terça-feira, 21 de setembro de 2021

Desprezo não diminui ninguém

 Muitas vezes vi meu trabalho ser desdenhado, desprezado, desqualificado, com olhares, posturas ou diretamente mesmo, com palavras e olhos nos olhos. Opiniões desprezadoras, desqualificadoras, costumam vir acompanhadas de agressividade, essa foi uma das lições do mangueio. Eu, como desqualificado social, vendendo artesanato de mesa em mesa, bar em bar, ouvi muitos insultos de pessoas que consumiam nos bares, garantidos como clientes. Eu sabia que se arrumasse problema, não poderia mais entrar naquele bar. E era um circuito de bares que eu fazia, pelas ruas na noite. Então aprendi a reagir de outras maneiras, sem agressividade. Entendia o insulto, às vezes vinham de pessoas típicas da classe onde eu havia nascido, era fácil entender os mecanismos mentais dessas pessoas. Elas que não percebiam com quem estavam tratando, supondo uma inferioridade social que pra mim era claramente falsa, e se surpreendiam com meu trato de igual pra igual, mesmo com todas as diferenças sociais visíveis ali, evidentes. Aprendi a dizer verdades com delicadeza, pra não provocar reações violentas, ao contrário, desfazendo essas possibilidades. E assumir eventuais prejuízos com serenidade, refletindo em como evitar acontecer de novo, o que me passou sem que eu percebesse, o que eu não vi que poderia ter evitado. Eu gostava do meu trabalho e desvalorizações vinham de mentalidades que não me importavam, os que gostavam eram poucos, pero buenos.

Uma vez, num bar da avenida do contorno, talvez esquina com o início da avenida Brasil, em Belzonte, noite de sexta pra sábado, parei mostrando meus brochinhos a um grupo que ocupava uma mesa tripla, na calçada - nesse tempo as mesas eram acessíveis ao mangueio, hoje é tudo fechado, com seguranças pra não deixar abordar -, algumas pessoas estavam olhando, gostando, comentando as idéias, os desenhos, gravados em relevo na chapa de metal. Um camarada do grupo, que estava na outra parte da mesa, se aproximou, olhou os trampos, ouviu as conversas, eu explicando como fazia, desacreditou. "Eu sei onde cê compra isso lá em São Paulo, vim de lá ontem, vi esses brochinhos aí mesmo", apontando pro meu painel. Todo mundo me olhou constrangido, o cara tinha explicitamente me chamado de mentiroso. Eu ri, disse pras pessoas em volta "eu vou tomar como um elogio" e olhei pro cara. Os olhares eram meio desentendidos. Estendi a mão cheia de calos e disse, sorrindo ainda, "cê acha meu trabalho tão bom, que é impossível que eu faça à mão, né isso? Por isso que tá mentindo, dizendo que viu em São Paulo. Esses calos na minha mão devem ser de coçar o saco, né não?", ri de novo, olhando pras pessoas. "Eu é que sei se faço ou não faço, qualquer idéia é livre, todo o respeito." Ele fez um olhar meio confundido, eu completei, "te agradeço o elogio". E fui saindo, já tinha vendido, recebido e encerrado as ligações. "Valeu, pessoal, tô seguindo na lida", acenei, recebi os acenos de volta e segui mesmo, pra outras mesas e outros contatos. As lições eram todo dia, muitas mais do que eu podia absorver. Guardei algumas. Nas memórias profundas, do inconsciente, devem estar todas.

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

A realidade é maior que o teatro institucional

Não sinto mais vontade de opinar sobre a cena cotidiana. O desmonte, o derretimento de tudo o que vinha sendo preparado pra começar - isso mesmo, começar - a proteger a vida, a dignidade, o equilíbrio ambiental, pra começar a formar uma sociedade realmente humana, todos os mecanismos institucionais que apenas esboçavam ações de contenção das destruições múltiplas foram sendo desmontados, a céu aberto, a olho nu, coberto apenas pelo oceano de ignorância produzido por uma sabotagem permanente de uma educação verdadeira, pelo modelo de ensino imposto pelo mercado, pela desinformação profunda produzida por mídias empresariais, interessadas no lucro, não na verdade. Aliás, se a verdade estiver no caminho do lucro, ela é destruída, escondida, difamada, destroçada, como temos visto ao longo da vida inteira. A ignorância e a desinformação são fáceis de dominar, controlar, conduzir e enganar por quem tem o controle do conhecimento e da informação.

A cada cena da política partidária, opiniões se digladiam no palco das mídias, ódio explícito, raivas imensas, acusações tenebrosas. As discordâncias são determinantes de inimizades mortais, insultos, deboches, difamações, tudo de acordo com a programação social. Este modelo de sociedade nos ensina a competir, a disputar, confrontar, vencer. Ele não vai mudar por confronto, disputa, conflitando, na luta. Isso é reproduzir as induções sociais, sem capacidade de sequer tocar na estrutura desumana da sociedade. Vejamos o que os poderes sociais mais atacam e aí estarão os seus pavores, suas fragilidades. Todos os governantes que investiram em qualidade de educação e alcance à maioria das pessoas foram difamados, atacados, caluniados, muitos foram derrubados. A ignorância é fundamental pra se manter o controle. A desinformação e a desorganização da maioria são necessidades de manutenção deste sistema social. Esta estrutura precisa, pra se manter, de alienação, superficialidade, precisa evitar a todo custo a tomada de consciência da realidade, a formação de senso crítico.

Hoje, mais que nunca, vejo discussões carregadas de ignorância, preconceito, desinformação, mentira, agressividade e destruição. Há quem saia por aí procurando briga, há quem se deixa levar toda hora, diante de qualquer provocação, de alguém ou da vida. Nunca me interessou uma discussão sem proveito, uma disputa que acaba frequentemente em insultos, às vezes em sopapos, sempre em mal estar. Não creio que seja um bom objetivo. Uma boa discussão termina com a gente satisfeita e acrescida em alguma coisa, um entendimento, um aprendizado, um desenvolvimento. Se não for assim, é perda de tempo, de energia e de paz.

Vejo mais claro que nunca a encenação das marionetes dos falsos "poderes públicos". Assim como os mecanismos subterrâneos por onde os verdadeiros poderes controlam a sociedade, tanto nas instituições do Estado quanto no controle das comunicações - usadas na condução de "opinião pública", na distorção da realidade, da distração alienante, na superficialização do pensamento, na hipnose coletiva do massacre publicitário, na desinformação criminosa, na criação de valores e comportamentos, tudo de acordo com os interesses de um punhado de podres de ricos pobres de espírito. Não é preciso derrubar esses parasitas, basta parar de se comportar, de querer, de valorizar o que somos induzidos e criar (ou reconhecer) os próprios valores, comportamentos, desejos, objetivos de vida... Um "basta"  bem mais profundo do que pode parecer. Mas faria ruir num instante este sistema social injusto, perverso, covarde e suicida. Tão suicida que seu fim está se aproximando.

Explodem vulcões, sacodem terremotos, derretem os pólos do planeta. Há água contaminada em todo o planeta, por venenos agrícolas, da mineração, dos resíduos industriais, águas, terras e ares. O clima se torna mais violento, o nível do mar sobe. Todos os sinais previstos e avisados ao longo do século passado, por "malucos" que foram totalmente ignorados - pela mídia e pelos poderes tanto públicos quanto econômicos - quando não atacados, difamados, ridicularizados, perseguidos ou mortos. Mas avisos não faltaram. Quem acompanha os acontecimentos no mundo está vendo as mutações planetárias em curso, em ritmo mais acelerado que nunca. Se acentuam as migrações, o movimento de populações sobre os territórios. Com as mudanças climáticas, somadas ao movimento do eixo da Terra, essas migrações serão em massa e modificarão toda a geo-política mundial, todas as fronteiras e todos os países.

O planeta está em processo de transição, alguns sabem, outros intuem, sentem, muitos não têm idéia, alienados pelo próprio sistema social que entra em agonia, nos espasmos do fim, da mutação forçada pelos acontecimentos. Essa pandemia é um sinal grande e abrangente do início da pressão a que estaremos submetidos por algumas gerações, até o nascimento de um outro modelo social, menos perverso, mais solidário, menos injusto, mais humano - no sentido de que o ser humano e seu desenvolvimento estará no centro de importância, a miséria, a ignorância, o desabrigo, a fome deixarão de existir, as necessidades básicas serão supridas pra que a gente possa alcançar outros patamares de relações, outros níveis de percepção, de contatos e desenvolvimentos como humanidade planetária.

A divisão está sendo feita em todos os planos terrestres, revelações vêm sendo feitas entre nós, se mostram perversidades onde antes não se mostravam, familiares e amigos se espantam com personalidades que antes pareciam tranquilas, pacatas, inofensivas e "passaram a ser" agressivas, intolerantes, odiosas, destrutivas. A vibração pessoal se escancara e a divisão é clara. A humanidade atinge o patamar da solidariedade, da harmonia e do equilíbrio social e os obstáculos vão se definindo e sendo retirados, pouco a pouco. Os que vibram no peso da maldade, do egoísmo, do conflito, da destrutividade estão sendo levados a orbes mais sintonizados com a sua freqüência - pra seguirem sua evolução em locais mais apropriados às suas necessidades, ao mesmo tempo em se "limpa" o caminho do desenvolvimento da humanidade. Será uma migração em massa interplanetária.

Somos ainda primitivos espiritualmente e temos o infinito e a eternidade pra nos desenvolver. Causando, colhendo consequências, refletindo, aprendendo, praticando a vida. Do mesmo jeito que estamos num ponto de desenvolvimento inimaginável aos nossos antepassados, alcançaremos compreensões, conhecimentos, movimentos e relacionamentos que ainda não podemos sequer imaginar. Embora esta, a imaginação, seja uma grande ferramenta de pesquisa e projeção, ela se baseia sempre na realidade do agora. A minha me permite entrever a comunicação interplanetária entre diversos sistemas e civilizações, assim como entre dimensões vibracionais, de matérias distintas. Penso que a ciência está perto de descobrir, cientificamente, a existência das dimensões espirituais. Daí à comunicação direta, será um passo.

sábado, 14 de agosto de 2021

Vai ser preciso superar e reconstruir.

O planeta está nos dando um sacode bem dado e bem merecido, pra gente tratar de se estruturar em uma sociedade onde o respeito esteja em lugar prioritário. Onde o ser humano e o equilíbrio planetário estejam no centro da importância social. As próximas décadas serão de intensivão em todo lado, a mutação que já é permanente, agora se apressa na pressão. É preciso colher o que foi plantado, assumir as responsabilidades e superar as dificuldades que virão. Algumas gerações vão passar nesse trampo de resgate e reconstrução. Depois, estarão lançados os alicerces da nova sociedade, fundados nos sentimentos afetivos, na solidariedade, no sentimento de família humana.

"No hay mal que para bien no venga." Se perde o bem que pode vir, quando prevalecem sentimentos de revolta ou depressão. Sem aqui estar julgando, muito menos condenando os que se revoltam ou deprimem. Cada um tem seus caminhos, suas condições, sua situação no mundo e seus aprendizados a fazer de todas as maneiras, a cada um de acordo com suas necessidades espirituais. E eu percebi que ganho muito mais paz de espírito me reconhecendo incapaz de alcançar todas as razões de cada atitude em suas raízes mais profundas. E passando longe de exercer a arrogância de andar por aí apontando o dedo pros erros alheios, atitude inútil e, no mais das vezes, destrutiva. Meu senso de justiça não me dá o direito de julgar. Posso analisar as atitudes, relações, acontecimentos, sem chegar a "veredictos", mas sim a percepções, aprendizados, sempre observando e absorvendo - ou tentando, praticando, desenvolvendo. Posso determinar, pelo meu sentimento, do que me aproximar e do que me afastar. Não por julgamento, mas por uma questão de sintonia. Ou dessintonia.

Além do mais, tenho meus próprios erros, minhas próprias falhas pra trabalhar. Aí sim, é meu espaço e meu trabalho em mudanças funciona, nos valores, nos desejos, nos comportamentos, na visão de mundo, nas escolhas e opções pelos caminhos da vida. Apontar falhas alheias só vai me atrasar - a não ser em situações muito específicas, onde cada caso é um caso. A referência é ser útil e inofensivo.

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Espiritualidade em evolução

A espiritualidade não precisa de religião. Ela é exercida na vida prática, nos relacionamentos, na conduta, na forma de se relacionar com o mundo, com as pessoas, com as coisas e com os acontecimentos. Na agressividade ou na serenidade, na cobrança e na acusação ou na compreensão e no acolhimento, na generosidade ou no egoísmo, na humildade ou na arrogância. Nos sentimentos que se produz em si mesmo e nos que se causa nas pessoas em volta. Há espiritualidade em todas as religiões – e fora delas. Em todos os níveis. Não depende da religião, mas da alma de cada um. Não importa no que se acredita, não importa se não se acredita em nada. É no comportamento que se revela o que se é, não na crença.

A escolha de como tratar com a espiritualidade é direito de qualquer um, a ser respeitado coletiva e individualmente. Um desenvolvimento social e individual ainda muito pouco alcançado, pelo que se vê no mundo, religiões primitivas, ignorantes e arrogantes, demonizando e atacando outras formas de espiritualidade, sejam quais forem, desde que diferentes da sua. Ainda não se alcançou o estágio de humildade pra reconhecer a própria pequeneza e a incapacidade de compreender dimensões inalcançáveis pela razão humana. Embora se possa perceber o desenvolvimento ao longo do tempo, de anos a milênios. Do individual ao coletivo.

Há quem não perceba, há quem negue e é direito de qualquer um negar. É a contraposição aos que definem o indefinível, explicam o inexplicável, concebem o inconcebível e impõem sob ameaça – ou se acredita, ou se está condenado ao sofrimento eterno do inferno. A arrogância de estar em contato direto com o “supremo ser do universo”, um universo que nem conhecemos ainda, acaba criando um deus de características humanas, vaidoso e vingativo, com exigências tenebrosas e ameaçadoras, promessas de felicidade e prazeres – ou sofrimentos torturantes – ”por toda a eternidade”. Pobre ser humano inconsciente ainda do seu próprio desenvolvimento espiritual, empurrado à frente pela força dos acontecimentos, levado pela mutação permanente que é uma das leis que se podem perceber claramente – mas que, em geral, não se leva em conta. Ainda.

Vai se percebendo, muito pouco a pouco, que a espiritualidade verdadeira está na solidariedade prática, no sentimento de família humana, de pertencimento à natureza, no comportamento afetivo, generoso, igualitário e respeitoso. Que as necessidades materiais são muito menores que as necessidades espirituais, que o corpo abstrato – sentimento, pensamento, caráter, desejos, objetivos de vida, visão de mundo – é muito mais importante e duradouro que o corpo físico. Que a verdadeira satisfação pessoal está diretamente ligada à satisfação coletiva. Vai se descobrindo, no íntimo de cada um, e se percebendo, pelos exemplos que aumentam no convívio social, sem barulho, sem chamar a atenção – a não ser dos atentos, exceções às regras. Ainda.

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Fábio Júnior pacifica a vila

 Prudente de Morais, Minas, 1991. Uma pequena vila de cerca de vinte casinhas, do mesmo dono, feitas pra serem alugadas. No meio das casas, um espaço aberto, sem calçamento, de terra, pedras e mato, servia às brincadeiras das crianças. Brisa tinha nove anos, Adhara sete e Ravi, três.

De repente, um desentendimento no grupo. Parou a brincadeira, dois meninos se espinharam, um acusando o outro. Já havia chegado um “irmão grande” pra resolver a parada, de cara feia, ameaçadora. O protegido apontava o oponente com o braço esticado, desfiando acusações sobre um adversário desconfiado, acuado pelo tamanho do recém chegado.

Ravi estava de castigo por ter atirado uma pedra em Adhara, não podia sair de casa mas podia ficar na janela - porque não tinha acertado a pedrada -, onde se epoleirou e participava, aos berros, das brincadeiras, com os pés no batente e a mão segura no alto da janela.

Na tensão do momento, aliviada por vários olhares adultos que pararam pra observar – como garantias de não violência – Brisa cochichou no ouvido de Adhara, que repetiu imediatamente o que ouviu, em voz alta, “ele parece o Fábio Júnior!”

Todas as atenções foram centralizadas no moleque maior, tanto do grupo quanto dos olhares em portas e janelas. O rapazinho que começava a falar com brabeza, engasgou, sem graça, e Ravi soltou uma gargalhada aguda, repetindo aos gritos, “Fábio Jú-niô! Fábio Jú-niô! Fábio Jú-niô! Fábio Jú-niô!” Várias risadas soaram, alguém comentou, “parece mesmo!”

O protetor se voltou contra o protegido, “olha aí o que cê me arrumou!” E bateu em retirada, resmungando. Risadaria geral, todos voltam aos seus afazeres, a brincadeira é retomada, menos pra Brisa e Adhara, que estão sentadas na calçada, dando uns minutos de risadas.

quinta-feira, 6 de maio de 2021

Respondendo ao Intercept

 

Fui procurado por Fabiana Moraes, jornalista do Intercept, pra responder a umas perguntas por conta de um artigo a ser escrito por ela e publicado uns três dias depois. Eu estava em Niterói, tinha vindo com o pretexto de tomar uma vacina anti-covid, que foi suspensa porque acabou, buscar material de trabalho, imprimir o mais que pudesse – a mesa de impressão é muito pesada, na área onde estou ainda não tenho espaço nem condições pra levar. Vou levando aos poucos, conforme o caminhar das coisas. Mas voltando ao assunto, disse a ela da minha correria, na noite seguinte partiria pela Dutra e iria respondendo por áudio. E a correria continuou, separando ferramentas pra levar, papéis, telas, roupas, arrumando tudo, até a noite seguinte. A saída foi uma e meia da manhã, chovia muito e a estrada exigia toda a atenção, ou seja, não deu pra responder. Chegamos amanhecendo o dia, eu estava bem cansado, tanto que não consegui dormir até umas nove da manhã. Caí das nove às quatro da tarde, acordei meio zonzo, o braço inchado – ah, não falei que eu tive uns bernes no braço, tirei com babosa e tava tratando, quando peguei um sabonete medicinal e uma pomada com base de própolis que tinham, sem que eu soubesse, um componente que tem me dado uma reação violenta, me incha a cara e várias partes do corpo, dá uma coceira enorme. Por ser um componente mínimo no total, a reação não foi tão violenta, mas estendeu em muito o tratamento, que até se tornou meio cotidiano. Quando acordei, não tava nada bem. E por um tempinho, esqueci completamente das perguntas, ocupado em tratar – chá de gengibre, alho cru e mastigado, babosa no braço, chá de sempre-viva (que muitos chamam de “penicilina”), cabeça pesada, um sono danado, dormi. Quando acordei, já ia longe o último prazo que eu tinha pra mandar as respostas, eu tinha me desculpado com ela por não ter gravado na Dutra e ela me disse que se eu mandasse pelo menos uma resposta até o dia seguinte antes de meio-dia, daria pro artigo. Mas não deu, não pude, não tava bem, foi muito em cima e num momento difícil mesmo pra dispor um tempinho de cabeça fria pra concatenar as idéias. De qualquer forma, o artigo saiu, eu li hoje e... puxa vida. Muita desinformação e distorção. Fui misturado à direita e a “gurus”, me colocaram opiniões que não são minhas, distorções não sei se intencionais ou não, mas distorções. Como é um artigo do intercept, que respeito desde as revelações da vaza-jato – inclusive comprei o livro – resolvi fazer um apanhado no que foi publicado a meu respeito e manifestar minha opinião, sem querer ofender ninguém, só tentando esclarecer. Trouxe aqui apenas a parte que me diz respeito, entre aspas.

 

“A mão pesada da digitalização vai capturar, vejam só, mesmo aquelas e aqueles que, em nome do juízo e da espiritualidade, procuram se manter “fora” da internet. É o caso do artista e palestrante Eduardo Marinho, que possui uma significativa base de fãs e seguidores nas plataformas: um de seus perfis no Instagram, o @eduardomarinho.viacelestina (mantido por um apoiador), conta hoje com 386 mil seguidores, enquanto o documentário “Observar e Aprender” (2016) tem mais de 3,3 milhões de visualizações no YouTube.”

 

Primeiro, não procuro me manter “fora” da internet, já que tenho páginas no feice – uma pessoal e duas fanpeiges – e um canal no youtube, aberto por mim no ano passado, de tanto ouvi pessoas comentando sobre “meus vídeos”, sem que eu mesmo tivesse feito nenhum. Eram todos feitos por pessoas ou coletivos que postavam em seus próprios canais. O primeiro computador me foi dado, sob a alegação de que eu “precisava”, e ficou desligado um tempão – pensando “não sei mexer nisso, posso estragar, se quebrar não tenho grana pra consertar, então deixa aí”. Mas logo amigos do meu filho me ensinaram a ligar pra ver o gúgol, depois abri um endereço eletrônico e comecei a me corresponder, encontrar pessoas que tinham passado pela minha vida e sumido, contente da vida. Então conheci Márcia, ativista social, que me intimou com o dedo na cara, “tu tem a obrigação de escrever tudo isso que fala”. E abriu um blogue, o observareabsorver.blogspot.com. Isso tudo por conta de um vídeo gravado comigo enquanto eu expunha meu trabalho na rua, no bairro de Santa Teresa, no Rio. Havia trinta anos que vivia do meu trabalho, sempre vendendo nas ruas, nos bares, nas praças, em frente a escolas, e estava satisfeito, um trampo que provocava reflexão, questionamento, conversas produtivas, enfim, tava satisfeito. Mas a internet caiu na minha cabeça sem eu chamar e, quando vi, estavam me reconhecendo por aí, de vez em quando.

O instagram Via Celestina foi aberto e administrado sempre pelo Hare Brasil – que foi quem Fabiana procurou pra me contactar. Já nas filmagens do primeiro filme, Via Celestina, ele tentava me convencer a abrir um instagram e eu recusava. Já tinha ocupação demais com internet e precisava trabalhar pra me manter, porque nunca aceitei publicidade nas minhas coisas, nada meu é “monetizado”, ou seja, não banca minha vida e minhas despesas. Meu trabalho é exclusivamente manual e precisa de tempo pra ser feito. Como o Hare percebeu que eu não iria abrir instagram nenhum, sugeriu ele mesmo abrir, pra divulgação do filme. Tanto que Via Celestina está no título. Nunca fiz uma postagem, nem controlei, o Hare sempre fez o que quis. Lembro de uma única postagem que vi e discordei, pedi pra tirar e ele tirou. Nem lembro o que era. Depois disso, pouco vi a mais, ficou por conta dele. Quando fazíamos já a viagem do segundo filme, Transição, ele usou o insta pra várias coisa, inclusive “ao vivos” pra arrecadar grana, pois a viagem foi interrompida pela pandemia e ficamos seis meses em Cavalcante, na chapada. Ali ele me pediu pra “autenticar” o insta, pras pessoas verem que era eu mesmo por trás daquela página. Passei dados pessoais e o sinal verde foi concedido. Assim foi terminado o filme, a covid começou a chegar por lá e resolvemos voltar.

O Hare foi pra Santa Catarina, trabalhar com música, que é mais o que ele quer na vida. O que tínhamos pra fazer, havia sido feito e não foi pouca coisa. O instagram ficou “autenticado”, cheguei a falar com ele pra “desautenticar”, mas parecia impossível, teria que apagar a página segundo ele, eu podia pedir outra autenticação pra página que minha filha tava abrindo pra mim, mais próxima, e não se desautenticou. Senti um desconforto, afinal foram dados pessoais que passei pra a empresa lá colocar um sinal “autenticando”. Mas como não teve jeito, não disse mais nada. Cada um tomou seu rumo e sua vida pra cuidar. Eu vim pra uma terra que uma filha minha, depois de viver no exterior, trabalhar em navios de cruzeiro e se estabelecer de volta no Brasil, comprou mas nunca ocupou. Nem cerca tem por aqui, estou começando do começo, já que não dá pra expor e aglomerar, que era do que eu vivia.

O documentário Observar e Absorver – citado no artigo – foi feito em 2015, por Carlos Marques Júnior, o Júnior SQL, no embalo de uma série de vídeos que eram feitos comigo, na rua mesmo, por diversas pessoas. E antes tive participação em outro, pouco conhecido, “Escafandristas – cifrões, padrões e exceções”, de Victor Belart, um média metragem que acho valer a pena assistir, tem utilidade coletiva.

 

“Marinho vem há décadas circulando pelo país e falando, seja nas ruas, nos bares ou em auditórios, sobre desigualdade social, a crueldade de nossa elite política e econômica, os resultados desastrosos de uma sociedade que fomenta e privilegia a competição. São críticas extremamente necessárias e também bem comuns no campo da esquerda. Articuladas em nítida separação da esfera política e centradas na ação individual, no entanto, elas  vão se encontrar com o discurso perpetrado por bolsonaristas e afins: se no fim, “é tudo ladrão”, vamos quase todos em busca de um Messias. E estamos sentindo na pele que essa estratégia não dá certo.”

 

“Circulando pelo país” é tão genérico, superficial, não dá a menor idéia da história. Depois de anos na estrada, já com uma filha pequena, fazendo brincos, pulseiras, colares, sapatos de criança, bolsas, pão integral de vários tipos, cheguei em Salvador sentindo necessidade de colocar no meu trabalho o que me engasgava na realidade que eu estava vendo. De colocar o que eu sentia, o que eu pensava, pra expor ao mundo e viver disso. Não eram “críticas”, embora haja espaço pra essa interpretação, não era isso o que eu sentia. Era o que eu via, o que eu sentia, o que eu pensava diante do mundo, usando também pensamentos de outros que dissessem o que eu pretendia que fosse visto no meu trabalho. Esse papo de “é tudo ladrão” nunca saiu da minha boca, minha visão sobre a política institucional é algo mais profunda que isso. O que vejo é o esmagamento do poder econômico-financeiro determinando políticas ditas “públicas”, é o Estado como um Robin Hood ao contrário, permanentemente roubando a maioria mais pobre pra dar a podres de ricos já privilegiados demais diante da miséria. Que existem pessoas bem intencionadas, honestas e conscientes lá dentro, é óbvio. Exceções há em qualquer coletividade. E há serviço em toda parte, não vejo a política exclusivamente partidária, que me parece mais um teatro macabro de marionetes, dominado dos bastidores com o apoio total da mídia.

Meu trabalho é político, onde há qualquer comunidade há política, onde há polis, há política. Essa indução de que só há política nos partidos é apenas uma a mais, validando a estrutura dominada, como se vê, como se estampa com a existência permanente da miséria, do abandono, da sabotagem da educação, dos crimes constitucionais cometidos pelo Estado contra a população desde o império, desde a colônia, desde que chegaram por aqui os europeus. Esperando um “Messias”? Aí eu desconfio que a Fabiana não me viu mesmo falando, sempre rechaçando essa história de guru, várias vezes afirmando que não sirvo de exemplo pra ninguém, sempre deixando claro que o olhar de admiração não me aumenta em nada, do mesmo jeito que o desprezo que encarei por trinta anos não me diminuía em nada, eu sabia bem que não tinha sinais sociais de respeito, artista de rua, mangueador e pobre – o desprezo partia de mentalidades bem conhecidas, induzidas, condicionadas a respeitar a propriedade, não a pessoa. Não tinha porque me abalar.

 

“Várias falas de Marinho apontam para isso: ele sugere sempre que a solução dos problemas não está no sistema político (“podre”), critica a medicina (“é patrocinada pelos laboratórios”, diz no documentário citado), critica o pensamento intelectual (“teórico não gosta de ir para a rua”, no mesmo doc). Assim, joga fora não só a água suja da banheira, mas também o bebê dentro dela, contribuindo para o discurso anti-universidade e anti-ciência que, por exemplo, foi propalado pelo infelizmente inesquecível ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub.”

 

Eu não sugiro “solução dos problemas” nenhuma, não tenho um plano infalível pra derrubar o capitalismo. Não digo que o sistema político é podre – mais uma generalização e uma atribuição falsa – digo que a estrutura social é injusta, perversa, covarde e suicida. E que a política partidária é uma encenação safada, onde as minorias privilegiadas têm amplo acesso aos poderes e a população é amplamente enganada, excluída e sabotada. Não vejo solução nem saída, vejo um caminho sendo seguido pela humanidade há milênios, vejo mutação permanente em tudo, nascemos num processo de mutação e morremos nele, temos umas décadas pra participar desse processo multimilenar que não começa quando nascemos e não termina quando morremos.

A medicina e seus cursos são infiltrados por laboratórios e pela indústria da medicina, é minha opinião mesmo. Daí o modelo de medicina lucrativa, que não se interessa por saúde - não dá grana -, que despreza a medicina preventiva - pois é a doença que dá lucro. E não só a medicina que está dominada, a academia, como centro de produção de conhecimento, não seria deixada de fora do controle social pelos parasitas sociais. Daí a gente ver tanta arrogância, tanto afastamento da população, tanta disputa de egos, tanta fragilidade social. O que vale são as exceções acadêmicas, e eu conheço muitas, em geral discriminadas, ironizadas, às vezes perseguidas e excluídas.

Ainda na minha opinião, o conhecimento é restrito a uma “elite intelectual” minoritária, que são os que vão comandar, administrar, supervisionar a massa roubada em seus direitos, construída pra ser mão-de-obra barata, profissionais de baixa qualificação, gente explorável, enganável, conduzível pelo massacre midiático, publicitário e ideológico. O acesso dos periféricos, dos sabotados, roubados no seu direito constitucional ao ensino pleno, é fundamento pra se pensar em harmonia social no futuro.

Abaixo a moça continua me atribuindo equívocos, pra dizer o mínimo. Eu fragilizar a universidade? De onde vem isso? “Simplesmente implodi-la”? Eu queria que a universidade se abrisse a todos os que quisessem, em vez de formar “elites”, inflando egos e egoísmos, orgulhos e vaidades. Queria que ela se abrisse geral, que conscientizasse os “formandos” da responsabilidade social de quem acessa direitos negados à maioria. As afirmações da jornalista estão longe da minha realidade. E ainda me liga a esse presidente aí... fico imaginando se é dificuldade de interpretação, ignorância ou má-fé.

 

“Assim, Marinho também fragiliza a universidade, que pode ser um caminho para amenizar a desigualdade social que ele critica (como professora de uma no interior de Pernambuco, vejo esse fenômeno acontecer constantemente). Também não aponta que uma maior participação de grupos que estiveram historicamente afastados da política institucional – mulheres, pessoas negras, pessoas indígenas, pessoas transsexuais, etc – seja uma das formas de modificá-la por dentro, em vez de simplesmente implodi-la. Foi esse sentimento de destruição que, no fim, nos trouxe Bolsonaro, e não há fractal, chá de hibisco, cordel ou jejum detox que neguem isso.

A romantização da pobreza e o elitismo também são marcas das celebradas falas de Marinho. Em uma aparição no programa Pânico, da Jovem Pan (forte apoiadora do presidente Bolsonaro), ele discorre sobre sua experiência de abandonar a classe média para viver nas ruas. “Eu queria não ter nada. Eu queria me aproximar dos pobres e não conseguia. Deles, eu só via olhar de igualdade quando estava com aspecto mendigo também”, diz em um trecho.”

 

Quem marcou a entrevista na Jovem Pan foi o Hare, eu só tomei consciência de onde estava quando cheguei no estúdio – até na portaria a kombi foi barrada, até os caras da rádio mandarem liberar. E contrastou demais com os carros na garagem. As falas estão deslocadas aí, cada uma tem um contexto diferente. Tô achando que a intenção da mina era me difamar mesmo. Ela é quem deve saber dos seus motivos, porque eu ignoro. E também não me importa, porque difamação já tive bem piores, mais profundas e doloridas. Mas quando leio que “a romantização da pobreza e o elitismo também são marcas” das minhas “celebradas” falas, percebo uma distorção completa e um talvez motivo pra toda essa distorção do que sou, faço ou quero. “Celebradas” demonstra um incômodo com a receptividade do que digo há quarenta anos, trinta sob desprezo e dez sob admiração exagerada. Pra mim, é óbvio tudo o que falo, tá na cara de quem quiser ver – muito embora poucos queiram de verdade.

 

“Em uma animação baseada em uma palestra do artista, publicada em dezembro de 2019 no perfil @eduardomarinho.viacelestina, ele explica que a pobreza (“estas pessoas”, como o artista se refere), por falta de acesso a uma melhor educação, tem “bloqueada” a capacidade da racionalidade. No lugar desta, a população de menor renda tem desenvolvida a sua “intuição”. Aqui, o homem que abandonou uma vida de conforto para construir uma existência na pobreza anti-sistema fomenta uma clássica hierarquização na qual pessoas pobres – e também mulheres – são conduzidas não também por suas capacidades racionais, mas pela emoção. Esse é um argumento classista, machista e racista já visto no discurso de nomes como Paulo Guedes, para quem filho de empregada doméstica e de porteiro não devia entrar na universidade. No artigo “A emoção é negra, a razão é helênica?, o pesquisador Deivison Faustino analisa justamente essa questão pelo viés racial.”

 

Intuição no lugar da razão? Mais um disparate. Não há como acontecer, são complementares, sentimento e razão. O que disse é que, como quando se perde um sentido os outros se desenvolvem, a sabotagem institucional do desenvolvimento racional, através de uma educação que merecesse o nome, acaba causando o desenvolvimento intuitivo, que foi o que mais admirei nos de baixo, além da força interna descomunal pra encarar dificuldades materiais imensas e cotidianas.

 

“A questão é que o charme e o apelo de ser contra-tudo-que-está aí não nos oferecem alternativas palpáveis de ação e, sem elas, continua tudo-o-que-está-aí. A maioria da população brasileira, que vive na pobreza, gostaria de ter à mão alguns “confortos” possíveis à classe média brasileira da qual Marinho preferiu sair – e não estou falando aqui de carros, geladeiras e processadores, mas de saneamento básico, saúde e segurança, por exemplo.”

 

Mais uma vez a Fabiana me coloca como um idiota, atrás de “charme” com o “apelo de ser contra-tudo-que-está-aí”. Totalmente fora da realidade. Não fosse pelo intercept, nem responderia nada, só desprezaria esse texto como inútil. Mas é mais que inútil, é mal intencionado, é mau caráter, afirma a meu respeito desqualificações que não correspondem à realidade, tenta me ligar à essa figura nefasta que ocupa a presidência da república, força a barra de aproximar meu pensamento da mentalidade rasa, ignorante e agressiva dos seus seguidores e apoiadores. Faltou honestidade, sobrou distorção e veneno.

Só pra encerrar, reafirmo. Não tenho e nunca tive intenções de visibilidade – o que aconteceu não foi por iniciativa minha, eu só estava sendo o que sou quando vieram câmeras e fizeram vídeos. Depois foram os convites pra palestras – que eu até estranhei, “ué, não tenho nenhuma qualificação acadêmica, que que cês querem comigo?” perguntei logo na primeira chamada. Não ganho grana com vídeos, não procuro seguidores, não faço “turbinamentos”, não me preocupo com essas coisas, não sou um “youtuber” como tantos por aí, ninguém me viu pedindo likes, curtidas, sininhos e sei lá o quê mais. Vivo do meu trabalho manual há quarenta anos e continuo vivendo, é minha fonte de renda. Não estou me comunicando por interesse, mas por espírito de serviço coletivo. A única coisa que ganho é a satisfação de ver pessoas dando proveito. Não estou preocupado em agradar ninguém nem de manter “seguidores” em lugar nenhum. Nem essa palavra me agrada.

Se me pedirem, publico as perguntas que a Fabiana Moraes me enviou, com as devidas respostas. Eu ia mandar pra ela mas, depois que li o artigo, desisti. Não vale a pena. Acho que ela não percebe que tá me dando um cartaz de graça, com essa difamaçãozinha. Seria melhor me ignorar, irmãzinha, afinal eu sou só um artista de rua, sem qualificação nenhuma, olhando o mundo e dizendo o que tá vendo. Sem referências de ícone revolucionário europeu-acadêmico, só no atrevimento da inguinorança.

Link do artigo completo - https://theintercept.com/2021/05/04/entre-cloroquina-namaste-conheca-direita-gratiluz/

terça-feira, 30 de março de 2021

Vantagem cênica, natureza do sistema e consciência

 A televisão anuncia no jornal que não será cortada a energia elétrica das casas que pagam "tarifa social", saiu aí uma burocracia qualquer, decreto, portaria, lei, sei lá, garantindo isso. "Vitória" de algumas forças institucionais de "esquerda", comemorada e brandida em sua publicidade. A "tarifa social" é um cadastro em que se colocam os milhões que provaram que não ganham o suficiente nem pra comer, de quem foram exigidos vários procedimentos, pessoas que passaram por vária humilhações e desrespeitos pelo caminho - no sentido de causar impedimentos e desistências e diminuir o (que se considera, falsamente) "custo social". 

E que ninguém se engane. Os empresários da energia têm seus departamentos jurídicos, assediando legislativos e judiciários, usando a imprensa pra atacar tudo o que ameaça seus lucros a baixo custo, entrando com ações, liminares e recursos nos tribunais em qualquer instância, mexendo seus pauzinhos e ativando suas influências no sistema social. Em qualquer brecha, nas oportunidades que se criam, essa lei, decreto, portaria ou seja o que for cai. E, se cair de manhã, as equipes de corte já estarão de prontidão pra sair no princípio da tarde, dependendo da área acompanhadas de polícia, apagando a luzes e desligando geladeiras e demais aparelhos de uso diário. Que ninguém se fie em deixar de pagar, se puder, as contas. A perversidade empresarial e, por consequência e influência, institucional, não considera pandemia, não considera a fome, o desabrigo, não considera a vida e envenena o mundo, espiritual e quimicamente. 

É a natureza do sistema social. É preciso criar autonomia porque, pelo jeito, a conscientização ainda demora. Vai ter que ser ao natural, sofrimento, reflexão, tragédia, solidariedade e reconstrução. Dificuldades que obrigam ao desenvolvimento das relações, sociais, profissionais, familiares, de vizinhança, na humildade imposta pelas dores e problemas criados por uma civilização irresponsável, dominada e conduzida pela ambição, pelo egoísmo, pela perversidade e pelo apego ao poder, ao controle, aos privilégios, luxos e ostentações. 

Os que se propõem a conscientizar não conseguem além dos seus pequenos círculos coletivos, perdidos nos condicionamentos sociais, nas vaidades, nos egos, nas disputas, nas formas de relacionamento induzidas socialmente, sem se darem conta de reproduzirem valores e comportamentos planejados e estrategicamente implantados pra produzir, entre outras coisas, distanciamento, desconfiança, disputas e confrontos. Como pretender "mudar" uma sociedade que induz e estimula egoísmos, desconfianças, disputas, competições e confrontos? 

O Saber precisa servir à Sabedoria, e não controlar, comandar e definir caminhos. Definir caminhos é muito melhor com o sentimento, a intuição, elementos da Sabedoria. Quando o Saber se encontrar - humilde e a serviço - com a Sabedoria, aí a consciência coletiva toma impulso.

segunda-feira, 29 de março de 2021

Distorções midiáticas da realidade - quando se toma consciência de ter sido enganado.

São só exemplos colombianos do papel das comunicações nesta sociedade centrada nos interesses econômico-financeiros, que coloca o ser humano, a vida, o equilíbrio do ambiente, a harmonia social em plano secundário, sem importância suficiente pra impedir a ambição desmedida do punhado de dominantes podres de ricos - a quem a mídia empresarial dominante serve. A distorção da realidade, a criminalização dos movimentos dos prejudicados pelas políticas que roubam dos pobres, em vida, em saúde, em tempo, em qualidade de vida, pra acumular riquezas e poderes naquele punhado, cada vez mais, enquanto a gente estiver com a consciência roubada, enganada, entorpecida pelo massacre midiático, publicitário e ideológico. A missão é hipnotizar, seduzir, superficializar, alienar, criar desejos e objetivos de vida que alimentam o sistema social desumano, perverso, injusto e verdadeiramente anti-social. O artigo é de fevereiro, mas simboliza a "desilusão" necessária à tomada de consciência da realidade. 


Colômbia: Insurgências, ética jornalística e a Síndrome de Estocolmo

Por: DannaUrdaneta

Publicado em 18 de fevereiro de 2021.

Tradução – Amanda Mara Lopes de Oliveira e Eduardo Marinho (todos os parênteses são de E.M.).

Sobre a libertação de dois soldados pelo ELN em Catatumbo... e minha experiência na 10ª Conferência Nacional de Guerrilha das antigas FARC-EP.

O mês de fevereiro começou, na Colômbia, com a discussão sobre a síndrome de Estocolmo no conflito social e armado. A discussão surgiu da prova de vida e posterior liberação pelo ELN (Exército de Libertação Nacional) dos militares profissionais identificados como Jhony Andrés Ospino e Jesús Alberto Segovia, lotados no Batalhão 10 de Energia General José Concha Vial, do departamento de fronteira Norte de Santander.

A mídia (empresarial e dominante, como em muitos países) noticiou o incidente como "libertação de soldados sequestrados", sem levar em conta que na guerra os combatentes das partes em conflito são capturados como prisioneiros de guerra (e não “seqüestrados”) e protegidos pelo Direito Internacional Humanitário. Essas mídias corporativas são chamadas a fazer pedagogia pela paz na Colômbia e são elas que manipulam, negam e distorcem o conflito social e armado no país (nosso) vizinho.

As prisões chamaram a atenção porque os militares são dois adolescentes, quase crianças, evidentemente de origem humilde, levados à guerra pela falta de oportunidades. Suas declarações tiveram um caráter revelador contra a doutrina das Forças Militares: os guerrilheiros são terroristas e massacram seus "reféns". Esses jovens deram seu testemunho quando se depararam com uma realidade muito diferente daquela que sempre lhes ensinaram sobre o inimigo contra quem lutavam.

A prova de vida e a consequente libertação dos prisioneiros de guerra deram origem a declarações das partes no conflito que não foram suficientemente valorizadas (foram desconsideradas ou omitidas) pelos meios de comunicação. As evidências desses discursos no calor do combate são ingredientes para a promoção de diálogos de paz com todos os atores políticos e militares da sociedade colombiana. No entanto, os depoimentos deram o que falar nas redes sociais e levantaram várias questões sobre o tratamento dispensado aos militares dentro dos batalhões, o tipo de comida que recebem e sob quais códigos de valores eles realmente se relacionam.

Os fatos e os testemunhos: dois prisioneiros de guerra capturados pelo ELN.

A captura desses militares ocorreu em 2 de fevereiro, durante a coleta de suprimentos para levá-los à unidade militar do distrito de Guamalito, município de El Carmen, Norte de Santander. No dia 12 de fevereiro, veio à tona um vídeo que comprova a vida dos dois, publicado pelo meio de comunicação Canal CNC Valledupar1, que recolheu as palavras de um comandante não identificado do ELN:

O Comandante da Frente de Guerra do Nordeste, Manuel Pérez Martínez, do Exército de Libertação Nacional da Colômbia, entrega provas de vida aos familiares dos soldados Jhony Andrés Ospino e Jesús Alberto Segovia, vinculados ao Batalhão Rodoviário Energético nº 10, detidos em 2 de fevereiro de 2021 no distrito de Guamalito, município de El Carmen, Norte de Santander. Informamos ao público que nos próximos dias eles serão entregues a uma comissão humanitária com a qual estamos negociando.

Estes acontecimentos levantam várias questões. Quantos gestos humanitários são necessários para que o Estado colombiano decida reabrir as congeladas negociações de paz, em Havana, com a delegação de paz do ELN? Quantos gestos humanitários o Estado retirou de ações de guerra ao perseguir, estigmatizar e massacrar o movimento social, sob a negação do conflito social e armado e protegido por uma suposta “luta contra o narcotráfico”?

Na prova de vida, os prisioneiros de guerra também declararam. O primeiro afirmou:

“Apresento-me, sou o soldado SL 18 MuñozSegovia, faço parte do Batalhão Rodoviário Energético Número 10 General José Concha. Estou aqui com meu parceiro Castillo, fomos capturados pelo Exército de Libertação Nacional (ELN). No decurso da nossa captura, trataram-nos bem, com uma boa alimentação. Sentimo-nos em perfeitas condições. Queremos enviar uma saudação a toda a Colômbia, estaremos em casa em breve.”

A declaração do soldado Jhony Andrés Ospinono vídeo foi objeto de censura por parte da RCN e serviu de ante-sala para a discussão sobre a síndrome de Estocolmo no desenrolar destas capturas, a qual se refere ao afeto que pode surgir entre capturador e capturado e vice-versa:

“Enviamos uma saudação especial aos nossos colegas, que não se deixem iludir, más histórias, que os ELN são terroristas, que aqueles que são capturados pelo ELN são torturados, massacrados. Como nos disseram nossos comandantes, diga você mesmo: você viveu a experiência para que venha falar mal do ELN, dos guerrilheiros? Então, pelo menos acredite, nós já estamos vivendo a experiência. No início foi aterrorizante, mas quando vivemos com o próprio ELN, o ambiente, já se sente como em casa. E mandamos saudações à nossa família: ao meu pai, à minha mãe, aos meus dois irmãos mais novos, à minha avó, não se preocupem, o ELN já entrou em processo e aparentemente... já nos disseram que partiremos em breve.”

No dia 16 de fevereiro, os militares foram soltos, diante do que o soldado Jhony Andrés Ospino declarou o que sentiu diante de sua liberdade com voz quebrada:

“A verdade é que me deram um bom tratamento desde o começo, pra quê (sic). Já me sentia enturmado com eles. E a verdade é que não tenho nada de ruim para dizer assim, algo de ruim que eles me fizeram, que me trataram mal. A verdade é feliz, mas ao mesmo tempo triste porque eu já estava me afeiçoando a eles.”

Essas histórias, esses rostos confusos dos soldados, essas provocações contra sua integridade sob a estigmatização de que sofreram com a síndrome de Estocolmo são bastante familiares para mim.

Meu depoimento sobre "ética jornalística", "a síndrome de Estocolmo" e a 10ª Conferência Nacional de Guerrilha das antigas FARC-EP (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia - Exército Popular):

Fui o único repórter venezuelano na 10ª Conferência Nacional de Guerrilha das ex-FARC-EP durante o mês de setembro de 2016. Essa era a cúpula máxima de decisão da guerrilha, lá seria decidido coletivamente se acabariam com a revolta armada. Este acontecimento não teve conclusões conhecidas até ao momento, nem mesmo pelos ex-combatentes, apesar de todos os dias às 7h00 e às 17h00 haver uma conferência de imprensa por parte de seus principais porta-vozes.

Fui apenas uma entre mais de 900 jornalistas de meios alternativos, colombianos e internacionais de todas as partes do mundo. Conheci um vizinho de acampamento que era correspondente na América Latina de um jornal japonês; residia no Brasil e havia viajado para a Colômbia exclusivamente para cobrir este evento que marcaria um antes e um depois na história do continente latino-americano.

            Este correspondente conversava angustiado com outro jornalista e antropólogo enviado por uma universidade colombiana. O japonês perguntava ao colombiano como iria fazer sua reportagem, já que não encontrara a maneira, não poderia escrever, com certeza. Havia chegado com muito medo à Colombia porque iria diretamente para a região onde se acirrou a guerra e, para o meio de um acampamento de “terroristas”. O colombiano escutou o japonês e lhe disse, rindo, que o entendia perfeitamente. O japonês insistia que havia chegado com muito medo ao lugar, sem saber se sairia vivo dali, porque nos meios de comunicação só se fala que as FARC-EP são criminosas, terroristas, sequestradoras e tudo de pior no mundo. No entanto, ao chegar ao lugar e conhecer os guerrilheiros e guerrilheiras, ao vê-los trabalhar, só via que eram camponeses pobres, que não tiveram opção de vida além de serem arrastados para a guerra. Ele não via neles os terroristas que pintavam nos meios de comunicação.

O dilema do japonês era que a mídia para a qual trabalhava aguardava algumas notas que dessem conta dos horrores e crimes cometidos pelas FARC-EP, mas, ao ouvir suas histórias e suas convicções políticas, mudou completamente o quadro que ele conhecia. Se ele dissesse o que realmente estava vendo, eles o despediriam e o rotulariam como um propagandista do terrorismo.

Como este, foram muitos os casos que conheci, histórias que permaneceram como parte dos segredos que as planícies de Yari escondem até hoje.

Os dois casos que mais me tocaram aconteceram no final da 10ª Conferência, onde um membro do secretariado realizou uma reunião com cerca de 50 jornalistas que permaneceram na área para fazer algumas reflexões e reconhecimento dos trabalhadores dos meios de comunicação face aos seus exploradores. Me aperta o peito e a garganta ao me lembrar dele.

Um rapaz como eu fez a sua intervenção de pé e disse que ele e os seus companheiros iam para uma comunicação social comunitária, que não tinha recursos ou bilhetes para chegar ao local, mas não podia perder a oportunidade de se encontrar com os guerrilheiros neste evento histórico. Foram de carona em carona e de cauda em cauda – como dizemos na Venezuela – de Antioquia, demoraram 5 dias para chegar às planícies de Yarí, no departamento de Caquetá. Atravessaram todo o país para chegar. Sobre o sacrifício e a incerteza da viagem no meio da pobreza e da estigmatização, disse orgulhosamente, com a voz embargada: “viemos conhecê-los, esta é a nossa contribuição para a paz e reconciliação na Colômbia” que, evidentemente, consistia em mostrar a outra voz do conflito.

Após esta intervenção, outra jornalista de uma mídia nacional colombiana falou, uma âncora até agora reconhecida. Disse chorando que lamentava não ter levado os filhos com ela à 10ª Conferência, que era uma grande oportunidade que nunca se repetiria e que lamentava que seus filhos não pudessem conhecer a guerrilha, para viver na própria pele uma outra forma de ser, de agir, outros valores, como a solidariedade e o desapego absoluto, o verdadeiro trabalho em equipe e o cuidado coletivo. Nunca esqueço suas palavras: "não sabia que isso ia ser assim, teria trazido meus filhos para conhecê-los”. Em seu discurso ela disse que, depois de muitos anos, percebeu o quão injusta tem sido a estigmatização da guerra pela mídia.

Como esses colegas, tantas outras experiências da classe média universitária colombiana, gente apavorada com a estigmatização que sofreriam ao voltar para suas famílias e amigos nas cidades. Já tinham parado de falar com mais de um só porque tinham ido fazer a cobertura do evento e não podiam contar tudo o que tinham vivido, ao invés de dizer que estavam bem, que foram bem tratados. Sem poder dizer o que realmente pensavam: “não são terroristas, são camponeses”.

A libertação dos adolescentes serviu para abrir a discussão contra os meios de comunicação, por sua alta responsabilidade em se posicionar como agentes do conflito social e armado, que desumaniza o "inimigo interno", no caso, as insurgências. Essa demonização de cada condição humana prepara as condições subjetivas para as ações do terrorismo de Estado. Portanto, não importa se eles massacram civis ou bombardeiam 18 crianças em Caquetá, porque são “terroristas”.

Esses jornalistas colombianos e internacionais também sofreram de uma versão da síndrome de Estocolmo durante a X Conferência Nacional de Guerrilha? São as mesmas faces de confusão e alegria mesclada que se vêem nesses soldados adolescentes que foram libertados pelo ELN.

Paz para a Colômbia, nada para a guerra!

 

 

Referências:

1 Canal CNC Valledupar. (12 de fevereiro de 2021). ELN ENTREGA PROVA DE SOBREVIVÊNCIA DE UM SOLDADO DE AGUACHIQUENSE SEQUESTRADO. Colômbia: YouTube. Recuperado de: https://www.youtube.com/watch?v=Ud3J7iCHjKc

2 Roloco News. (16 de fevereiro de 2021). "Eu já estava me apegando a eles": Soldado libertado. Colômbia: YouTube. Obtido em https://www.youtube.com/watch?v=nH7YOBLkvX8

3 Reservo a identidade dos colegas com os quais compartilhei a experiência devido ao aumento da violência e do terrorismo de Estado na Colômbia que diariamente desloca acadêmicos, sindicalistas, dirigentes e lideranças sociais, principalmente para a Venezuela e Espanha. A esse respeito, recomendo a leitura: https://www.telesurtv.net/opinion/Cristina-Bustillo-y-el-terrorismo-de-Estado-en-Colombia-contra-el-sindicalismo-20201217-0014.htm

Equipe editorial da 4 W Radio. (12 de novembro de 2019). O número de menores que morreram após o atentado de Caquetá seria de 18, segundo testemunhas. Colômbia: W Radio. Obtido em https://www.wradio.com.co/noticias/actualidad/cifra-de-menores-que-murieron-tras-bombardeo-en-caqueta-ascenderia-a-18-segun-testigos/20191112/nota/ 3977643.aspx

Sinais da falsidade (ou revelações sociais)

 Quatro presidentes se reúnem em Brasília, dois do legislativo, um do judiciário e um do executivo. Os três poderes ditos "públicos". Os cargos máximos desses poderes, os maiores da nação brasileira. Em segredo, fechados, sem microfones, sem câmeras. Se são públicos, é direito de todos saberem do que estão tratando, ainda mais diante da catástrofe sanitária no país inteiro - que apavora o mundo, todos os países estão fechados pro Brasil. Os três poderes, os quatro maiorais... e nenhum deles é confiável, nenhum deles serve à população, mas sim a banqueiros nacionais e, sobretudo, internacionais, aos podres de ricos do mercado econômico-financeiro, ao poder econômico na mão de um punhado. O sinal da falsidade na cena está na convocação de governadores, mas só os que não tiveram nenhuma discordância pública das "políticas" deste governo central. Sinal inequívoco. Depois da tal reunião, virão as mentiras, as distorções, a cara-de-pau de costume. O jogo é de cachorro grande, enquanto o povo, enganado, sabotado, desinformado, põe a sociedade pra funcionar, como todo dia. Nos transportes públicos, não há isolamento - porque a sociedade depende, fundamentalmente, dessa multidão roubada em seus direitos e exposta permanentemente à exploração de todas as formas, pelos "poderes" da sociedade. Mais de três mil e duzentos mortos em 24 horas. Quantos mortos por dia serão necessários pra se respeitar a realidade? Tragédia anunciada, prevista, avisada, comentada, descrita mesmo com antecedência. Com a pandemia do corona, se revelou também um surto de perversidade psicopática, divisão de almas, fratura social, revelações de personalidades - antes enrustidas, por inconveniência, agora exibidas, brandidas com orgulho, com arrogância e violência. O que resta é que agora sabemos quem são os perversos, os violentos, os pobres de espírito. Que não se apague a memória. Ninguém piorou, só se revelou. A maldade que era subterrânea, agora está exposta. E o mundo de mentiras em que vivemos está mais claro do que nunca. Que se leve aos valores pessoais, aos desejos e objetivos de vida, aos comportamentos, à visão de mundo, à própria vida, no cotidiano, no trabalho, nas relações em toda parte. O processo de mutação está em tempos de pressão.

4 de março, 2021.

quinta-feira, 11 de março de 2021

As voltas do mundo... quem diria?

 Diante das reviravoltas que estou vendo nesse teatro macabro da política institucional, lembro da minha mãe, nos seus últimos anos de vida, vendo a realidade em volta, antes inimaginável, olhando nos meus olhos com um sorriso triste – e me parecia que seu olhar se estendia pelos seus 99 anos – e  comentava, conformada, “quem diria...” Geralmente eu só concordava, “quem diria...”, sorrindo de volta. Uma vez perguntei, “quem diria o quê, mãe?” Pega de surpresa ela respondeu com um gesto de quem ouviu uma bobagem, olhando em volta como quem olha o mundo, “ora... tudo”.

Tô vendo um tanto de atitudes “quem diria” por aí, no palco das instituições. As peças mudam de lugar no tabuleiro. Os jogadores continuam no escuro, os holofotes - mídias empresariais jamais apontam suas luzes para os vampiros sociais que as sustentam com patrocínios e publicidades bilionárias - estão sobre as peças da política institucional, manipuladas como se decidissem sobre si mesmas, encenando tragédias e comédias de acordo com as instruções dos bastidores. As poucas que não se deixam manipular – porque existem as peças rebeldes – são monitoradas, mantidas nos limites que não afetem a estrutura social, e são estratégicas pra legitimar a farsa. Essa independência enquadrada acaba por dar crédito a uma democracia falsa, de instituições alheias às necessidades fundamentais de grande parte da população, onde o povo é mantido ignorante e desinformado – sabotagem da educação pública, educação particular “de mercado” e controle das comunicações por poderes econômicos gigantescos que claramente induzem, condicionam, aprisionam mentes e corações num inferno social de desarmonia, conflito, exploração, miséria, desabrigo, violência e criminalidade. Não é à toa tanta manifestação de ódio, tanto conflito em torno da superfície, em torno dos personagens do tal teatro macabro. Torcidas de novela com tremendo potencial destrutivo na vida real.

Valores, comportamentos, desejos, objetivos de vida, opiniões, visão de mundo, tudo passível de condicionamento, de indução. É o que constrói o mundo como ele é. E o que pode construir um outro modelo de mundo, de sociedade humana. Se não imediatamente no coletivo, pelo menos na própria vida. Mudando um mundo, se muda de freqüências e sintonias, muitas vezes de lugares e companhias, de desejos, de objetivos. E o que é o mundo todo senão a união de todos os mundos? Cabe sentir, perceber por dentro. Vejo as exceções se multiplicarem há quarenta anos. Vi a formação de tantos grupos buscando alternativas – inclusive de sobrevivência, que são os mais fortes e unidos – surgindo, desaparecendo, desfazendo em outros, uns sumindo, outros permanecendo, muitos se contaminando de vaidades, disputas, ambições pessoais, alguns permanecendo e seguindo nas atividades. Hoje tem pra todo lado, quem quiser conhecer vai encontrar por perto, em algum lugar, fazendo coisas fora do padrão. Se eu chegar em algum lugar que não tenha, não fico. Mas tenho encontrado em toda parte por onde ando. A senha de contato é sinceridade, humildade e respeito. Sem esquecer do próprio.

Consciência contamina.

quinta-feira, 4 de março de 2021

"Vamos pular esse tempo", disseram.

O tempo não dá pulos, mas passa. Há quem feche os olhos pra criar a sensação de "pulo" e não ver a realidade do momento. É preciso respeitar as escolhas, elas trazem suas consequências. Eu prefiro manter os meus olhos o mais abertos possível pra ver e enxergar a realidade, muito além do que me é mostrado pelas empresas de comunicação que dominam essa área PÚBLICA. No país e no mundo.

Todo sofrimento traz uma carga profunda de aprendizados, além da dor, na percepção das responsabilidades gerais, na busca das causas pra começar o trabalho das correções e aperfeiçoamentos, tanto individual quanto coletivamente. Apontar "culpados" superficializa as percepções. Embora, claro, eles existam e "mereçam as penalidades da lei".

Mas é preciso trabalhar nas condições e nos espaços que se criam pra existência desses tipos de personagens na chamada "vida pública". Na estrutura social, na formação das pessoas, das populações, de forma ampla e em todos os setores. A formação de mentalidades, a manipulação da alma coletiva é uma indústria instalada há muito tempo - é hora de perceber nos valores vigentes, nos comportamentos, nos desejos e objetivos, na visão de mundo, nas relações sociais. Os condicionamentos afastam, dividem, criam disputas e conflitos. Tudo nessa direção é indução social. É preciso humildade pra reconhecer. Por isso tanto estímulo aos egos.

Na busca e construção de uma estrutura que tenha como objetivo harmonia social, a eliminação das condições de miséria, ignorância, desinformação, desabrigo e abandono é a base. Essa é a prioridade em qualquer sociedade que se pretenda humana de verdade. A nossa há tempos históricos está sob controle de poucos e obscuros poderosos, servindo aos bancos, mega-empresas, ao mercado econômico-financeiro, contra - isso mesmo, contra - as populações, a humanidade, o povo e o equilíbrio social.

Se não fomos capazes de evitar, temos a responsabilidade de encarar as consequências. Todos, sem exceção, tendo ou não responsabilidade direta, somos responsáveis pela coletividade. O que varia é a forma de participação. Coletividade como humanidade, na parte onde se está. A mutação é permanente.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Tumores (ou "evolução" partidária)

Erundina e os partidos

O que aconteceu com Erundina no PSol deveria servir de alerta à chamada “militância”. Mas quem sou eu, né, pra falar das coisas partidárias, ali minha palavra não vale muito. Mas eu vi esse processo antes, nos idos de 90, quando freqüentava sindicatos, assembléias, federações, congressos, onde haviam pessoas reflexivas e eu vendia meu trabalho. Foram décadas de observação “de fora”, apesar de ter grandes amigos e de ter vivido coisas inesquecíveis. Sempre me cobravam filiação às suas entidades, mas eu dizia que já era filiado à minha consciência e circulava entre vários agrupamentos ideológicos diferentes, pelo menos os que me davam acesso – e não eram poucos. Eu era visto como um hippie com visão crítica, que ainda não tinha me definido ideológicamente. Eu deixava quieto, mas minha formação ideológica estava se construindo todo o tempo. Até hoje, aliás. Mas eu vi os conflitos começarem a acontecer, até o fisiologismo, pouco a pouco, se estabelecer.

No PT começou com a "articulação", cujo nome já aponta ao que vem, pouco a pouco reduzindo a "DS" por dentro do partido, os leais, os gente boa, os que acreditavam em construir uma sociedade mais justa. Aliás foi dessa galera que nasceu o PSol e alguns outros partidos pequenos - os chamados "de esquerda". A própria Erundina era militante no PT e saiu numa das levas de indignados.

Mas já brotou esse caroço no PSol, também, há um tempinho. Só a aproximação e ocupação dos cargos institucionais parece contaminar com esses “tumores” autoritários pra dentro e flexíveis pra fora. Ou extirpa, ou se contamina.

O PT não extirpou e obriga os bem intencionados a “articulações” mentais e verbais malabarísticas pra explicar o inexplicável. Se forças maiores obrigaram a fazer copa e olimpíadas expulsando duzentos e cinqüenta mil famílias das suas casas – já precárias pelo crime do Estado em não cumprir sua constituição – e destruir a vida na  região da usina de belo monte – entre muitas outras perversidades sociais –, que se denunciem essas forças em toda parte. Mas elas estão muito enraizadas no aparato público, nas casas legislativas, nos poderes de governo, no judiciário – com honrosas e fugidias exceções – e não é possível se aproximar dos poderes institucionais sem a aprovação dessas forças – que têm sua raiz no mercado econômico-financeiro internacional e suas ramificações nacionais, não só no Brasil, como na maior parte dos países do mundo.

Agora parlamentares do PSol “articulam” com vampiros vendidos, em troca de cargos e posições. É um velho e triste caminho. No passado, partidos que não se curvaram foram dizimados, perseguidos, proibidos, torturados - e os dominantes aperfeiçoaram os mecanismos de cooptação institucional.. É a estrutura social. E ela está dentro de cada um de nós, inclusive os que se sentem "revolucionários".  

sábado, 30 de janeiro de 2021

Manhã abrindo trilha

Hoje acordei tarde. Eram mais de sete horas e o horizonte tava nublado. Deixo a janela aberta, porque o sol nasce entrando por ela e a luz quente me acorda, ainda sendo um quadrado na parede, a forma da janela. Mas hoje as nuvens estavam na frente. Fiz um café, espremi laranjas pro suco, comi três castanhas do Pará, peguei enxadão, enxada e facão. Levei água e a câmera fotográfica na mochila e desci o caminho pro terreno. A trilha está com mais de trezentos metros feitos, da última vez parei junto a um grupo de quatro árvores. Uma delas estava bem no meio do caminho. Abri de um lado, mas estreitava demais a trilha, tinha ficado assim. Cheguei na situação, cavei com o enxadão em volta da raiz, pensando que tirar a árvore do caminho era seu decreto de morte. Enquanto tirava terra, considerei que iria matar um ser pela minha conveniência de abrir passagem, mas também que os seres se devoram entre si, as plantas são o alimento básico de todos, direta ou indiretamente, é lei da natureza no planeta. Havia terra frouxa, preta e cheia de furos debaixo da raiz da árvore, numa entrada da lâmina, funda e fácil, apareceram formigas, era um formigueiro ali e começaram a brotar formigas desesperadas, correndo a esmo, atarantadas, graúdas, pretas. Centenas, talvez milhares se movimentavam nos torrões que saíam aos golpes do enxadão, quando já estavam perto de mim passei pra enxada e fui trazendo a terra pra cima das formigas e atirando morro abaixo. Zuni um monte e ia zunindo, mas elas foram parando de sair, diminuindo, poucas conseguiam subir pela terra solta. Imaginei que procuravam o inimigo que as atacava, mas reparei que não tinham agressividade, estavam tratando com um acontecimento atribuído à natureza, como uma enchente, um deslizamento de terra, uma queda de um galho grande, uma pedra que rola, quando as pessoas correm sem direção, de um lado pro outro, tontas. Cheguei a tirar umas quatro ou cinco que subiam nas minhas botas, mas não pareciam em atitude de ataque. Eu era, pra elas, um acidente da natureza, não se combate os acontecimentos naturais, se adapta, se defende e se prepara pra superar. Assim como as aranhas que eventualmente apareciam e só queriam fugir, se esconder daqueles instrumentos mortíferos, o enxadão escavando, a enxada puxando a terra e jogando pra baixo, os pisantes esmagadores, de sola grossa. Não devo ter atingido o coração do formigueiro, porque depois de algum tempo, poucas dezenas delas circulavam por ali, indo e vindo na terra revirada, até que restaram umas poucas, meio perdidas no caminho, ou apagando os últimos vestígios pra ir embora avisando pras outras formigas pra não andarem por ali - formiga tem essas coisas, se comunica pelos cheiros, cada um com um significado. E eu segui adiante, hoje até mais tarde por conta das nuvens – quando o sol aparece por cima do morro, aí pelas dez horas, fica difícil seguir mais uma hora pra quem não faz este serviço há tanto tempo. A árvore veio abaixo depois de bem escavada na raiz, saiu fácil, um empurrão a inclinou, depois um puxão fez ela deitar. Aí fui com o facão nas raízes ainda na terra e ela se soltou, sendo posta de lado na trilha como apoio pra terra retirada, alargando o caminho. Segui adiante e encontrei mato emaranhado, fui abrindo com o facão até a luz entrar, pra então seguir cavando. Aí roncou a barriga, uma, depois mais uma vez, medi a altura do sol, limpei a última terra, peguei mochila com máquina de fotografia, água, caderno e facão. Catei as ferramentas, olhei o pedaço concluído, mais um, e voltei na trilha, subi a estrada, entrei pela porteira e subi até a casa. Hora de almoçar. À tarde já são outros serviços.










observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.