, mas sim chegar ao fim dessa passagem, que começa no nascimento e termina na morte, de bem com a própria consciência. Vencer na vida é chorar quando se nasce e sorrir quando se morre. A morte não é uma tragédia, uma desgraça, mas sim conseqüência de ter nascido. Tudo que nasce, morre. Nós todos estamos aqui de passagem. É preciso levar isso em conta, diante do massacre publicitário-midiático que faz tudo pra impor nossos objetivos de vida como sendo consumir, desfrutar de prazeres materiais. A matéria é nosso veículo, não nossa finalidade. O tempo é implacável, todos sairemos da dimensão material. Impressionante como as pessoas não se ligam, mesmo vendo todos os antigos indo embora, mesmo percebendo o próprio envelhecimento. Vence quem sai limpo de maldades, de mentiras, vence quem mais beneficiou, vence quem tem facilidade em se desapegar de tudo, matéria e relações, vence quem não se deixou levar pelos valores desse mundo, controlado e dominado por interesses materiais. Chega a ser estúpido se deixar convencer que se vale o que se tem, não pelo caráter, pela amorosidade, pela sensibilidade, pelo senso de justiça. Deus não premia com riquezas, mas com paz de espírito. A verdadeira riqueza é imaterial.

Obs.: Uso a palavra "Deus" pra simplificar o entendimento do que vejo como espiritualidade e não ouso definir. Não tenho alcance pra conceber o "supremo ser do universo", já que, como se sabe, o ser humano não alcança, nem de longe, o próprio universo como um todo. Não nos é possível saber onde são os seus limites, nem se tem limites. Aguardo minha compreensão se desenvolver, sem pretensão de entender ou explicar o que não alcanço. Mas espiritualidade eu sinto plenamente, desde muito cedo, e já comprovei seus efeitos e interferências em minha própria vida.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

O genocídio ianomami e a hipocrisia da mídia empresarial

 A tevê nojenta faz matéria de menos de um minuto sobre a tragédia ianomami. Cita a morte de 570 crianças como quem fala da morte de 570 bois por febre aftosa, uma vez só, de passagem. Diz das providências que estão sendo tomadas pelo novo governo, sem citar o novo governo. Em nenhum momento questiona as causas da tragédia e do aumento escandaloso dos crimes cometidos, desde 2016, mas que aumentou mais ainda depois de 2018.

Eu já vinha acompanhando, por postagens de informativos indígenas - há vários, embora muito pouco vistos pela população em geral - os assassinatos de indígenas, estupros, expulsões, invasões de garimpeiros, madeireiros, criadores de gado e plantadores de soja. Estive pela Amazônia, há mais de trinta anos, e sei que suas terras "demarcadas" ou "em homologação", as terras onde vivem são cercadas por ambições e ódio destrutivo, em todo o território nacional. A difamação e a criação de desprezo - pelas mídias locais - servem como "justificativa" pros crimes cotidianos, os maus tratos e a repulsa por parte de pessoas sabotadas em informação e instrução.

Os ataques nunca pararam, desde a chegada dos europeus, há séculos, mas nos últimos anos esses criminosos tiveram incentivo do próprio governo, que desarmou os poucos esquemas institucionais de defesa desses povos, das florestas, do meio ambiente. O massacre estava liberado, sob o ocultamento da mídia privada (mais privada do que nunca, como depósito de merda) e a exultação da ganância assassina. A mudança de governo pra um menos desumano mostra vontade de conter essa desgraça toda. Mas os elementos que a causam continuam ali, cercando as terras indígenas, babando de ambição e ódio aos que consideram um mero impedimento aos seus objetivos. Esses dias mesmo, no sul da Bahia, dois meninos foram mortos a tiros, quando voltavam pra sua aldeia em área retomada - se não me engano, um tinha 17 e o outro 22 anos. É prática cotidiana desta "civilização" o genocídio indígena - e dos pobres, nas cidades, pelas próprias "forças de segurança" da sociedade. Segurança pra quem?

Que ninguém me pergunte o que fazer. Os povos indígenas sabem muito bem quais seriam as soluções - quem sabe com o Ministério dos Povos Originários e o apoio das pressões internacionais, não apareçam, na prática mecanismos de contenção dessa barbárie secular sobre os originários dessas terras...

É preciso, na minha opinião, tomar consciência da realidade, pra que apareçam caminhos e soluções pros problemas tão gritantes desta sociedade injusta, perversa, covarde - e suicida. E não se conte com os meios de comunicação empresariais, ao contrário, estes têm a função de dispersar a atenção, superficializar as mentalidades, estimular o egoísmo e a indiferença com o sofrimento alheio, omitir as causas das mazelas sociais e distorcer a realidade, apresentando amigos como se fossem inimigos e inimigos como se fossem amigos.

Nojo e repulsa dessa mídia criminosa e seus jornalistas, apresentadores e comentaristas de consciência vendida. Há muitos anos eu afirmo que o mercado de consciências é um dos que melhor paga no "mercado de trabalho".

Todo apoio e solidariedade aos povos indígenas, vítimas preferenciais desta sociedade que agiu, desde que se implantou por aqui, de forma genocida, levando os povos que já estavam aqui quase ao extermínio. Só a resistência, a criatividade e a força de adaptação às situações que se impuseram pôde impedir esse extermínio - e agora estamos em processo de percepção da importâncias desses povos pra impedir a destruição total do meio ambiente e da vida no planeta.

A sociedade dita "civilizada" tem muito a aprender com a gente originária. E isso é urgente urgentíssimo.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Dia 8 de janeiro, domingo, escancara o terrorismo planejado. Covardia "de mercado".

 Vimos ontem o resultado da união da perversidade dos poderes econômicos com a ignorância, a desinformação e as induções ao inconsciente coletivo de ódio pelas mídias empresariais.

O "mercado financeiro" e os podres de ricos não mostram a cara, comandam as "comunicações", convocam os ignorantes de cérebro lavado e enxaguado e contratam os insufladores treinados, pra "liderar" a barbárie.
Fossem os milhões de famintos, esfarrapados, desabrigados e demais sabotados do povo brasileiro a ocupar a esplanada dos ministérios e os palácios dos três poderes - em reivindicações justas dos seus direitos negados há incontáveis gerações - e todas as polícias, mais o exército, a marinha, a aeronáutica cairiam em cima, sem dó, e haveria muitos e muitos mortos, além de presos em número que precisaria ocupar estádios de futebol, pra serem judiados, torturados, "exemplados" por tal "atrevimento". E as exigências seriam mais que justas - comida, moradia, saneamento, sem falar em educação e informação são direitos constitucionais que o Estado não respeita, obrigações que o Estado não cumpre. São crimes e dívidas sociais.
Ontem, esses que se dizem "manifestantes" tinham como "reivindicações" um golpe de Estado, "intervenção militar", entre outros crimes - na inconformação com o resultado de uma eleição. Não teve polícia, nem repressão, até que depredaram os prédios dos três poderes. Aí houve alguma ação e as câmeras mostraram as pessoas saindo algemadas, às centenas, pacificamente e em silêncio.
Ninguém machucado, ninguém gritando, ninguém esperneando. No mínimo, estranho. Não era a índole que essa rapaziada apresentava, entre o ódio e o descontrole desvairado. Que tipo de acerto os deixou tão calminhos?
Aguardem-se os desdobramentos. Não sei se as autoridades serão suficientes pra mobilizar forças de segurança que se demonstram, sem dúvida, favoráveis a essa bagunça toda.
É bom lembrar que interessa aos podres de ricos - escondidos sob a expressão vaga "mercado" - manter pressionado um governo que declara pretender a contenção do saque banqueiro e mega-empresarial e o investimento na população, em alimento, moradia e educação. Assim se pode entender a benevolência com essa turba criminosa, entre profissionais do terrorismo e a massa amorfa e acéfala conduzida, induzida, insuflada pelos meios de comunicação, inclusive e, talvez, principalmente pelas redes sociais da internet.
A proposta é conter as intenções declaradas desse governo. Manter miséria, ignorância, fome, desabrigo - como chantagem sobre a população trabalhadora pra que se aceite qualquer condição de trabalho explorado e sem direitos - pra que se mantenham, também, os privilégios desse punhado de parasitas sociais podres de ricos que se beneficiam desse primitivismo social grosseiro.
A caridade é permitida, comovente na benevolência, porque não resolve. Um programa de Estado que elimine a miséria, o analfabetismo, a ignorância e a desinformação, é proibido como uma "heresia". Não é à toa que o projeto de lei destinado a criar condições pra um "auxílio-fome" foi chamado pela mídia empresarial de "pec da gastança".
Como digo, desde a década de 80, no meu trabalho, o Estado é refém do poder econômico de elites internacionais, com a cumplicidade das elites locais. E o poder econômico é inimigo do povo. É preciso resgatar o chamado "poder público", pra que finalmente ele se torne verdadeiramente público.

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Riqueza e Pobreza

 Riqueza verdadeira a gente carrega dentro. Pode distribuir à vontade, que não diminui.

Pobreza verdadeira é a mesma coisa, tá na alma. E também não diminui, por mais que se distribua.
Essa "riqueza" ou "pobreza" é o que a gente leva da vida e, muitas vezes, o que se deixa também no mundo, por algumas gerações.

Todos temos riquezas e pobrezas. Cabe a cada um cuidar da proporção em si mesmo, nos valores, nas escolhas práticas da vida, na atitude, nas relações pessoais e coletivas, no desenvolvimento da própria consciência.

Essa é a bagagem da alma, na viagem entre as dimensões.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Instituições democráticas não fazem uma democracia de verdade.

 Sim, temos instituições democráticas. Falta construir a democracia - pra além da fachada.

Educação pra além do mercado, humanista, vocacional.

Informação pra além da mídia empresarial, que dá mais importância a interesses econômicos do que à verdade.

Debate político pra além de partidos, no estudo do funcionamento do Estado, do município ao país.

Desde o ensino fundamental até a universidade, desde a Constituição em versão infantil até o debate aprofundado dos seus artigos nos ensinos médio e superior.

Transparência total dos orçamentos, desde a arrecadação de impostos até sua aplicação em cada área da sociedade.

Eliminação do analfabetismo, do desabrigo, da fome e do abandono como prioridade social maior.
Rompimento das correntes dos poderes econômicos, que sequestram a sociedade, através da administração pública, dos legislativos, dos judiciários, e produzem deliberadamente, por pressão, a sabotagem da educação e o controle das comunicações. É preciso investimento total na formação da consciência do povo - de TODO o povo.

"Instituições democráticas" não fazem uma democracia. O que faz uma democracia é consciência social, igualitária e cidadã, espalhada por toda a população. O trabalho é longo e profundo. E começa a partir da mentalidade, dos valores, do comportamento, dos desejos e objetivos, da visão de mundo, de cada indivíduo. A revolução interna precede a revolução social, embora possam ser simultâneas.

Estamos caminhando.

domingo, 27 de novembro de 2022

A vida no Bolsonistão

 

Rodolfo Salm

PhD em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, formou-se em Biologia pelo Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Atualmente é professor da Universidade Federal do Pará.


Al­ta­mira se tornou um dos prin­ci­pais cen­tros do Bol­so­nistão. Se Al­ta­mira fosse o Brasil, Bol­so­naro teria ven­cido no pri­meiro turno, quando al­cançou quase 58% dos votos, contra 36,9% de Lula. No mo­mento em que es­crevi este ar­tigo, havia um grupo de ma­ni­fes­tantes acam­pados em frente ao 51º Ba­ta­lhão de In­fan­taria de Selva, que fica no li­mite da ci­dade, pe­dindo uma “in­ter­venção” – leia-se golpe mi­litar. Em frente ao ba­ta­lhão, vá­rias chur­ras­queiras a pleno vapor. A chur­ras­cada foi pro­me­tida para a po­pu­lação caso Bol­so­naro fosse eleito pre­si­dente. Com a der­rota, a carne que falta na mesa de mi­lhares de pes­soas nas pe­ri­fe­rias de Al­ta­mira foi usada para agregar “sim­pa­ti­zantes” em torno do pro­testo gol­pista. Carne, re­fri­ge­rantes e ou­tros gê­neros che­garam em caixas en­vi­adas por co­mer­ci­antes e em­pre­sá­rios lo­cais, o que ajuda a manter viva a re­volta gol­pista contra o re­sul­tado le­gí­timo das urnas.

No dia se­guinte ao se­gundo turno, re­gis­trei o pro­testo em vídeo duas vezes. Achei que es­tava pas­sando des­per­ce­bido. Neste do­mingo, fui mais uma vez. O ce­lular foi to­mado da minha mão. En­quanto eu pro­tes­tava aos gritos, uma roda de ama­re­li­nhos se formou ao meu redor. Tive que ne­go­ciar com um dos lí­deres da di­reita local a de­vo­lução do apa­relho, em troca do com­pro­misso de apagar o vídeo. Ele me disse que, nas oca­siões an­te­ri­ores, havia pes­soas prontas para me agredir. Des­co­briram meu nome e agora me atacam nas redes so­ciais. Fui avi­sado de que cir­cula por What­sApp a men­sagem de um mi­litar do meu bairro que disse ter von­tade de me “dar um tiro”.

Vivo em Al­ta­mira, uma das prin­ci­pais ci­dades do arco do des­ma­ta­mento, na Amazônia, há 14 anos. É a pri­meira vez que estou as­sus­tado, a ponto de me afastar do de­bate po­lí­tico com a so­ci­e­dade local. Vá­rios dos em­pre­sá­rios que fi­nan­ciam as ações gol­pistas en­ri­que­ceram com a gri­lagem de terras, através de fraudes em pro­jetos de de­sen­vol­vi­mento re­gi­onal da di­ta­dura mi­litar-em­pre­sa­rial (1964-1985). Vá­rios deles hoje plei­teiam pe­daços de terra já in­va­didos e des­ma­tados na Terra In­dí­gena Ituna-Itatá, onde há re­gistro de pre­sença de povos iso­lados, a cerca de 100 quilô­me­tros da ci­dade. Quando con­tes­tados, dizem que os in­dí­genas “de­sa­pa­re­ceram”. Claro, ater­ro­ri­zados, com sua terra toda in­va­dida por mi­lí­cias ar­madas, eles se eva­diram para áreas mais re­motas.

Em sua ma­ni­fes­tação em frente ao quartel, os se­gui­dores de Bol­so­naro gri­tavam: “Li­ber­dade, li­ber­dade”. Quem vive na Amazônia sabe que a “li­ber­dade” que de­fendem é a li­ber­dade para in­vadir terras pú­blicas, queimar, des­matar, ga­rimpar, tirar ma­deira. Não é acaso o fato de Al­ta­mira ser a campeã em emis­sões de dió­xido de car­bono do Brasil, à frente in­clu­sive da ci­dade de São Paulo. Há uma cor­re­lação ex­plí­cita entre o arco do des­ma­ta­mento da Amazônia, a área de maior in­ten­si­dade de ati­vi­dades pre­da­tó­rias des­tru­tivas do meio am­bi­ente, e as áreas onde Bol­so­naro teve suas vo­ta­ções mais ex­pres­sivas.

De­sem­bar­quei na ci­dade em 2008, após ser apro­vado no con­curso para uma vaga de ecó­logo na Uni­ver­si­dade Fe­deral do Pará (UFPA). Minha li­gação com a re­gião amazô­nica, porém, co­meçou em 1996, quando ini­ciei meu con­tato com os Kayapó como es­tu­dante de bi­o­logia na Uni­ver­si­dade de São Paulo (USP). Apai­xonei-me pela flo­resta amazô­nica da bacia do Xingu e pela cul­tura com­ba­tiva desse povo. Mas a re­a­li­dade que en­con­trei em Al­ta­mira, anos mais tarde, foi to­tal­mente di­versa: uma ci­dade que odeia a flo­resta, des­preza os in­dí­genas e faz de tudo para re­negar sua origem. Quase não há ár­vores pelas ruas, e as poucas que existem vão sendo ra­pi­da­mente de­le­tadas da pai­sagem ur­bana. Nestes úl­timos anos, fiz do en­torno da casa que cons­truí uma flo­resta, mas tive meu ter­reno in­va­dido re­cen­te­mente por um vi­zinho que en­ve­nenou al­gumas ár­vores que lhe co­briam par­ci­al­mente a vista do rio Xingu. Em vez de pro­testar, fui obri­gado a me con­formar ca­lado, pois se trata de um gri­leiro que cos­tuma re­solver seus pro­blemas à moda an­tiga. Gasto parte subs­tan­cial do meu tempo de tra­balho ten­tando jar­dinar e ar­bo­rizar o campus da UFPA, com frequência em con­flito com aqueles que con­si­deram as ár­vores uma ameaça às es­tru­turas fí­sicas da uni­ver­si­dade.

Quando che­guei, o rio Xingu corria livre e belo em frente à minha casa. Al­ta­mira tinha um ritmo pa­cato, trân­sito tran­quilo e praias de areia branca onde o povo se di­vertia nos fi­nais de se­mana. Isso até a cons­trução da Usina Hi­dre­lé­trica de Belo Monte, que trans­tornou a pai­sagem, com a inun­dação das praias, o apo­dre­ci­mento do rio, a de­gra­dação ur­bana e so­cial e a ex­plosão da vi­o­lência.

A imagem do pre­si­dente Lula de mãos dadas e er­guidas com Tuire Kayapó é, para mim, a sín­tese da cam­panha elei­toral de 2022. Tuire ficou mun­di­al­mente co­nhe­cida em 1989 ao en­costar seu facão no rosto de um di­retor da Ele­tro­norte, José Antônio Lopes, quando ele de­fendia a cons­trução da hi­dre­lé­trica, cha­mada na época de Ka­raraô. Lula, por outro lado, que chegou à pre­si­dência pela pri­meira vez cer­cado por grandes ex­pec­ta­tivas para a con­ser­vação da maior flo­resta tro­pical do pla­neta, de­cep­ci­onou in­dí­genas e ati­vistas am­bi­en­tais ao de­sen­ga­vetar aquele an­tigo pro­jeto da di­ta­dura.

En­quanto o país crescia sob ine­gá­veis avanços so­ciais pro­por­ci­o­nados pelos go­vernos pe­tistas, em Al­ta­mira nós de­nun­ci­amos re­pe­ti­da­mente a in­vi­a­bi­li­dade téc­nica e econô­mica, assim como as ter­rí­veis con­sequên­cias so­ci­o­am­bi­en­tais da­quela que era con­si­de­rada a maior obra do setor elé­trico do Pro­grama de Ace­le­ração do Cres­ci­mento (PAC). Em 2010, fomos re­pri­midos pela Força Na­ci­onal quando ten­tamos pro­testar du­rante a vi­sita do então pre­si­dente Lula à ci­dade, onde de­sem­barcou para de­fender Belo Monte. Iro­ni­ca­mente, na oca­sião, Lula con­fra­ter­nizou com muitos dos que hoje o ca­lu­niam, lu­taram contra sua eleição e cir­cu­lavam pela chur­ras­cada gol­pista di­ante do quartel do Exér­cito. Belo Monte ma­te­ri­a­lizou-se no Xingu, e todas as nossas pi­ores pre­vi­sões se con­fir­maram.

So­mente uma re­vi­ra­volta po­lí­tica tão grande para con­verter os opo­si­tores de Belo Monte em fer­vo­rosos de­fen­sores da eleição de Lula. A forma cri­mi­nosa como o atual go­verno, sob res­pon­sa­bi­li­dade di­reta de Jair Bol­so­naro, agiu di­ante da pan­demia, foi res­pon­sável pela morte de quase 700 mil bra­si­leiros. Perdi dois amigos de Al­ta­mira e do Xingu: o ma­ra­vi­lhoso re­pórter fo­to­grá­fico Lilo Cla­reto, que mo­rava na ci­dade re­tra­tando as vi­o­la­ções am­bi­en­tais e hu­manas cau­sadas pela cons­trução da hi­dre­lé­trica de Belo Monte, e meu irmão na cul­tura Kayapó, o ca­cique Pau­linho Pai­akan, que no final dos anos 1980 foi a mais im­por­tante li­de­rança na luta contra a cons­trução da hi­dre­lé­trica. Bol­so­naro só não foi de­nun­ciado pela CPI da Pan­demia por crime de ge­no­cídio por uma tec­ni­ca­li­dade. Se­gundo al­guns, o ge­no­cídio teria que ser uma ação vol­tada contra grupos ét­nicos es­pe­cí­ficos, en­quanto os crimes de Bol­so­naro na pan­demia te­riam sido contra todo o povo bra­si­leiro. Acei­tando-se tal de­fi­nição, o con­ceito po­deria ser apli­cado ao tra­ta­mento dado por Bol­so­naro es­pe­ci­fi­ca­mente aos povos in­dí­genas.

Bol­so­naro pro­meteu du­rante a cam­panha de 2018 que não de­mar­caria nem um cen­tí­metro mais de terras in­dí­genas, con­tra­ri­ando a de­ter­mi­nação da Cons­ti­tuição de 1988, e cum­priu a pro­messa à risca. Pior que isso, in­cen­tivou o ga­rimpo ilegal nas terras in­dí­genas, tanto em suas falas quanto no des­monte dos ór­gãos de fis­ca­li­zação e no apa­re­lha­mento da Funai. Vá­rias al­deias na Terra In­dí­gena Kayapó, que co­nheço mais pro­fun­da­mente, ce­deram às pres­sões e abriram seus ter­ri­tó­rios para o ga­rimpo. Ou­tras ainda re­sistem. Aukre, a minha al­deia, fun­dada por Pau­linho Pai­akan, aonde re­torno todos os anos para me re­co­nectar com a flo­resta, re­sistiu aos ga­rimpos até aqui. Mas di­fi­cil­mente re­sis­tiria a um novo go­verno Bol­so­naro.

Foi uma cam­panha elei­toral vi­o­lenta, com abusos de poder econô­mico e do uso da má­quina pú­blica por Bol­so­naro. Vi muita gente das classes D e E em Al­ta­mira com medo de ex­pressar sua opção por Lula, an­dando nas ruas, a pé ou de bi­ci­cleta, aten­dendo nas lojas com medo do pa­trão. Mas até nisso Al­ta­mira é de­si­gual. Só por ter um carro, sou con­si­de­rado “rico”. Achei que es­taria me ar­ris­cando ao en­cher meu carro de ade­sivos de Lula. Mas não, tudo o que ouvi foi o apoio de pes­soas que la­men­tavam não poder fazer o mesmo. Por medo.

Quem so­freu por isso foi meu filho ado­les­cente, que ma­tri­culei na­quela que ima­gi­nava ser a me­lhor es­cola da ci­dade. Quando seus co­legas viram os ade­sivos no meu carro, ele passou a so­frer bullying de boa parte deles, fi­lhos de bol­so­na­ristas. Che­garam a cercá-lo di­zendo que, se ele é “es­quer­dista”, não po­deria ter ce­lular. Fico pre­o­cu­pado com uma ju­ven­tude que apoia a des­truição da flo­resta e de­fende um po­lí­tico que enal­tece tor­tu­ra­dores.

Al­ta­mira me faz lem­brar da fa­mosa frase de Ber­tolt Brecht: “A ca­dela do fas­cismo está sempre no cio”. Hoje, em Al­ta­mira e no Brasil, essa ca­dela está ávida e feroz. Apesar do so­luço de alívio re­pre­sen­tado pela vi­tória de Lula, a Amazônia ainda está por um fio.

Rodolfo Salm é professor da Universidade Federal do Pará.

odolfo Salm

PhD em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia, formou-se em Biologia pelo Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Atualmente é professor da Universidade Federal do Pará.

Pu­bli­cado ori­gi­nal­mente na Re­vista Su­maúma.

quinta-feira, 27 de outubro de 2022

As "instituições democráticas" estão ameaçadas. Democracia ainda não houve.

 Não estamos tentando salvar "a democracia", mas sim as "instituições democráticas" - o que é muito diferente. A democracia ainda precisa ser construída. No conhecimento, na instrução, na informação verdadeira que são direito da população, sistematicamente negado. (Assim como alimentação e moradia decente, com saneamento, energia e segurança.) As instituições estão não só ameaçadas, mas desmoralizadas, a meu ver. Mais que nunca, porque desde o início dos anos 80 eu desacreditei no aparato estatal, em todas as suas áreas. Percebi as determinações dos poderes econômicos de um punhado de podres de ricos, inclusive no meu pensamento, na minha visão de mundo, nos meus desejos, objetivos e até nos sentimentos. E sacudi tudo fora. Agora olho, espantado e calmo, a reação violenta a um esboço de inclusão social, ao atendimento mínimo de alguns direitos de parte da população roubada em seus direitos constitucionais e excluída dos benefícios do desenvolvimento e da tecnologia. A sabotagem e cooptação da educação pelo "mercado", o controle das informações, a criação deliberada de ignorância, desinformação, superficialidade mental e agressividade competitiva criou o campo pro estímulo ao ódio, ao confronto, ao conflito que estamos vendo em toda parte. A ameaça é séria, assustadora, não só às "instituições democráticas" mas também, e principalmente, na situação social, às condições de vida, em todo o território nacional, da maioria da população - leia-se fome, desabrigo, violência e criminalidade miúda. E, pelo outro lado, da repressão estatal, do aumento da população carcerária, da destruição de vocações e de vidas, alimentando as "empresas" do crime organizado, municipais, estaduais, regionais, nacionais e internacionais.

domingo, 2 de outubro de 2022

Eleições de 22 - ponto de passagem, não de chegada.

 Não estou impregnado desse clima de festa, dessa "alegria da vitória", não me sinto "feliz de novo", não participo de comemorações, nem vejo a luz no fim do túnel. Só estou vendo as trevas espessas que cobriram o aparato estatal se dispersando, pouco a pouco. As revelações foram feitas, a maldade escondida tomou coragem de se mostrar, a perversidade se assumiu perversa, covarde, indiferente a injustiças e sofrimentos alheios. Os cargos públicos nunca se mostraram tão claramente vendidos, movidos a montanhas de dinheiro público, em plena pandemia, em pleno processo de empobrecimento e desemprego, em meio à fome e o desabrigo crescentes. É preciso dar proveito a essas revelações.

O que espero é o restabelecimento das instituições, pra recomeçar a tentar colocá-las no verdadeiro serviço público, no cumprimento da Constituição, no atendimento pleno de todos os direitos da população. Em todo esse período desde 2016, o que se viu foi o desmonte de várias estruturas industriais, de um sem número de programas que atendiam, ainda que mal e pouco, direitos básicos, humanos e constitucionais da maioria historicamente roubada nesses direitos. As instituições foram ocupadas pela bandidagem e foram invertidos os seus procedimentos. Protestar ou denunciar ficou mais perigoso do que sempre foi. A impunidade foi instalada, o incentivo aos crimes, maior que nunca.
Volta à cena o velho teatro de marionetes. Agora mais visíveis as forças econômicas tenebrosas que ainda dominam as câmaras - de vereadores, deputados tanto estaduais quanto federais e senadores -, os governos municipais, estaduais e federal, o judiciário por vias tortas e as comunicações, dominando todas as mídias e capturando a audiência da massa da população, em todas as suas formas. É preciso levar em conta que política não é só partidária. Política é muito mais que isso. Vem de polis, vários, muitos, e trata da existência coletiva buscando harmonia social. Tratar de entender como funciona a estrutura social, como funciona uma prefeitura e suas secretarias, o país e seus ministérios, como são compostos os orçamentos, de onde vêm e como são aplicados, em que setores e por quê, isso é tratar de política. E deveria ser ensinado nas escolas, desde os primeiros anos, adaptados, claro, ao linguajar e à realidade de cada fase do desenvolvimento.

É preciso criar espaços de encontros coletivos, pra falar sobre as necessidades do coletivo, pra resolver problemas e apresentar aos "poderes públicos" o que precisa ser resolvido, ainda que no passo a passo. Conhecer as formas de pressionar o atendimento dos direitos, contar com uma imprensa honesta, que não venda sua consciência - as empresariais priorizam interesses econômicos, não a verdade. É preciso também abrir espaço pras comunicações, geral, desde as comunidades periféricas às escolas, associações, sindicatos, universidades, enfim, detonar o domínio empresarial sobre o espaço das comunicações no país.
 
O controle dos territórios, as decisões finais sobre o que acontece neles devem ser dos que vivem nesses territórios. A sabedoria periférica, de sobrevivência e superação dos que formam o alicerce da sociedade, deve se impor em condições de igualdade aos saberes restritos a poucos e, em  sua maioria induzidos a um sentimento de superioridade ilusório e intencionado na criação de barreiras e afastamento entre o saber e a sabedoria. 

Este é o grande temor da classe dominante, que o saber e a sabedoria se unam na busca de uma sociedade menos injusta, mais igualitária, menos perversa e mais solidária. Pra manter as coisas como são, é preciso ignorância e desinformação, consumismo e alienação, competições e disputas, miséria e exploração. É preciso espalhar o saber, sem restrições e com humildade. E a humildade, por sua vez, é o melhor veículo pra aquisição de sabedoria. 
A necessidade da aproximação requer, do saber, respeito, humildade e disposição de aprender. E da sabedoria, consciência das próprias capacidades, auto-estima e respeito próprio. 

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Corrupção e caminhada

 A corrupção está no Estado, na estrutura social viciada. Nasce no poder econômico de um punhado, os corruptores, e se desenvolve no aparato de administração estatal, incluindo sobretudo parlamentares aos magotes, os corruptos - que ainda dominam a cena, em qualquer governo. Os corruptos são menos importantes que os corruptores, mas estes dominam também as comunicações e não são mencionados, a não ser quando é "briga de cachorro grande", com milhares de pessoas se danando do lado do cachorro que perde. Muito poucas e raras essas brigas. E o perdedor apenas some de vista pra lamber suas "feridas" entre privilégios ainda grandes diante da situação da grande maioria.

Não há governo que dê jeito nisso, é o desenvolvimento da consciência popular o que pode dar fim nas injustiças e covardias que esta sociedade pratica todo o tempo. Consciência contamina. O processo está em curso, há milênios. Cada passo tem sua hora, cada hora tem seu passo.
E cada um faz da sua vida o seu passo nessa caminhada infinita.

terça-feira, 30 de agosto de 2022

Consciência popular

Consciência pede instrução, informação, senso de justiça e sentimento de integração coletiva - ou de família humana e planetária.

sexta-feira, 29 de julho de 2022

A humanidade aumenta a percepção do universo, permanentemente.

  Em 2019 a Marinha dos Estados Unidos convocou a imprensa e declarou que os OVNIS, seres de outros planetas, eram uma realidade e que a humanidade teria que aprender a tratar com isso. Hoje, no jornal da Cultura, saiu que o Pentágonou criou um departamento exclusivo pra examinar e estudar as naves que surgem cada vez em maior número. Há tempos eu vejo declarações de pilotos, de militares do mundo inteiro, que dizem ser maior o número de avistamentos e contatos em áreas onde há bases de mísseis nucleares - e que essas naves teriam a capacidade de desativar, ao menos por um tempo, todas as armas atômicas.

A humanidade se aproxima do tempo em que se dará conta de que o universo é todo habitado, em que começará a se relacionar com outras civilizações de outros sistemas solares - que se contam às centenas de bilhões em cada galáxia, que também se contam, as galáxias, aos bilhões e bilhões até onde alcançam os telescópios mais avançados. Que não alcançam nada parecido com um limite ou um fim do espaço universal.
Estamos em tempo de transição e o planeta, a humanidade, terá que entrar em outra freqüência, em outra vibração, pra alcançar o nível pra se relacionar com outras humanidades, muito mais avançadas. A harmonia social e planetária virá como uma necessidade evolutiva pra que alcancemos tais vibrações. Daí a necessidade de expurgar as agressividades destrutivas, os conflitos, os desequilíbrios, as perversidades. Daí a migração planetária tão falada por sensitivos de todo o tipo, religiosos ou não. Muitos passarão a um planeta mais novo, que está num estágio onde a agressividade e a indiferença com o sofrimento alheio são elementos de sobrevivência. Não é castigo, é sintonia, adequação vibratória. Certamente levarão no inconsciente muita informação útil ao desenvolvimento de outras humanidades mais primitivas, ainda no tempo do animalismo.
Não tenho apego a essa idéia, mas sinto estar mais próxima da realidade que muitas das interpretações religiosas - principalmente as que levam à discriminação dos que não lhes partilham as crenças, que produzem preconceitos, julgamentos e sentimentos de raiva e repulsa a outras pessoas, gerando conflitos, violência e sofrimentos.
Diante das centenas de milhares de anos que tem a nossa humanidade, uma vida é um estalinho no tempo. Gerações passarão nessa transição dos nossos tempos. Tempos de revelações, de definições, de colheitas. E de novos plantios.







Curtinhas do Feicebuque

                                                        Cidadão de Bem

É uma diferença brutal.
Quando ouço falar em "cidadão de bem", em geral estão falando de "cidadão de bens" - nada a ver com o bem geral, nada a ver com senso de justiça, nada a ver com sensibilidade, com solidariedade. Muito ao contrário. É a pregação do egoísmo, da indiferença com as injustiças sociais e com o sofrimento causado por elas a milhões e milhões de sabotados - em educação e informação de verdade, em alimentação, em moradia decente, em consciência social, enfim, em vida.

Respeito Próprio
Não quero fazer o que nunca foi feito. Não quero ser iniciador de nada. Quero fazer o que eu goste, o que eu respeite, o que minha consciência aprove. Quero ter prazer em ver o que fiz, aprender com isso e fazer outras coisas, no mesmo critério. Não busco aprovação, a não ser a da minha própria consciência. Gostar do que faço e do que andei fazendo é uma necessidade minha. Com a humildade de reconhecer eventuais erros, enganos e vacilos. E disposição pra reparar ou compensar os prejuízos causados por esses erros, sempre que possível. Por isso tudo, o único respeito do qual não posso abrir mão é o meu próprio respeito. Os demais são muito bons, mas não são fundamentais.

Intuição e Crença
Perguntam se eu acredito em Deus. Respondo que à minha maneira. Não preciso acreditar em nada. Com o tempo, vou ficar sabendo. Não comecei quando nasci, não vou acabar quando morrer. É o que sinto. Só precisa respeitar, como respeito as religiões e crenças, sejam quais forem. Já os religiosos, depende da atitude - alguns se especializam em distorcer "escritos sagrados" pra atender seus interesses, materiais ou pessoais, do próprio ego. Não respeito nada que agrida, discrimine, nada que produza sentimentos destrutivos, que ameace ou crie conflitos. Isso me determina exercer a espiritualidade no meu dia a dia, nos meus sentimentos, nas minhas relações pessoais e sociais, nas minhas escolhas, nos meus valores e comportamentos. E me impede de seguir qualquer religião. Mesmo as que afirmam, mentirosamente, não serem religião - mas mantêm as ameaças, cobranças e julgamentos, "em nome" do que quer que seja.

Ser radical é preciso
Radicalismo não é extremismo, não é agressividade, não é intolerância. Radicalismo é a prática de buscar as raízes, as causas dos problemas, é pensar profundo, é questionar a realidade e as informações postas.
Distorcer o significado desta palavra é uma estratégia social do mercado financeiro, dos podres de ricos que dominam a sociedade, na construção da mentalidade superficial, rasa, consumista, competitiva que mantém a miséria, o desabrigo, a ignorância e a desinformação neste modelo social injusto, perverso, covarde e suicida.
O sacode planetário está apenas começando - e vai durar algumas gerações em mutação acelerada.

quarta-feira, 6 de julho de 2022

Falcatrua social, se enquadrar é frustração certa.

 

Comer e morar são os dois primeiros direitos básicos, fundamentais e CONSTITUCIONAIS. A fome e o desabrigo são provas materiais dos crimes contra a constituição que a sociedade como um todo, através da administração do Estado, comete em cima dessa enorme parcela da população, abaixo ainda dos mal qualificados, mal instruídos, mal equipados e desinformados - também vítimas de crimes constitucionais - que formam a grande maioria do povo brasileiro.
Até que ponto é possível conviver passivamente com tanta maldade, tanto egoísmo, tanta produção de sofrimento - sob controle de umas poucas centenas de podres de ricos e sua corte nas classes mais altas? Até que ponto se pode assimilar e exercer - nas escolhas e comportamentos - os valores apresentados por esta sociedade? Até que ponto é preciso adaptar e violar a alma em nome de confortos e privilégios materiais, sociais, externos?
Que nenhum entendimento distorcido suponha aqui apologia da pobreza para todos. Falo de sobriedade, de suprir necessidades materiais básicas e perceber o trabalho interno, tanto no indivíduo quanto no coletivo. Da sensibilização, do desenvolvimento solidário, do investimento prioritário nas verdadeiras prioridades sociais, no topo de importância da hierarquia orçamentária.
Alimento saudável, moradia também saudável, instrução profunda, educação ampla, informação verdadeira, interesse geral no atendimento de todos, desenvolvimento do senso de justiça coletivo, são a base de uma sociedade que tem na harmonia, no equilíbrio, no bem estar de todos o seu objetivo e sua função.
Os contaminados pelas induções sociais não entenderão, nem podem vislumbrar a sociedade do futuro. Tudo isso, na visão induzida, é apenas um delírio, uma viagem alucinógena, uma ilusão, uma fantasia, uma crença idiota. É preciso respeitar a opinião alheia e a gente conhece bem essas mentalidades. Com respeito, cortesia e muita calma se encaminha o papo pra despedida e se parte de perto, em busca de outras sintonias.
As exceções têm se multiplicado muito nesses últimos quarenta anos. Ao mesmo tempo, o momento é de estímulo à revelação de perversidades escondidas. Estão se assumindo preconceitos, ódios, repulsas, maldades, rancores, agressividades. Tempos de revelação. Tendo a acreditar na migração planetária, na separação das sintonias, "os mansos herdarão a Terra". A vibração do conflito, do ódio destrutivo, da indiferença com o sofrimento alheio, do egoísmo perverso vai encontrar sua sintonia onde tudo isso é necessário à sobrevivência. A migração está em curso há tempos, embora nestes anos ela tenha acelerado muito e, segundo consta entre médiuns e videntes, esteja ainda em franca aceleração. A paz virá na "reconstrução", na recuperação dos escombros, por várias e várias gerações.
Há muito tempo minha intuição vem dizendo, prepara o lombo que vem peia, é preciso estar pronto pra encarar o que vier, desenvolver a capacidade de superar dificuldades. Será o campo certo pra criar e desenvolver a solidariedade, pra se dar a mão, pra se sentir família humana - a caminho da família planetária. Grande parte da população já tem essa capacidade e esses sentimentos, não como uma virtude, mas como uma ferramenta coletiva de sobrevivência, diante das condições sociais em que vivem.
Do meio dos desprezados brotarão muitos instrutores.

sexta-feira, 24 de junho de 2022

Disparates esclarecedores – ou entre o luxo e o sofrimento

 “O ano da maior crise econômica brasileira nas últimas décadas...

...é também o ano do lucro recorde dos bancos.”

“Os bancos brasileiros têm lucro recorde no pior ano da pandemia.”

“Divulgação de lucros no BB” (Banco do Brasil) “gera comoção nas redes sociais: ‘lucro pros bancos, fome pro povo’.”

“Enquanto uma multidão passa a não ter mais teto...

... outros” (uns poucos) “fazem fila para comprar mansões e carros de luxo.”

“Revendedora de Porshe ... tem fila de 1500 compradores no Brasil.”

Quantos têm fome? 33 milhões, diz uma estatística aí, na minha opinião subestimando a realidade. Insegurança alimentar é fome com alguma coisa de comer às vezes, pouco por dia. Enquanto isso, alguns milhares lucram milhões na e com a pandemia.

“Mercado de alto padrão se manterá aquecido em 2022.”

O alto padrão citado certamente não é o padrão moral. Muito menos o padrão de humanidade que se espera de uma sociedade que se pretenda humana. 

“Mercado de casas de veraneio está superaquecido.”

Gera empregos, dirão alguns – e estarão certos –, mas bem se vê que não há espaço pra todos, a maioria permanece com fome, numa economia em frangalhos. Se traz alívio a uma parcela dos mais pobres, não deixa de ser uma demonstração de injustiça social, um cenário revelador da estruturação da sociedade e suas necessidades de ajustes na direção da harmonia coletiva que deve ser, sempre, o objetivo de qualquer coletivo.

Harmonia, aliás, em todos os níveis, internos e externos, no indivíduo, no coletivo, com o ambiente e, proximamente, com o universo à nossa volta. Acredito na existência de incontáveis vidas entre os bilhões de estrelas e seus sistemas planetários, aos bilhões pelas galáxias afora, contadas também aos bilhões. Os contatos diretos virão na medida em que formos nos aproximando da harmonia interna, planetária, entre nós, os seres, toda a família planetária for se percebendo como tal.

“No país onde trabalhadores fazem fila para pedir auxílio, o ministro da economia esconde mais de 50 milhões de reais em paraíso fiscal, impunemente.”

Está se revelando como a sociedade funciona, quem é que tem o poder de verdade, por trás das fachadas “democráticas”, por dentro dos seus mecanismos, dominando o funcionamento a favor de poucos, em prejuízo flagrante das grandes maiorias – em todos os sentidos. Não a todos, mas a muitos, o processo tem o seu caminho, seu tempo, cabe aos que vêem trazerem à tona, cada um nos seus espaços, nas suas possibilidades – é a partir da consciência individual que se pode trabalhar na coletiva, com respeito, afeto, solidariedade.

É preciso buscar dentro de si os valores condicionados, as verdadeiras falsidades ideológicas que nos implantam goela abaixo da consciência. Não creio que exista quem não tenha suas contaminações ideológicas, em valores, em temperamento, em desejos, posturas, objetivos de vida, medos e expectativas, em maior ou menor grau, todos temos.  Por isso o primeiro e mais importante trabalho é o na própria consciência, o trabalho externo, coletivo, surge por conseqüência e será muito mais eficiente, porque partilhado com humildade. Quem trabalha nas próprias falhas, não se dá ao trabalho de julgar falhas alheias – já vi isso em algum lugar.

Nota: todas as frases entre aspas (“...”) foram retiradas do final do vídeo do Henry Bugalho, já com o Eduardo Moreira (“de banqueiro a companheiro”) e, penso eu, a turma do ICL que ele encabeça. Eles têm departamento jurídico e as fontes de todas essas frases.

Link do vídeo:  https://www.youtube.com/watch?v=AVDMM4cP3tw

quinta-feira, 23 de junho de 2022

E o vereador foi cassado

 Renato Freitas teve cassado seu mandato de vereador na câmara de Curitiba. Se fosse um julgamento ele teria sido inocentado, dada a quantidade de provas desmentindo as acusações, inclusive uma carta da Arquidiocese de Curitiba pedindo pela não cassação do mandato, pois não houve a “invasão” alegada. O que houve foi uma convocação a uma manifestação de protesto pela morte de Moïses, o congolês morto a pauladas por cobrar dias de serviço num quiosque de praia. As portas da igreja estavam abertas, não havia missa, as pessoas entraram, falaram no microfone e no som da própria igreja, o padre ali do lado olhando – já sem a batina – ninguém quebrando nada, nenhuma correria, nenhum grito. A igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos – como sugere o próprio nome – é um local onde se fazem manifestações anti-racistas, historicamente.

As mentiras espalhadas de pessoas desmaiando, de portas arrombadas e coisas quebradas serviram de “provas” na escolha duplamente racista – de cor e de classe – escancarada na carta recebida por Renato, por email do vereador que o acusava, “volta pra senzala”, “vamos embranquecer...” e revelações do gênero. Nos parlamentos, como se vê, provas são inventadas ou ignoradas, de acordo com os interesses do momento. A revelação é a do racismo, do escravismo ainda presente, entranhada no fundo da alma social. É mesmo preciso muita luz pra que se perceba claramente, de forma inegável.

Pelo pouco que conheci do Renato, nada disso o surpreende muito, escaldado que é com o tratamento que recebe da sociedade “organizada” e seus tentáculos repressivos, desde sua vida inteira. Filho de faxineira, cresceu nas áreas de abandono social, onde o estado, por omissão plena, comete crimes contra sua população mais pobre, de todo o tipo, a partir dos crimes constitucionais contra os direitos básicos. Onde o destino traçado é a exploração, a “siviração” ou o crime. As “sortes”, as “coincidências”, encontros, decisões, superações de obstáculos e barreiras tornaram Renato uma raridade, um originário do abandono e da pobreza com título de curso superior, consciência social e aplicação coletiva. Uma pedra rara no cascalho da política pública, uma voz que fala a linguagem das periferias, a língua intuitiva dos sabotados da sociedade, construídos pra serem mão de obra barata ou de baixa qualificação.

É a língua dos de baixo que ele fala, a da multidão roubada nos seus direitos a uma formação, à alimentação sadia, educação de verdade, moradia decente, entregue a um massacre midiático, ideológico, publicitário, formando mentalidades consumistas e competitivas, superficiais e fáceis de enganar, de induzir e conduzir. É ali onde mais se precisa de consciência, ali onde mais se precisa de acendedores de luz e é o campo mais fértil pra se plantar. Dali que vem a força da construção, da manutenção, do funcionamento de toda a coletividade humana, de toda a sociedade. Por isso a ignorância, a desinformação e a dispersão dos interesses são estratégias de dominação, de escravização, pra que se mantenha tudo como está – no controle de poucos.

Tomar consciência da realidade é uma necessidade na busca de harmonia social, sobretudo entre os que formam o alicerce da sociedade. Tomar consciência do próprio valor, da própria capacidade de superação, da própria resistência é uma necessidade de cada um. Consciência é uma parada que contamina, um caminho que não tem fim, uma necessidade da alma.

Renato Freitas, depois dessa injustiça descarada – reveladora ao máximo do racismo enraizado em nossa sociedade como um todo, não só na câmara de Curitiba –, deve ter crescido em sabedoria, em aprendizado, como toda dor cria essa oportunidade, quando se tem a humildade do aprendiz, que é o que somos sempre. Certamente ele tem muito a acrescentar no coletivo, na formação das mudanças e alcances, na criação de consciência, no despertar dos distraídos e dos sonolentos.

A construção de uma nova sociedade começa no seu alicerce. É preciso muitos mais Renatos Freitas, é preciso pobres, periféricos, pretas e pretos nas chamadas “instituições públicas”. Talvez assim elas, finalmente, possam ir se tornando públicas de verdade.

sábado, 2 de abril de 2022

"Americano"?

Os cara chama estadunidense de americano. Brasileiros, submetidos pelos poderes estadunidenses desde a medula, induzidos a um sentimento de inferioridade que facilita o saque das nossas riquezas. Que nos faz admirar, além de um império criminoso, os Estados Unidos, que interfere em todos os países das Américas -, a Europa, um continente construído em cima da colonização do resto do mundo, de invasões, destruições, escravizações, extermínios muitos, saques permanentes até hoje, apresentando em seu pequeno território condições sociais invejáveis em qualquer outro lugar do mundo. "Invejáveis" pra quem não tem noção de como foram construídas essas condições de "primeiro mundo". Vergonhosas, pra quem tem. Não há motivo pra admiração nenhuma.

Escuto o cara falando no vídeo - assunto bom, denso, ligado na realidade - que o interesse "americano" tá na guerra da Ucrânia. Concordo que os Estados Unidos vêm fabricando essa guerra desde a década de noventa do século passado, mas contesto o linguajar num comentário.

"Americano"? Tu é o quê? Eu sou o quê? Sub-americano? Tu assume essa subalternidade? Eles são estadunidenses, além de americanos. Nós somos brasileiros, além de americanos. Chamar estadunidense de americano é reconhecer "os donos", os "patrões", os "senhores" do continente americano. Subliminarmente, claro, condicionamento do inconsciente com psicologia do mesmo nome. E a gente repetindo por aí, programações mentais do colonialismo. Se liga, cumpade. Não estou sendo hostil, raivoso, dono de verdade nenhuma, tô só te dando um toque. A gente exerce esse colonialismo sem perceber. Mas se percebe, pode ser útil no desfazimento dessa "inferioridade" artificial, criada pelos colonizadores - com o auxílio da elite local - pra manter o controle, inclusive mental, além de ideológico, psicológico, cultural, a partir da alma. Arte conversa com a alma. É preciso muita responsabilidade. Mas, como em todas as áreas, a gente vê a arte ser usada mais pra aprisionar do que pra libertar. Arte não é boa coisa só por ser arte. Depende sempre do artista, de quem produz a arte. Do caráter, do interesse, da intenção, daquilo que move o artista. É nessa base que tá o valor da arte, não na fama, na repercussão, no celebrismo. Aí, muitas vezes, é que tá a perdição da arte. No sentido da evolução humana.

Sobre a guerra na Ucrânia eu não tô falando, porque fico triste de ver como as pessoas repetem, em vários níveis, os condicionamentos, as distorções e as mentiras da mídia empresarial, dominante no mundo ocidental todo. Lembrando sempre que "mundo ocidental" pode até nos incluir, como subalternos, aliados na língua deles - assim como empregado, funcionário ou contratado agora é "colaborador" -, mas na verdade o que se considera "ocidente" tem a Europa e os Estados Unidos. Tá bom, o Canadá também, embora economicamente "desprezível", tá de irmão menos, de linhas coloniais francesa e inglesa. Mas América Latina, África, Ásia e Oceania tá tudo fora, é tudo "sub-gente" pra eles.

Colonialismo mental, cultural, econômico, social, político, psicológico, comportamental é um assunto pra se pensar.

quinta-feira, 24 de março de 2022

A caminho.

 Estamos por criar uma sociedade em que as empresas estarão a serviço do ser humano, superando essa estrutura que ainda põe os interesses econômicos no patamar de maior importância e relega o ser humano a um patamar secundário. Uma sociedade humanista está em gestação, através dos sacodes planetários, climáticos, ecológicos e sociais. 

quinta-feira, 10 de março de 2022

Distorções e Induções

 Impressionante o poder das empresas de comunicação em distorcer a realidade e criar mentalidades, em provocar e insuflar sentimentos na direção dos interesses que controlam essas empresas e o que é dito, em conduzir a opinião pública. Ao longo da minha vida, vi inúmeras campanhas midiáticas - que juntam jornalismo, entretenimentos, programas de auditório ou não, agora com as redes internéticas - criarem ambientes pra acontecimentos terríveis, estimulando ódios e conflitos. Com o tempo, invariavelmente, se provavam mentiras, farsas, manipulações, difamações, injustiças, sempre a favor dos tais interesses. Passa o tempo e nova campanha começa. Eu já sinto o constrangimento de ver toda a mídia criando as opiniões que vou ouvir por aí como se fosse próprias. Os temperamentos agressivos usam essas mentiras programadas pra criar conflitos, insultar, provocar e expandir sua destrutividade.

Observo com calma, não alimento conflito, não vejo sentido. Só me sinto constrangido diante de tanta superficialidade, tanta fragilidade diante das induções. Olho através do tempo e vejo mudanças sem parar ao longo de todo o caminho. Ele não termina, segue a perder de vista, tudo mudando todo o tempo.

Vejo as induções, as mentiras e distorções nos jornais e informativos da mídia comercial, ao longo do tempo - elas se repetem, periodicamente, se adaptando às novas situações, tecnologias e conhecimentos sobre a psicologia humana, o controle mental, a indução e o condicionamento de massa. A mim não me levam mais, há tempos. As provas da grande falcatrua estão na realidade à minha volta, cobertas com as mentiras sociais, planejadas em laboratórios de pensamento e implantadas pelas comunicações empresariais em massa.

Aos poucos - e agora mais que nunca - vão se revelando os bastidores da nossa "realidade". Aos poucos mais e mais pessoas vão percebendo, ainda poucas, exceções que se multiplicam pelas gerações que vão e que chegam. É preciso tolerância com os que se deixam convencer pelo exército de profissionais da mentira. E, em alguns casos, é preciso distância também.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

A farsa se descara - ou a ilusão vai se demonstrando claramente.

 Estou vendo por aí se falar de "declínio da democracia". Na minha visão, um engano. Está se vendo é o descaramento da falsidade, essa tal "democracia" nunca existiu de verdade além de instituições de fachada, infiltradas, pressionadas e submetida por poderes econômicos - banqueiros, mega-empresários, financistas e outros que formam um punhado de podres de ricos escondidos sob o nome de "mercado", fonte da corrupção que a mídia empresarial aponta, estrategicamente, na chamada "política". Os corruptos são responsabilizados genericamente enquanto os corruptores não são nem mencionados.

Uma democracia, pra mim, supõe um povo alimentado, instruído, informado, com senso crítico e capacidade analítica pra ter condições de entender o que acontece, não se deixar enganar por demogogos e por distorções do jornalismo comprado, de consciência vendida. A própria estrutura social é montada de forma a impedir, a todo custo, o respeito aos direitos constitucionais, básicos e humanos da população como um todo.
Não há democracia. O que há é um simulacro institucional safado. E não está declinando, está se revelando uma grande mentira.
Não é porque um capataz é sádico e criminoso e outro capataz é bonachão e facilita a vida dos escravos que os donos deixam de ser donos. Quem manda é o poder econômico, ainda. E é óbvio que entre o sádico e o camarada, se escolhe o camarada. Até porque assim se podem criar condições de acabar com essa escravidão mental e começar a construir outra estrutura social, mais humana e solidária, menos injusta e perversa, através das gerações.
Uma sociedade que tenha no centro de importância o ser humano e todas as suas necessidades - e não os interesses de "mercado" que impõem miséria, desabrigo, ignorância, desinformação, exploração a nível de escravidão, além do saque do patrimônio público e das riquezas da nação.

sábado, 5 de fevereiro de 2022

Agora "foi golpe"? As mutações se impõem.

 O departamento de estado estadunidense dá as regras e estas são seguidas, da mesma forma, em vários países da América Latina. O candidato indesejado é eleito, a oposição tenta colar o rótulo de "fraude". Não colando, parte pra sabotagem do governo eleito - geralmente unindo consciências vendidas em congressos e judiciários. Provocando o insucesso da governabilidade, arma-se o cenário pra um impítiman. Em todos os países há pilantras prontos a servir os saqueadores e trair sua nação - vender a própria consciência rende fortunas, nesses casos. O mesmo procedimento no Brasil, na Argentina, no Paraguai, na Venezuela, na Bolívia, enfim, onde não haja governos dominados pelos "interesses econômicos" - a partir dos mega-banqueiros mundiais que já há séculos dominam as nações, contando com a cumplicidade das "elites locais", em geral brancas e descendentes dos maiores senhores de escravos, colonizadas mental e espiritualmente.

Enquanto rolava o golpe, o silêncio institucional era estarrecedor. As tais "pedaladas" que serviram de pretexto - já que o exército de investigadores, brasileiros e estrangeiros (sobretudo estadunidenses, britânicos e israelenses), não conseguiu encontrar uma só falcatrua, um único real ou dólar ilegal nas contas do metalúrgico e da ex-guerrilheira - foram legalizadas pelo congresso nacional pouco tempo depois, por serem um procedimento comum, de praxe, usado pelos governantes em geral e de qualquer ideologia, pra continuarem servindo ao equilíbrio orçamentário de estados e do país. Não havia crime de responsabilidade, não havia motivo legal, pra impitimar a presidente. Apenas ela não tinha a vaselina do ex-metalúrgico pra tratar com corruptos, esmagadora maioria no congresso e nos poderes públicos, e criou uma rejeição enorme entre os "eleitos" do legislativo ao rechaçar qualquer papo com cheiro de sujeira, de entreguismo e falcatruas institucionais. Ao botar pra fora do seu gabinete, aos insultos, parlamentares vendidos a interesses econômicos que exigiam o sacrifício da população, rotineiro e cotidiano até então. Obviamente, o massacre midiático criou tamanha tsunamis desinformatica que, até hoje, se mantêm mentalidades brutalmente convencidas da "bandidagem petralha", sem perceber a estrutura social inteiramente construída pra funcionar sob o domínio dos corruptores. De quem, aliás, não se fala - a vista meio cega só enxerga os corruptos. Na dita "política", claro, porque o "mercado" onde moram os corruptores é apresentado como a fonte das virtudes e da competência.

Que forças amarraram tão fortemente os poderes institucionais que poderiam ter impedido esse golpe e evitado a tragédia da eleição de um criminoso declarado, conhecido, praticante de falcatruas há décadas? Quais os poderes que estão acima dos chamados "poderes públicos"? A pista está na convocação recente do BGT Pactual, um banco de segunda linha, aos "presidenciáveis", pra um evento sintomaticamente chamado "CEO Conference", em inglês mesmo, descarado. Dizem que é o "mercado financeiro", pra não dizer que são os maiores banqueiros, na verdade controladores do tal "mercado" tanto quanto ou mais ainda do que dos "poderes públicos". Pra esconderem esse punhado de podres de ricos - causa e fonte de toda a miséria, fome, desabrigo, ignorância e desinformação, em última análise - se usa o termo genérico, nebuloso, de "mercado", pra manter os verdadeiros poderes, que submetem todos os governos, no escuro, nos bastidores, ocultos, longe dos holofotes da mídia empresarial, dominante nas comunicações do país e dominada por esses mesmos vampiros sociais.

O silêncio covarde do supremo tribunal, diante de um golpe de estado armado de fora pra dentro, contando com a trairagem das "elites" políticas e econômicas - e com a lavagem cerebral permanente executada pelo massacre midiático, publicitário e ideológico -, foi imposto pelos poderes imperiais, colonizadores, saqueadores das riquezas das nações e sabotadores do seu desenvolvimento. No Brasil a sabotagem iniciada com o golpe seguiu destruindo todos os instrumentos e mecanismos criados para um verdadeiro desenvolvimento do país e seu povo, ainda no nascedouro. Pequenas aberturas foram fechadas, na educação, na agricultura, nas comunicações, nas relações sociais, em toda parte. E o silêncio dos "magistrados" ecoaram como um trovão, anunciando os poderes ocultos que dominam os chamados "poderes públicos", que nunca foram mesmo públicos, até agora. Ainda serão.

Agora, que a indústria naval foi destruída, a indústria da construção pesada fechou mais de 200 empresas no território, que a Petrobrás foi esquartejada e reduzida, privatizada na surdina nas suas partes mais rentáveis e produtivas, deixando de refinar os combustíveis que atendiam a todas as necessidades do país e passando a comprar no exterior a um preço que depende do tal "mercado internacional", que o acesso mínimo aberto à população mais sabotada em escolas e universidades vem sendo fechado e dificultado ao máximo, que a fome tornou a se espalhar, o desabrigo se expõe em toda parte, que milhões e milhões estão sem trabalho, agora que a perversidade está escandalosamente instalada nos cargos mais visíveis dos governos, surgem tardiamente as vozes dissonantes. Onde estavam esses covardes enquanto esses crimes sociais eram cometidos na preparação da situação de agora? Nos mesmo lugares onde estavam caladinhos, o que dá a perceber que receberam algum tipo de permissão pra começar a se manifestar, a esboçar alguma reação institucional. O contraste com o silêncio os denuncia. 

Esta nossa sociedade é uma grande farsa. E é a partir desta percepção que se pode e vai construir um outro modelo, mais humano, mais harmônico, menos injusto, mais igualitário, menos perverso e mais solidário. Quanto tempo, quantas gerações isso vai levar, depende de nós, das nossas reações, individuais e coletivas. Mas o planeta, com todas as mutações que se apresentam cada vez mais profundas e amplas, parece preparar um grande impulso nessa direção. É o que me parece.

 

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.