terça-feira, 30 de março de 2021

Vantagem cênica, natureza do sistema e consciência

 A televisão anuncia no jornal que não será cortada a energia elétrica das casas que pagam "tarifa social", saiu aí uma burocracia qualquer, decreto, portaria, lei, sei lá, garantindo isso. "Vitória" de algumas forças institucionais de "esquerda", comemorada e brandida em sua publicidade. A "tarifa social" é um cadastro em que se colocam os milhões que provaram que não ganham o suficiente nem pra comer, de quem foram exigidos vários procedimentos, pessoas que passaram por vária humilhações e desrespeitos pelo caminho - no sentido de causar impedimentos e desistências e diminuir o (que se considera, falsamente) "custo social". 

E que ninguém se engane. Os empresários da energia têm seus departamentos jurídicos, assediando legislativos e judiciários, usando a imprensa pra atacar tudo o que ameaça seus lucros a baixo custo, entrando com ações, liminares e recursos nos tribunais em qualquer instância, mexendo seus pauzinhos e ativando suas influências no sistema social. Em qualquer brecha, nas oportunidades que se criam, essa lei, decreto, portaria ou seja o que for cai. E, se cair de manhã, as equipes de corte já estarão de prontidão pra sair no princípio da tarde, dependendo da área acompanhadas de polícia, apagando a luzes e desligando geladeiras e demais aparelhos de uso diário. Que ninguém se fie em deixar de pagar, se puder, as contas. A perversidade empresarial e, por consequência e influência, institucional, não considera pandemia, não considera a fome, o desabrigo, não considera a vida e envenena o mundo, espiritual e quimicamente. 

É a natureza do sistema social. É preciso criar autonomia porque, pelo jeito, a conscientização ainda demora. Vai ter que ser ao natural, sofrimento, reflexão, tragédia, solidariedade e reconstrução. Dificuldades que obrigam ao desenvolvimento das relações, sociais, profissionais, familiares, de vizinhança, na humildade imposta pelas dores e problemas criados por uma civilização irresponsável, dominada e conduzida pela ambição, pelo egoísmo, pela perversidade e pelo apego ao poder, ao controle, aos privilégios, luxos e ostentações. 

Os que se propõem a conscientizar não conseguem além dos seus pequenos círculos coletivos, perdidos nos condicionamentos sociais, nas vaidades, nos egos, nas disputas, nas formas de relacionamento induzidas socialmente, sem se darem conta de reproduzirem valores e comportamentos planejados e estrategicamente implantados pra produzir, entre outras coisas, distanciamento, desconfiança, disputas e confrontos. Como pretender "mudar" uma sociedade que induz e estimula egoísmos, desconfianças, disputas, competições e confrontos? 

O Saber precisa servir à Sabedoria, e não controlar, comandar e definir caminhos. Definir caminhos é muito melhor com o sentimento, a intuição, elementos da Sabedoria. Quando o Saber se encontrar - humilde e a serviço - com a Sabedoria, aí a consciência coletiva toma impulso.

segunda-feira, 29 de março de 2021

Distorções midiáticas da realidade - quando se toma consciência de ter sido enganado.

São só exemplos colombianos do papel das comunicações nesta sociedade centrada nos interesses econômico-financeiros, que coloca o ser humano, a vida, o equilíbrio do ambiente, a harmonia social em plano secundário, sem importância suficiente pra impedir a ambição desmedida do punhado de dominantes podres de ricos - a quem a mídia empresarial dominante serve. A distorção da realidade, a criminalização dos movimentos dos prejudicados pelas políticas que roubam dos pobres, em vida, em saúde, em tempo, em qualidade de vida, pra acumular riquezas e poderes naquele punhado, cada vez mais, enquanto a gente estiver com a consciência roubada, enganada, entorpecida pelo massacre midiático, publicitário e ideológico. A missão é hipnotizar, seduzir, superficializar, alienar, criar desejos e objetivos de vida que alimentam o sistema social desumano, perverso, injusto e verdadeiramente anti-social. O artigo é de fevereiro, mas simboliza a "desilusão" necessária à tomada de consciência da realidade. 


Colômbia: Insurgências, ética jornalística e a Síndrome de Estocolmo

Por: DannaUrdaneta

Publicado em 18 de fevereiro de 2021.

Tradução – Amanda Mara Lopes de Oliveira e Eduardo Marinho (todos os parênteses são de E.M.).

Sobre a libertação de dois soldados pelo ELN em Catatumbo... e minha experiência na 10ª Conferência Nacional de Guerrilha das antigas FARC-EP.

O mês de fevereiro começou, na Colômbia, com a discussão sobre a síndrome de Estocolmo no conflito social e armado. A discussão surgiu da prova de vida e posterior liberação pelo ELN (Exército de Libertação Nacional) dos militares profissionais identificados como Jhony Andrés Ospino e Jesús Alberto Segovia, lotados no Batalhão 10 de Energia General José Concha Vial, do departamento de fronteira Norte de Santander.

A mídia (empresarial e dominante, como em muitos países) noticiou o incidente como "libertação de soldados sequestrados", sem levar em conta que na guerra os combatentes das partes em conflito são capturados como prisioneiros de guerra (e não “seqüestrados”) e protegidos pelo Direito Internacional Humanitário. Essas mídias corporativas são chamadas a fazer pedagogia pela paz na Colômbia e são elas que manipulam, negam e distorcem o conflito social e armado no país (nosso) vizinho.

As prisões chamaram a atenção porque os militares são dois adolescentes, quase crianças, evidentemente de origem humilde, levados à guerra pela falta de oportunidades. Suas declarações tiveram um caráter revelador contra a doutrina das Forças Militares: os guerrilheiros são terroristas e massacram seus "reféns". Esses jovens deram seu testemunho quando se depararam com uma realidade muito diferente daquela que sempre lhes ensinaram sobre o inimigo contra quem lutavam.

A prova de vida e a consequente libertação dos prisioneiros de guerra deram origem a declarações das partes no conflito que não foram suficientemente valorizadas (foram desconsideradas ou omitidas) pelos meios de comunicação. As evidências desses discursos no calor do combate são ingredientes para a promoção de diálogos de paz com todos os atores políticos e militares da sociedade colombiana. No entanto, os depoimentos deram o que falar nas redes sociais e levantaram várias questões sobre o tratamento dispensado aos militares dentro dos batalhões, o tipo de comida que recebem e sob quais códigos de valores eles realmente se relacionam.

Os fatos e os testemunhos: dois prisioneiros de guerra capturados pelo ELN.

A captura desses militares ocorreu em 2 de fevereiro, durante a coleta de suprimentos para levá-los à unidade militar do distrito de Guamalito, município de El Carmen, Norte de Santander. No dia 12 de fevereiro, veio à tona um vídeo que comprova a vida dos dois, publicado pelo meio de comunicação Canal CNC Valledupar1, que recolheu as palavras de um comandante não identificado do ELN:

O Comandante da Frente de Guerra do Nordeste, Manuel Pérez Martínez, do Exército de Libertação Nacional da Colômbia, entrega provas de vida aos familiares dos soldados Jhony Andrés Ospino e Jesús Alberto Segovia, vinculados ao Batalhão Rodoviário Energético nº 10, detidos em 2 de fevereiro de 2021 no distrito de Guamalito, município de El Carmen, Norte de Santander. Informamos ao público que nos próximos dias eles serão entregues a uma comissão humanitária com a qual estamos negociando.

Estes acontecimentos levantam várias questões. Quantos gestos humanitários são necessários para que o Estado colombiano decida reabrir as congeladas negociações de paz, em Havana, com a delegação de paz do ELN? Quantos gestos humanitários o Estado retirou de ações de guerra ao perseguir, estigmatizar e massacrar o movimento social, sob a negação do conflito social e armado e protegido por uma suposta “luta contra o narcotráfico”?

Na prova de vida, os prisioneiros de guerra também declararam. O primeiro afirmou:

“Apresento-me, sou o soldado SL 18 MuñozSegovia, faço parte do Batalhão Rodoviário Energético Número 10 General José Concha. Estou aqui com meu parceiro Castillo, fomos capturados pelo Exército de Libertação Nacional (ELN). No decurso da nossa captura, trataram-nos bem, com uma boa alimentação. Sentimo-nos em perfeitas condições. Queremos enviar uma saudação a toda a Colômbia, estaremos em casa em breve.”

A declaração do soldado Jhony Andrés Ospinono vídeo foi objeto de censura por parte da RCN e serviu de ante-sala para a discussão sobre a síndrome de Estocolmo no desenrolar destas capturas, a qual se refere ao afeto que pode surgir entre capturador e capturado e vice-versa:

“Enviamos uma saudação especial aos nossos colegas, que não se deixem iludir, más histórias, que os ELN são terroristas, que aqueles que são capturados pelo ELN são torturados, massacrados. Como nos disseram nossos comandantes, diga você mesmo: você viveu a experiência para que venha falar mal do ELN, dos guerrilheiros? Então, pelo menos acredite, nós já estamos vivendo a experiência. No início foi aterrorizante, mas quando vivemos com o próprio ELN, o ambiente, já se sente como em casa. E mandamos saudações à nossa família: ao meu pai, à minha mãe, aos meus dois irmãos mais novos, à minha avó, não se preocupem, o ELN já entrou em processo e aparentemente... já nos disseram que partiremos em breve.”

No dia 16 de fevereiro, os militares foram soltos, diante do que o soldado Jhony Andrés Ospino declarou o que sentiu diante de sua liberdade com voz quebrada:

“A verdade é que me deram um bom tratamento desde o começo, pra quê (sic). Já me sentia enturmado com eles. E a verdade é que não tenho nada de ruim para dizer assim, algo de ruim que eles me fizeram, que me trataram mal. A verdade é feliz, mas ao mesmo tempo triste porque eu já estava me afeiçoando a eles.”

Essas histórias, esses rostos confusos dos soldados, essas provocações contra sua integridade sob a estigmatização de que sofreram com a síndrome de Estocolmo são bastante familiares para mim.

Meu depoimento sobre "ética jornalística", "a síndrome de Estocolmo" e a 10ª Conferência Nacional de Guerrilha das antigas FARC-EP (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia - Exército Popular):

Fui o único repórter venezuelano na 10ª Conferência Nacional de Guerrilha das ex-FARC-EP durante o mês de setembro de 2016. Essa era a cúpula máxima de decisão da guerrilha, lá seria decidido coletivamente se acabariam com a revolta armada. Este acontecimento não teve conclusões conhecidas até ao momento, nem mesmo pelos ex-combatentes, apesar de todos os dias às 7h00 e às 17h00 haver uma conferência de imprensa por parte de seus principais porta-vozes.

Fui apenas uma entre mais de 900 jornalistas de meios alternativos, colombianos e internacionais de todas as partes do mundo. Conheci um vizinho de acampamento que era correspondente na América Latina de um jornal japonês; residia no Brasil e havia viajado para a Colômbia exclusivamente para cobrir este evento que marcaria um antes e um depois na história do continente latino-americano.

            Este correspondente conversava angustiado com outro jornalista e antropólogo enviado por uma universidade colombiana. O japonês perguntava ao colombiano como iria fazer sua reportagem, já que não encontrara a maneira, não poderia escrever, com certeza. Havia chegado com muito medo à Colombia porque iria diretamente para a região onde se acirrou a guerra e, para o meio de um acampamento de “terroristas”. O colombiano escutou o japonês e lhe disse, rindo, que o entendia perfeitamente. O japonês insistia que havia chegado com muito medo ao lugar, sem saber se sairia vivo dali, porque nos meios de comunicação só se fala que as FARC-EP são criminosas, terroristas, sequestradoras e tudo de pior no mundo. No entanto, ao chegar ao lugar e conhecer os guerrilheiros e guerrilheiras, ao vê-los trabalhar, só via que eram camponeses pobres, que não tiveram opção de vida além de serem arrastados para a guerra. Ele não via neles os terroristas que pintavam nos meios de comunicação.

O dilema do japonês era que a mídia para a qual trabalhava aguardava algumas notas que dessem conta dos horrores e crimes cometidos pelas FARC-EP, mas, ao ouvir suas histórias e suas convicções políticas, mudou completamente o quadro que ele conhecia. Se ele dissesse o que realmente estava vendo, eles o despediriam e o rotulariam como um propagandista do terrorismo.

Como este, foram muitos os casos que conheci, histórias que permaneceram como parte dos segredos que as planícies de Yari escondem até hoje.

Os dois casos que mais me tocaram aconteceram no final da 10ª Conferência, onde um membro do secretariado realizou uma reunião com cerca de 50 jornalistas que permaneceram na área para fazer algumas reflexões e reconhecimento dos trabalhadores dos meios de comunicação face aos seus exploradores. Me aperta o peito e a garganta ao me lembrar dele.

Um rapaz como eu fez a sua intervenção de pé e disse que ele e os seus companheiros iam para uma comunicação social comunitária, que não tinha recursos ou bilhetes para chegar ao local, mas não podia perder a oportunidade de se encontrar com os guerrilheiros neste evento histórico. Foram de carona em carona e de cauda em cauda – como dizemos na Venezuela – de Antioquia, demoraram 5 dias para chegar às planícies de Yarí, no departamento de Caquetá. Atravessaram todo o país para chegar. Sobre o sacrifício e a incerteza da viagem no meio da pobreza e da estigmatização, disse orgulhosamente, com a voz embargada: “viemos conhecê-los, esta é a nossa contribuição para a paz e reconciliação na Colômbia” que, evidentemente, consistia em mostrar a outra voz do conflito.

Após esta intervenção, outra jornalista de uma mídia nacional colombiana falou, uma âncora até agora reconhecida. Disse chorando que lamentava não ter levado os filhos com ela à 10ª Conferência, que era uma grande oportunidade que nunca se repetiria e que lamentava que seus filhos não pudessem conhecer a guerrilha, para viver na própria pele uma outra forma de ser, de agir, outros valores, como a solidariedade e o desapego absoluto, o verdadeiro trabalho em equipe e o cuidado coletivo. Nunca esqueço suas palavras: "não sabia que isso ia ser assim, teria trazido meus filhos para conhecê-los”. Em seu discurso ela disse que, depois de muitos anos, percebeu o quão injusta tem sido a estigmatização da guerra pela mídia.

Como esses colegas, tantas outras experiências da classe média universitária colombiana, gente apavorada com a estigmatização que sofreriam ao voltar para suas famílias e amigos nas cidades. Já tinham parado de falar com mais de um só porque tinham ido fazer a cobertura do evento e não podiam contar tudo o que tinham vivido, ao invés de dizer que estavam bem, que foram bem tratados. Sem poder dizer o que realmente pensavam: “não são terroristas, são camponeses”.

A libertação dos adolescentes serviu para abrir a discussão contra os meios de comunicação, por sua alta responsabilidade em se posicionar como agentes do conflito social e armado, que desumaniza o "inimigo interno", no caso, as insurgências. Essa demonização de cada condição humana prepara as condições subjetivas para as ações do terrorismo de Estado. Portanto, não importa se eles massacram civis ou bombardeiam 18 crianças em Caquetá, porque são “terroristas”.

Esses jornalistas colombianos e internacionais também sofreram de uma versão da síndrome de Estocolmo durante a X Conferência Nacional de Guerrilha? São as mesmas faces de confusão e alegria mesclada que se vêem nesses soldados adolescentes que foram libertados pelo ELN.

Paz para a Colômbia, nada para a guerra!

 

 

Referências:

1 Canal CNC Valledupar. (12 de fevereiro de 2021). ELN ENTREGA PROVA DE SOBREVIVÊNCIA DE UM SOLDADO DE AGUACHIQUENSE SEQUESTRADO. Colômbia: YouTube. Recuperado de: https://www.youtube.com/watch?v=Ud3J7iCHjKc

2 Roloco News. (16 de fevereiro de 2021). "Eu já estava me apegando a eles": Soldado libertado. Colômbia: YouTube. Obtido em https://www.youtube.com/watch?v=nH7YOBLkvX8

3 Reservo a identidade dos colegas com os quais compartilhei a experiência devido ao aumento da violência e do terrorismo de Estado na Colômbia que diariamente desloca acadêmicos, sindicalistas, dirigentes e lideranças sociais, principalmente para a Venezuela e Espanha. A esse respeito, recomendo a leitura: https://www.telesurtv.net/opinion/Cristina-Bustillo-y-el-terrorismo-de-Estado-en-Colombia-contra-el-sindicalismo-20201217-0014.htm

Equipe editorial da 4 W Radio. (12 de novembro de 2019). O número de menores que morreram após o atentado de Caquetá seria de 18, segundo testemunhas. Colômbia: W Radio. Obtido em https://www.wradio.com.co/noticias/actualidad/cifra-de-menores-que-murieron-tras-bombardeo-en-caqueta-ascenderia-a-18-segun-testigos/20191112/nota/ 3977643.aspx

Sinais da falsidade (ou revelações sociais)

 Quatro presidentes se reúnem em Brasília, dois do legislativo, um do judiciário e um do executivo. Os três poderes ditos "públicos". Os cargos máximos desses poderes, os maiores da nação brasileira. Em segredo, fechados, sem microfones, sem câmeras. Se são públicos, é direito de todos saberem do que estão tratando, ainda mais diante da catástrofe sanitária no país inteiro - que apavora o mundo, todos os países estão fechados pro Brasil. Os três poderes, os quatro maiorais... e nenhum deles é confiável, nenhum deles serve à população, mas sim a banqueiros nacionais e, sobretudo, internacionais, aos podres de ricos do mercado econômico-financeiro, ao poder econômico na mão de um punhado. O sinal da falsidade na cena está na convocação de governadores, mas só os que não tiveram nenhuma discordância pública das "políticas" deste governo central. Sinal inequívoco. Depois da tal reunião, virão as mentiras, as distorções, a cara-de-pau de costume. O jogo é de cachorro grande, enquanto o povo, enganado, sabotado, desinformado, põe a sociedade pra funcionar, como todo dia. Nos transportes públicos, não há isolamento - porque a sociedade depende, fundamentalmente, dessa multidão roubada em seus direitos e exposta permanentemente à exploração de todas as formas, pelos "poderes" da sociedade. Mais de três mil e duzentos mortos em 24 horas. Quantos mortos por dia serão necessários pra se respeitar a realidade? Tragédia anunciada, prevista, avisada, comentada, descrita mesmo com antecedência. Com a pandemia do corona, se revelou também um surto de perversidade psicopática, divisão de almas, fratura social, revelações de personalidades - antes enrustidas, por inconveniência, agora exibidas, brandidas com orgulho, com arrogância e violência. O que resta é que agora sabemos quem são os perversos, os violentos, os pobres de espírito. Que não se apague a memória. Ninguém piorou, só se revelou. A maldade que era subterrânea, agora está exposta. E o mundo de mentiras em que vivemos está mais claro do que nunca. Que se leve aos valores pessoais, aos desejos e objetivos de vida, aos comportamentos, à visão de mundo, à própria vida, no cotidiano, no trabalho, nas relações em toda parte. O processo de mutação está em tempos de pressão.

4 de março, 2021.

quinta-feira, 11 de março de 2021

As voltas do mundo... quem diria?

 Diante das reviravoltas que estou vendo nesse teatro macabro da política institucional, lembro da minha mãe, nos seus últimos anos de vida, vendo a realidade em volta, antes inimaginável, olhando nos meus olhos com um sorriso triste – e me parecia que seu olhar se estendia pelos seus 99 anos – e  comentava, conformada, “quem diria...” Geralmente eu só concordava, “quem diria...”, sorrindo de volta. Uma vez perguntei, “quem diria o quê, mãe?” Pega de surpresa ela respondeu com um gesto de quem ouviu uma bobagem, olhando em volta como quem olha o mundo, “ora... tudo”.

Tô vendo um tanto de atitudes “quem diria” por aí, no palco das instituições. As peças mudam de lugar no tabuleiro. Os jogadores continuam no escuro, os holofotes - mídias empresariais jamais apontam suas luzes para os vampiros sociais que as sustentam com patrocínios e publicidades bilionárias - estão sobre as peças da política institucional, manipuladas como se decidissem sobre si mesmas, encenando tragédias e comédias de acordo com as instruções dos bastidores. As poucas que não se deixam manipular – porque existem as peças rebeldes – são monitoradas, mantidas nos limites que não afetem a estrutura social, e são estratégicas pra legitimar a farsa. Essa independência enquadrada acaba por dar crédito a uma democracia falsa, de instituições alheias às necessidades fundamentais de grande parte da população, onde o povo é mantido ignorante e desinformado – sabotagem da educação pública, educação particular “de mercado” e controle das comunicações por poderes econômicos gigantescos que claramente induzem, condicionam, aprisionam mentes e corações num inferno social de desarmonia, conflito, exploração, miséria, desabrigo, violência e criminalidade. Não é à toa tanta manifestação de ódio, tanto conflito em torno da superfície, em torno dos personagens do tal teatro macabro. Torcidas de novela com tremendo potencial destrutivo na vida real.

Valores, comportamentos, desejos, objetivos de vida, opiniões, visão de mundo, tudo passível de condicionamento, de indução. É o que constrói o mundo como ele é. E o que pode construir um outro modelo de mundo, de sociedade humana. Se não imediatamente no coletivo, pelo menos na própria vida. Mudando um mundo, se muda de freqüências e sintonias, muitas vezes de lugares e companhias, de desejos, de objetivos. E o que é o mundo todo senão a união de todos os mundos? Cabe sentir, perceber por dentro. Vejo as exceções se multiplicarem há quarenta anos. Vi a formação de tantos grupos buscando alternativas – inclusive de sobrevivência, que são os mais fortes e unidos – surgindo, desaparecendo, desfazendo em outros, uns sumindo, outros permanecendo, muitos se contaminando de vaidades, disputas, ambições pessoais, alguns permanecendo e seguindo nas atividades. Hoje tem pra todo lado, quem quiser conhecer vai encontrar por perto, em algum lugar, fazendo coisas fora do padrão. Se eu chegar em algum lugar que não tenha, não fico. Mas tenho encontrado em toda parte por onde ando. A senha de contato é sinceridade, humildade e respeito. Sem esquecer do próprio.

Consciência contamina.

quinta-feira, 4 de março de 2021

"Vamos pular esse tempo", disseram.

O tempo não dá pulos, mas passa. Há quem feche os olhos pra criar a sensação de "pulo" e não ver a realidade do momento. É preciso respeitar as escolhas, elas trazem suas consequências. Eu prefiro manter os meus olhos o mais abertos possível pra ver e enxergar a realidade, muito além do que me é mostrado pelas empresas de comunicação que dominam essa área PÚBLICA. No país e no mundo.

Todo sofrimento traz uma carga profunda de aprendizados, além da dor, na percepção das responsabilidades gerais, na busca das causas pra começar o trabalho das correções e aperfeiçoamentos, tanto individual quanto coletivamente. Apontar "culpados" superficializa as percepções. Embora, claro, eles existam e "mereçam as penalidades da lei".

Mas é preciso trabalhar nas condições e nos espaços que se criam pra existência desses tipos de personagens na chamada "vida pública". Na estrutura social, na formação das pessoas, das populações, de forma ampla e em todos os setores. A formação de mentalidades, a manipulação da alma coletiva é uma indústria instalada há muito tempo - é hora de perceber nos valores vigentes, nos comportamentos, nos desejos e objetivos, na visão de mundo, nas relações sociais. Os condicionamentos afastam, dividem, criam disputas e conflitos. Tudo nessa direção é indução social. É preciso humildade pra reconhecer. Por isso tanto estímulo aos egos.

Na busca e construção de uma estrutura que tenha como objetivo harmonia social, a eliminação das condições de miséria, ignorância, desinformação, desabrigo e abandono é a base. Essa é a prioridade em qualquer sociedade que se pretenda humana de verdade. A nossa há tempos históricos está sob controle de poucos e obscuros poderosos, servindo aos bancos, mega-empresas, ao mercado econômico-financeiro, contra - isso mesmo, contra - as populações, a humanidade, o povo e o equilíbrio social.

Se não fomos capazes de evitar, temos a responsabilidade de encarar as consequências. Todos, sem exceção, tendo ou não responsabilidade direta, somos responsáveis pela coletividade. O que varia é a forma de participação. Coletividade como humanidade, na parte onde se está. A mutação é permanente.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Tumores (ou "evolução" partidária)

Erundina e os partidos

O que aconteceu com Erundina no PSol deveria servir de alerta à chamada “militância”. Mas quem sou eu, né, pra falar das coisas partidárias, ali minha palavra não vale muito. Mas eu vi esse processo antes, nos idos de 90, quando freqüentava sindicatos, assembléias, federações, congressos, onde haviam pessoas reflexivas e eu vendia meu trabalho. Foram décadas de observação “de fora”, apesar de ter grandes amigos e de ter vivido coisas inesquecíveis. Sempre me cobravam filiação às suas entidades, mas eu dizia que já era filiado à minha consciência e circulava entre vários agrupamentos ideológicos diferentes, pelo menos os que me davam acesso – e não eram poucos. Eu era visto como um hippie com visão crítica, que ainda não tinha me definido ideológicamente. Eu deixava quieto, mas minha formação ideológica estava se construindo todo o tempo. Até hoje, aliás. Mas eu vi os conflitos começarem a acontecer, até o fisiologismo, pouco a pouco, se estabelecer.

No PT começou com a "articulação", cujo nome já aponta ao que vem, pouco a pouco reduzindo a "DS" por dentro do partido, os leais, os gente boa, os que acreditavam em construir uma sociedade mais justa. Aliás foi dessa galera que nasceu o PSol e alguns outros partidos pequenos - os chamados "de esquerda". A própria Erundina era militante no PT e saiu numa das levas de indignados.

Mas já brotou esse caroço no PSol, também, há um tempinho. Só a aproximação e ocupação dos cargos institucionais parece contaminar com esses “tumores” autoritários pra dentro e flexíveis pra fora. Ou extirpa, ou se contamina.

O PT não extirpou e obriga os bem intencionados a “articulações” mentais e verbais malabarísticas pra explicar o inexplicável. Se forças maiores obrigaram a fazer copa e olimpíadas expulsando duzentos e cinqüenta mil famílias das suas casas – já precárias pelo crime do Estado em não cumprir sua constituição – e destruir a vida na  região da usina de belo monte – entre muitas outras perversidades sociais –, que se denunciem essas forças em toda parte. Mas elas estão muito enraizadas no aparato público, nas casas legislativas, nos poderes de governo, no judiciário – com honrosas e fugidias exceções – e não é possível se aproximar dos poderes institucionais sem a aprovação dessas forças – que têm sua raiz no mercado econômico-financeiro internacional e suas ramificações nacionais, não só no Brasil, como na maior parte dos países do mundo.

Agora parlamentares do PSol “articulam” com vampiros vendidos, em troca de cargos e posições. É um velho e triste caminho. No passado, partidos que não se curvaram foram dizimados, perseguidos, proibidos, torturados - e os dominantes aperfeiçoaram os mecanismos de cooptação institucional.. É a estrutura social. E ela está dentro de cada um de nós, inclusive os que se sentem "revolucionários".  

sábado, 30 de janeiro de 2021

Manhã abrindo trilha

Hoje acordei tarde. Eram mais de sete horas e o horizonte tava nublado. Deixo a janela aberta, porque o sol nasce entrando por ela e a luz quente me acorda, ainda sendo um quadrado na parede, a forma da janela. Mas hoje as nuvens estavam na frente. Fiz um café, espremi laranjas pro suco, comi três castanhas do Pará, peguei enxadão, enxada e facão. Levei água e a câmera fotográfica na mochila e desci o caminho pro terreno. A trilha está com mais de trezentos metros feitos, da última vez parei junto a um grupo de quatro árvores. Uma delas estava bem no meio do caminho. Abri de um lado, mas estreitava demais a trilha, tinha ficado assim. Cheguei na situação, cavei com o enxadão em volta da raiz, pensando que tirar a árvore do caminho era seu decreto de morte. Enquanto tirava terra, considerei que iria matar um ser pela minha conveniência de abrir passagem, mas também que os seres se devoram entre si, as plantas são o alimento básico de todos, direta ou indiretamente, é lei da natureza no planeta. Havia terra frouxa, preta e cheia de furos debaixo da raiz da árvore, numa entrada da lâmina, funda e fácil, apareceram formigas, era um formigueiro ali e começaram a brotar formigas desesperadas, correndo a esmo, atarantadas, graúdas, pretas. Centenas, talvez milhares se movimentavam nos torrões que saíam aos golpes do enxadão, quando já estavam perto de mim passei pra enxada e fui trazendo a terra pra cima das formigas e atirando morro abaixo. Zuni um monte e ia zunindo, mas elas foram parando de sair, diminuindo, poucas conseguiam subir pela terra solta. Imaginei que procuravam o inimigo que as atacava, mas reparei que não tinham agressividade, estavam tratando com um acontecimento atribuído à natureza, como uma enchente, um deslizamento de terra, uma queda de um galho grande, uma pedra que rola, quando as pessoas correm sem direção, de um lado pro outro, tontas. Cheguei a tirar umas quatro ou cinco que subiam nas minhas botas, mas não pareciam em atitude de ataque. Eu era, pra elas, um acidente da natureza, não se combate os acontecimentos naturais, se adapta, se defende e se prepara pra superar. Assim como as aranhas que eventualmente apareciam e só queriam fugir, se esconder daqueles instrumentos mortíferos, o enxadão escavando, a enxada puxando a terra e jogando pra baixo, os pisantes esmagadores, de sola grossa. Não devo ter atingido o coração do formigueiro, porque depois de algum tempo, poucas dezenas delas circulavam por ali, indo e vindo na terra revirada, até que restaram umas poucas, meio perdidas no caminho, ou apagando os últimos vestígios pra ir embora avisando pras outras formigas pra não andarem por ali - formiga tem essas coisas, se comunica pelos cheiros, cada um com um significado. E eu segui adiante, hoje até mais tarde por conta das nuvens – quando o sol aparece por cima do morro, aí pelas dez horas, fica difícil seguir mais uma hora pra quem não faz este serviço há tanto tempo. A árvore veio abaixo depois de bem escavada na raiz, saiu fácil, um empurrão a inclinou, depois um puxão fez ela deitar. Aí fui com o facão nas raízes ainda na terra e ela se soltou, sendo posta de lado na trilha como apoio pra terra retirada, alargando o caminho. Segui adiante e encontrei mato emaranhado, fui abrindo com o facão até a luz entrar, pra então seguir cavando. Aí roncou a barriga, uma, depois mais uma vez, medi a altura do sol, limpei a última terra, peguei mochila com máquina de fotografia, água, caderno e facão. Catei as ferramentas, olhei o pedaço concluído, mais um, e voltei na trilha, subi a estrada, entrei pela porteira e subi até a casa. Hora de almoçar. À tarde já são outros serviços.










quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

A casa da traição prepara mais uma das grandes

 As dragas estão todas postas, muitas e maiores do que as que já estão há séculos. Os bancos estão prontos pra sugar o sangue da sociedade alienada, superficializada, iludida e enganada, já vivendo num caos social crescente, sobretudo nestes últimos anos. A "independência do banco central" é uma das grandes mentiras estratégicas. Independente só do governo - e de todos os poderes públicos - o banco central será regido pelas "leis de mercado", ou seja, por banqueiros internacionais com cumplicidade dos banqueiros nacionais. A eles interessa a sociedade em caos, violência, criminalidade e medo, ignorância, desinformação e consumismo. O senado aprovou o tal projeto das dragas, dos banqueiros, no dia da eleição nos Estados Unidos, quando os holofotes de todas as mídias comerciais estavam virados pra lá, todo o tempo, o dia inteiro. Agora tá na câmara dos deputados. As casas da traição funcionam na surdina. 

Maria Lúcia Fattorelli me faz repensar as ações intra-institucionais. Ali é área suja, onde reina a hipocrisia, a simulação, o interesse. Pesado pra alma. Incansável, Maria Lúcia levou todas as informações sobre o tal projeto, em estudos econômicos da Auditoria da Dívida Pública, a todos os líderes de todos os partidos, detalhando todos os crimes, todas as falcatruas, todas as catástrofes sociais que estão ali projetados. Ela também menciona um mecanismo proposto de controle dos parlamentares e a cobrança jurídicas pelas consequências dos seus votos.

O vídeo é longo e exige atenção dos que não têm intimidade com o linguajar mais academizado, embora não seja tão fechado quanto se vê nas falas acadêmicas. Mas os assuntos são de enorme importância. Percebendo os mecanismos, pode-se entender o por quê de tanta miséria, tanta ignorância, tanto abandono, com tantas condições pra atender todas as necessidades básicas de todas as pessoas, condições materiais, quero dizer. Dá pra entender porquê não importa envenenar a água, a terra, o ar, não importa assassinar povos originários, gente das florestas, ribeirinhos na bala ou com venenos tóxicos. Não importa queimarem as florestas e toda a vida nelas. O lucro está em primeiro plano e são esses valores que estão no controle social. O domínio dos bancos é imoral, anti-social, desumano. Mas é fato. Dá pra entender o controle e a sabotagem da educação, dá pra entender a traição permanente do povo pelo Estado. É o sequestro econômico-financeiro em que o Estado se encontra por esse punhado cheio de cúmplices comprados, conscientes ou não, nas instituições públicas e também nas privadas.

https://www.youtube.com/watch?v=WqaX351smdU


terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Descrédito como elogio

 O cara desacreditou quando eu disse que fazia à mão. Era uma mesa grande, dez a doze pessoas, alguns elogiando meu trabalho e eu explicando como fazia, o assunto foi pro conteúdo, as idéias, mas o cara não se conformava. Fincou pé que não era feito à mão e eu encerrei dizendo que ele era livre pra não acreditar e voltei ao papo sobre a alma do trabalho. Acabei vendendo umas peças, as pessoas já sabiam até onde iam usar, quem ia ver... uma forma de comunicação sutil. Aí ele desesperou, apelou pra mentira. "Eu cheguei de São Paulo ontem e estive lá no lugar onde cê compra isso aí. Vi na minha frente, isso mesmo que taí" e apontou pro painel na minha mão. Olhei pra ele, que sorria, o descarado foi fundo na sua descrença, tinha como certo me desmascarar. No silêncio, todos olharam pra mim, eu olhei pro meu painel. Eram broches gravados em relevo no percloreto de ferro, que exigia quinze horas de movimento só pra gravar, o fundo pintado com laca nitrocelulose, tinta pra metal, os fechos simétricos feitos no alicate e soldados com estanho atrás da chapa cortada com tesoura de metal e depois esmerilhados e polidos. Ficavam fortes e delicados. E lindos, eu gostava muito, apesar de dar um trabalho enorme e não me deixar tempo pra nada. Eu falava com o mundo através deles. O cara duvidava com a razão ignorante, num mundo realmente de mentiras e simulações. Disse a ele, "eu vou tomar como um elogio". Todos fizeram cara de estranheza, mas eu me expliquei. "Tu acha tão bom o meu trabalho, tão bonito e bem acabado, que é impossível eu fazer à mão, né..." o silêncio era geral e eu continuei, "...no fundo, é um elogio". Estendi calmamente a mão aberta virada pra luz de cima, os calos visíveis na palma e em todos os dedos, "...eu é que sei se faço ou não..."Acenei pra todos, "valeu, gente", e diante da expressão meio desconcertada dele, disse sorrindo, "obrigado pelo elogio". E segui adiante que o mangueio ainda ia longe.  

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Da simpatia à arrogância

Lembro dos pequenos diretórios do partido, ainda nos últimos anos da década de setenta, quando ensaiava viagens de carona, aprendendo a fazer pulseirinhas, mas com uma grana pequena "porém segura" na carteira. Pelos oitenta adentro, já por conta própria, pedinte, "micróbio", depois com crianças, vivendo de artesanato, viajando muito de carona, dormindo sobre papelão, em casas abandonadas ou em construção, em quebradas e cantinhos, sob marquises, quando via uma casinha com a estrela vermelha, um diretório, eu entrava e sempre encontrava um olhar simpático, oi, tudo bem? Os murais interessantes, a receptividade, quer uma água, um café? Papos questionadores como os meus, apontando as injustiças sociais, trabalhos nas comunidades, juntando as pessoas, com um trato afetivo e respeitoso, ainda que sempre insistindo na “filiação” e tendo que ouvir “já sou filiado à minha consciência”. A resposta meio que desconcertava, mas prevalecia o respeito e continuava a sintonia. Víamos o mundo de forma parecida e queríamos as mesmas coisas, justiça, respeito social, investimento pesado em educação, na formação de uma população instruída e consciente de si mesma, com auto-estima e capacidade de raciocínio e percepção, o tal senso crítico.

Os anos foram passando e meu trabalho evoluindo, os pequenos diretórios estavam desaparecendo, mas eu trabalhava entre sindicatos e associações, cheios de gente "de esquerda", onde encontrava pessoas mais reflexivas, mais engajadas em mudanças sociais, mais questionadoras e profundas que a maioria alienada. Esses compravam meu material e eram, digamos assim, o meu público. Tava sempre nas passeatas e manifestações, pintava faixas, fazia cartazes, distribuía geral, por conta própria. Eu olhava as formações coletivas com o olhar de fora – sentia o “de fora” por não ser “filiado” –, como os grupos se subdividiam com discordâncias – e era corrente pra todo lado. Os simpáticos continuavam simpáticos, mas eu percebia uma quantidade de pessoas arrogantes nesses meios. Eram os considerados “direita” pelas pessoas que tratavam comigo, “conservadores”, embora eles mesmos se considerassem elite de esquerda, ou esquerda ideológica, sei lá. O que eu percebia era que se sentiam portadores de verdades inegáveis e qualificados pra conduzir as massas, apesar de não falarem a língua popular, de não se sentirem à vontade entre periféricos, de se isolarem em seus grupos. Entre as correntes eu ia em festas, encontros, assembléias, congressos, muitas vezes expondo na entrada, entre barraquinhas de comidas e de material das entidades envolvidas. As conversas eram sempre boas no meu trabalho, sem problemas, até porque eu não tinha nenhuma corrente de pensamento pra defender. E no trampo, tinha coisas em comum com todo mundo por ali.

De 89 a 92 morei em Minas, por perto de Belorizonte. Eu ainda acompanhava os movimentos sindicais, cada vez menos. Em 89 eu tive encomendas de diversos trabalhos na campanha eleitoral, da CUT e dos sete partidos da coligação. Eu continuava “desfiliado” e com liberdade pra me mover entre eles, ignorando suas diferenças ideológicas. PT, PDT, PCB, PC do B, PSB, PV e PH (partido humanista, nem sei se existe ainda), lembro até hoje. Vi a campanha acontecendo, tinha amigos de diversas “tendências” que me sabiam “de fora” e também que era confiável. Ali eu ouvi e aprendi muitas coisas do que acontece nos bastidores, em mesas de bares de tradição revolucionária. Do meu ponto de vista, os bons estavam perdendo espaço nos cargos de mando, era a DS (democracia socialista) e a Articulação. Naquela eleição, resolvi que não votaria mais. Ainda freqüentei alguns sindicatos em seus eventos, dos professores, dos bancários, dos jornalistas, mas a simpatia não era mais farta. Quando saí de Beagá, já não lembrava mais de procurar eventos sindicais. Parei com esse meio que tava deteriorando.

Várias eleições presidenciais depois, a articulação tinha virado Campo Majoritário e a DS tinha começado a se pulverizar em "correntes" de onde brotariam pouco depois vários partidos “mais à esquerda”, PSol, PSTU, PCO e outros. Aí eu já não procurava mais os sindicatos. Morava na montanha, no meio do mato, vinha pras cidades pra expor e vender, às vezes, e comprar material de trabalho. Numa dessas, em São Paulo, eu passava pela Paranapiacaba, onde encontrava ferramentas, e descia a ladeira do São Bento pra chegar na Casa da Bóia, onde comprava chapas e arames de latão e alpaca. De repente vi o símbolo da CUT, "sede nacional", na porta de um prédio chique, entre logotipos de grandes empresas. Fiquei curioso. Lembrei dos pequenos diretórios lá no passado, senti que veria a continuação daquela antiga disposição de “mudar as coisas” e entrei. Na portaria, roletas, câmeras e seguranças. Pediram meus documentos, apalparam a banca, revistaram o violão, passaram minha mochila num raio X. Fizeram abrir e olharam tudo, viram que os metais eram ferramentas e material de trabalho, me deixaram passar. Eu era um extra-terrestre no prédio, todo mundo becado, arrumado e eu largadão, de mochila, banca e violão pendurados nos ombros. No andar indicado, entrei pela porta com o símbolo, olhei em volta. Paredes de divisórias, um banco pra três pessoas vazio, nada nas paredes, nenhum cartaz, quadro, aviso, nada, ninguém. Num ângulo formado pela divisória, tinha um vidro com um buraco redondo no meio, tipo caixa de bar. Eu estava parado, lembrando dos murais interessantíssimos de outrora, quando uma pessoa veio pegar alguma coisa e me viu pelo vidro. O olhar desceu e subiu a minha figura. “O que que foi?” ”Nada não.” “Cê quer o quê?” Eu fiz um gesto vago, com o braço, “sei lá... queria ver os murais, os cartazes...” Ele fez cara de estranheza, mudou o tom de voz, “murais?” Deu um segundo, fez uma cara brava e levantou o queixo, impaciente. “Cê quer falar com quem?” Dei um silêncio também, caminhei pra perto do vidro, olhando bem nos olhos do sujeito. “Com ninguém não..." abaixei a cabeça até o buraco no vidro, o cara recuou um pouco e eu falei baixinho, com um sorriso triste, "eu já vi o que tinha que ver”. E saí pela porta, sem dizer mais nada. Desci o elevador com um nó na garganta e nojo daquele lugar luxuoso, perfumado, falso e poderoso. Cheguei na rua com sentimento de fim daquele mundo que um dia eu frequentei, únicos lugares institucionais onde ainda encontrava alguma identificação. Fechou o ciclo, acabou, apodreceu. Fui comprar os meus metais e cuidar da minha vida.


sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Política é busca de harmonia coletiva, não isso que taí.

Entendo política como busca de harmonia social, mas o que vejo com esse nome é quase o contrário disso, basta comparar a realidade da maioria e a desse grupo que se põe como “representante do povo”. A hipocrisia é uma evidência exposta na realidade. O aparato público se aplica a servir os interesses econômico-financeiros de um punhado e manter a população sob controle, ignorantizada, desinformada, mão de obra barata contida em qualquer manifestação de inconformação, de protesto ou reivindicação, por mais justa que seja, pelos agentes da “segurança pública”, na verdade da repressão geral, sobretudo ao povo mais pobre.

Estou na política há mais de quarenta anos, mas no que entendo por política. Inconformado com as injustiças sociais flagrantes, fiz da observação, absorção, entendimento e intuição da minha realidade social a minha vocação, colocando em meu trabalho artesanal e artísticos, pensamentos, reflexões, críticas, sugestões, ironias, desenhos, símbolos que me pareciam úteis pra estimular o questionamento, a busca de razões, de caminhos, o enxergar da realidade além do que nos é mostrado ou permitido. Minha política é na rua, na atitude, na busca das raízes dos desequilíbrios – sociais, pessoais, profissionais, vivenciais, espirituais. É a busca do entender o que acontece, como acontece e por quê acontece a partir do que se vê e do que se vive. A descoberta do que quero e do que fui pressionado, induzido ou seduzido a querer. Do que vejo em volta e do que era levado a ver. Da escolha dos meus valores e do meu comportamento diante de tudo isso, em vez de ter valores e comportamentos impostos por uma sociedade que deixei de respeitar, social e moralmente.

Por isso mesmo recuso a política partidária, por não ver ali política de verdade, mas simulação, traição, encenação, fingimento, na defesa de interesses econômicos e, sobretudo, financeiros. Aquilo não é a boa política, embora o massacre cultural, midiático, publicitário e ideológico faça a maioria não ver política fora dessa farsa - que produz inclusive o modelo de educação mercadológico e cria mentalidades frágeis, sem capacidade crítica, fácil de se enganar, de se conduzir e formar mentalidades de acordo com aqueles interesses parasitas. Claro que há exceções, pessoas minimamente bem intencionadas, nesse meio. Mas isso por razões estratégicas. É preciso, a bem da encenação, que existam vozes dissonantes, pra manter a imagem, legitimar as instituições – infiltradas e dominadas – e “provar” que essa fraude é uma democracia. São “dons quixotes” lutando contra moinhos – valiosos na exposição das falcatruas institucionais, embora em língua restrita que não chega à massa da população, boicotados e omitidos pela mídia empresarial dominante.

Uma democracia só pode existir, a meu ver, com um povo bem nutrido, bem instruído, conhecedor da sua história, da formação do povo, bem formado e bem informado, capaz de perceber e escolher por conta própria, conhecedor dos seus direitos e dos mecanismos coletivos de controle dos que se dizem seus representantes. Mas a estrutura social é formada minuciosamente pra impedir isso de acontecer. É preciso construir sem contar com o Estado. Ou contando o mínimo possível. Parece que a estrutura pública tem uma peste. E tudo o que toca, é contaminado. A vacina pra essa peste é consciência coletiva. E essa é uma grande conquista individual que chega devagar, aos poucos, vai se formando, na prática do dia a dia, no cotidiano das relações pessoais, na observação da coletividade sem fim que é a humanidade. 

E afinal, no sentimento de infinitas e diferentes humanidades pelo universo afora. Ou adentro.

Pouco a pouco, percebemos. Temos tempo, pra trás e pra frente.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Entre empresarismo e humanismo

Esquerda, direita, esquerda, direita,...! Marcha ordinária, batida, em forma, no exército.

Querem definir o pensamento, as opções e escolhas, a visão de mundo como esquerda e direita. Tenho olhado isso das calçadas, há muitos e muitos anos. Antigamente expunha meu trabalho entre sindicalistas, nas assembléias, nos encontros, nas manifestações. Mas eles foram mudando de índole, a receptividade foi diminuindo, a hostilidade e a desconfiança foram aumentando, fui rareando minha presença, pouco a pouco, até perder a vontade de ir e preferir expor nas praças, nas ruas, às vezes marcando ponto, às vezes mudando de lugar em lugar.

De onde eu estava, formava minha visão.

A tal “direita” propõe mentiras descaradas. Meritocracia sem igualdade de condições é uma farsa. Empresas “dão” empregos, não exploram até o talo, não violam direitos trabalhistas, não chantageiam seus funcionários, outra inversão mentirosa. O tal do Estado mínimo só serve aos mais ricos, minoria ínfima da população, mas podre de rica e calçada nas classes favorecidas com direitos e privilégios. Tudo o que propõe a chamada direita é falso.

A tal “esquerda” tem propostas de uma sociedade menos perversa e injusta, mas induzida a um sentimento de superioridade falso, que a deixa cega de arrogância, de certezas e verdades duvidosas. De onde estamos, sob o jugo dos poderes econômico-financeiros, essa gente propõe “organizar os trabalhadores”, se sente “mais preparada” pra cargos de mando, cria coletivos de cima pra baixo, convencida de que trata com “inferiores”, “despreparados”, “ignorantes”, sem lembrar da sabedoria de um dos seus heróis “secundários”, Paulo Freire.

Este sentimento é planejado e estratégico pra afastar as pessoas, esterilizar as iniciativas e impedir qualquer ameaça à estrutura social. Humildade seria fundamental pra perceber a força da sabedoria sabotada, a capacidade da intuição desenvolvida e a resistência aos baques da vida, na superação cotidiana de dificuldades.

Mas esse troço de esquerda, direita, esquerda, direita nunca me desceu direito. Sei que houve um parlamento, num dos países colonizadores da Europa, há séculos atrás, onde se dividiram “o povo” e a nobreza. O povo era representado por comerciantes abastados, minoria no meio do povo, do lado esquerdo, e a nobreza se colocava à direita do parlamento. Isso não existe por aqui e nunca existiu, eu olho pros plenários e não tem esquerda e direita. Eles dizem que é definição ideológica, eu vejo é declaração de colonização cultural. Os colonizadores são foda, eles incutem as mentalidades mesmo dos que se opõem a eles. Não é à toa que a esquerda é toda dividida e gasta uma imensa energia brigando entre as diversas seitas – eles chamam de correntes ideológicas, mas são verdades tão rígidas quanto as das religiões.

Eu tenho um ranço danado de colonialismo – que visa o saque de riquezas, a exploração do povo, a manutenção da miséria, da pobreza e da ignorância, pra facilitar o domínio, e construir a “metrópole desenvolvida, de primeiro mundo” em cima do sofrimento nos territórios colonizados. Não consigo deixar de ver essa colonização mental à minha volta, em toda parte. Em camisas, em letreiros, em nomes de prédios e lojas, nas definições cotidianas, soando “naturalmente”, imperceptivelmente. A gente não vai num centro comercial, vai no “shopping”, por exemplo. E são milhares de exemplos como esse, que passam batido na percepção geral. Se eu me manifestasse a cada sinal de colonização mental, seria um chato insuportável. Mas não posso deixar de perceber, na verdade nem quero. Não vejo conforto na inconsciência.

Vejo da seguinte maneira: estamos num modelo de sociedade que tem no seu centro de importância, interesses econômico-financeiros. Ou seja, um punhado de podres de ricos, que são quem comanda os poderes públicos. Sua fonte de poder e grana é a exploração desenfreada das riquezas nos territórios, do trabalho das populações, mantendo a ignorância, a desinformação, a hierarquização econômica criando abismos desumanos e anti-sociais. A vida humana, animal, o equilíbrio do meio ambiente, a saúde das florestas e populações estão em plano secundário. Esta é uma sociedade empresarista, centrada em – e controlada por – bancos e mega-empresas, dos bastidores do teatro macabro de marionetes chamado de “política partidária”, reduto de máfias criminosas e dons quixotes brigando contra moinhos, danificando aqui e ali, mas sem capacidade de afetar a estrutura.

Os que se dizem de direita, exibem uma arrogância econômica, uma ignorância astronômica, uma agressividade brochante. Os que se dizem de esquerda exibem uma arrogância intelectual, donos da verdade que são, sempre de cima, desrespeitando mesmo que com benevolência os irmãos sabotados pela sociedade.

Não estamos entre direita e esquerda, estamos entre empresarismo e humanismo. O que se pretende é que no centro de importância da sociedade esteja o ser humano, a harmonia social, a formação das pessoas em humanidade, com as prioridades totais na satisfação de todas as necessidades básicas de todas as pessoas. Uma sociedade onde seja inadmissível a existência de miséria, fome e desabrigo. Onde as crianças recebam as melhores condições pra se desenvolverem ao longo da adolescência e da juventude, pra exercer as suas vocações na coletividade. Isso exterminaria a necessidade de presídios, secaria a maior fonte de criminalidade de rua. Todos seriam servidos dos seus direitos, alimentação, moradia, saneamento, educação, formação humana, instrução, informação. E a velhice produziria a sabedoria de que é capaz em benefício da coletividade, com todo o apoio social de que necessitasse, sem exclusão de nenhuma forma.

Digo “seriam”, “produziriam” apenas porque sei que, apesar de trabalhar nessa direção, não será no meu tempo de vida. Porque também sei que será assim, no fundo da alma. Quanto tempo, quantas gerações vai levar, e o que vai ser preciso pra que isso aconteça, não se sabe. Mas olhando pra trás, dá pra fazer projeções pro futuro, com a assessoria da intuição e do sentimento – nossos sintonizadores com dimensões espirituais. E que ninguém me peça pra definir “dimensões espirituais”... eu não me atreveria. Só sei que taí e levo em conta. A consciência ativa traz os recados, as instruções e os silêncios.

Quando a gente tá pronta pra saber, fica sabendo. Antes disso é só pretensão. É preciso ir se desenvolvendo, aumentando as capacidades de percepção e compreensão. E isso se faz no dia a dia, na auto-observação dos pensamentos, sentimentos, desejos, valores e comportamentos. O que se desenvolve internamente logo se estende ao coletivo.

Vivências - mais uma carona

 

Vai pra onde?

Pro norte.

Mas pra qual cidade?

Qualquer uma, a que tiver no caminho, qualquer lugar que tu me deixar, tá bom.

Tu é meio doido, né?

É o que dizem as más línguas.

Rimos os dois.

Vambora lá, gostei de tu.

Então bora.

Era mais um "doido" fazendo "minha cabeça".

Eram muitos papos, vários todo dia, na minha construção.

Muito variados.

E eu olhando tudo, tentando aprender por instinto.

Observando e absorvendo todo o tempo.

Crente de que não durava muito tempo

e tava tudo bem, eu tava vivendo no risco

que a liberdade impõe.

Mas o tempo passou, não morri.

Este ano faço sessenta.

Nunca nem imaginei isso.

Há cinco anos eu, que chegava a pé, chego de kombi.

E a idéia rola, de todo jeito, 

em qualquer lugar em que eu esteja,

porque esse é o trabalho que eu escolhi.

Idéia, reflexão, questionamento, 

ponho no meu trabalho o que vejo, o que penso, o que sinto.

E tô satisfeito com isso.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Depois do fim, o recomeço

 É como tatear no escuro.

Não dá pra confiar nas informações, é preciso peneirar muito e a maioria delas não passa, é distorção. Mas a realidade taí, muita coisa é verdade, apesar do mau caráter da mídia, sorridente e sedutora pra convencer a população das suas mentiras, desde sempre.  É preciso decidir o que fazer, todo o tempo, viver é fazer escolhas. Observo, desconfio, sinto, decido.

A pandemia também taí, inegável, embora pra maioria que vive sob riscos bem mais palpáveis, visíveis e rotineiros, essa é uma ameaça a mais, invisível, impalpável, distante. Uso a máscara, o álcool, mas não nego um aperto de mão a quem estende – se tiver álcool por perto, uso, senão deixo pra lá e esqueço. É na base do sejuquideusquisé. A máscara anda pendurada na orelha, horrível respirar com aquilo. Na direção da kombi, se precisar parar e falar com alguém pela janela, como os frentistas dos postos, coloco direitim, por uma questão de respeito. Pra entrar em estabelecimentos, mercado, correio, sempre de máscara, se tiver álcool na entrada, uso. Sempre bom cuidar dos sentimentos nos ambientes onde estamos, sobretudo quando entramos. Bons cultivos, boas colheitas.

Vamos andando, a vida tem que ser levada. No escuro que seja, tateando mas caminhando, com cuidado, atento. É a sociedade da escuridão, da mentira, do controle subterrâneo. As comunicações não merecem confiança, os governos não merecem confiança, a educação não merece confiança, a medicina não merece confiança, nada que tenha como objetivo final o lucro merece confiança.

É o empresarismo que torna a sociedade desumana, mentirosa, perversa e criminosa. A mentalidade empresarial implantada nos próprios servidores, nos explorados, nos empregados, desde a base e por dentro das suas camadas, impostas pelas conveniências interesseiras e dominadas a partir dos próprios valores, da própria visão de mundo, dos objetivos de vida, dos desejos e das escolhas de cada um, de cada grupo e da coletividade como um todo. A psicologia do inconsciente é fartamente utilizada e regiamente remunerada, no controle mental produzido pelo massacre ideológico da publicidade, do márquetim, do jornalismo empresarial, da cultura de consumo sobre (ou sob) a ignorância implantada pela sabotagem e modelagem da educação, conforme os interesses do “mercado”.

Vampiros sociais sempre existiram, desde que se formaram estruturas coletivas de sociedade humana, é um primitivismo ainda a ser superado. E se depender dessas esquerdas que andam por aí há séculos, manipuladas, induzidas e condicionadas a um sentimento de superioridade pelo próprio sistema social, é uma superação por demais longínqua. A esquerda tampouco merece confiança – e as exceções apenas confirmam a regra. A arrogância e a pretensão são características do atraso e são, também, induções estratégicas pra afastar as pessoas, separar e criar conflitos.

Alguns se verão sem saída, "senão a esquerda, então o quê?" Ara... o destino. O mundo tá envenenado, os resíduos dos descartes se acumulam sem parar, o clima se modificando a olhos vistos, os governantes cada vez mais descarados, a crueldade social criando fome, desabrigo, miséria e as conseqüentes violência e criminalidade, tanto de estado quando na população abandonada, roubada em seus direitos constitucionais, em sua cidadania. O apocalipse – não o da bíblia – tá batendo na porta, aliás, batendo não, arrombando. A desestruturação dos Estados, o apodrecimento das condições de vida, além de muito sofrimento, farão aparecer formas de autonomia e defesa das coletividades, obrigarão à busca da sobrevivência, da harmonia coletiva sem contar com o aparato estatal.

Talvez seja o princípio do que, num futuro de muitas gerações ainda por vir, seria ou será um mundo sem fronteiras – “cercas embandeiradas que separam quintais” -, onde o ser humano e a harmonia coletiva estejam no centro de importância, onde a prioridade sejam as necessidades primárias supridas pra uma vida digna, sem nenhuma exceção. Uma outra estrutura social construída com o foco de atender a todas as necessidades de todas as pessoas, onde a miséria, a fome, o desabrigo, a ignorância e a desinformação sejam inadmissíveis e extintas de todas as maneiras. Condições materiais pra isso já existem há muito tempo.

Estamos no desenvolvimento individual e coletivo das condições morais e mentais, na formação de valores mais apurados, mais humanos, mais sociais, mais amorosos e solidários. A gente ainda caminha no escuro da ignorância, da desinformação, da distorção da realidade, da mentira, da farsa falsamente política. Mas caminha. Tateando no escuro, mas andando.

O tempo não pára de passar, é sempre bom lembrar.

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

O fluxo dos ciclos

























No mato, não tive reflexões. Ao contrário, fiquei na raríssima situação de não pensar em nada, em vários momentos. Tipo o objetivo da meditação. É como se houvesse uma atividade de acomodação mental, mas no inconsciente - a nível consciente era o nada, sem pensamentos além dos instintivos, o cuidado com a inclinação, com alguma cobra ou aranha que estivesse no meio das folhas e caules jogados no chão no dia anterior, pra chegar na terra e aplicar as ferramentas na abertura da trilha. 

A vida já anda longa, pra quem pensou que não passaria dos trinta anos. O tempo impõe as mudanças, o caminho não pára de passar, a mutação é permanente. O garoto de ontem passou pelo adulto e já se torna velho. Acontecimentos a perder de vista, aprendizados no próprio couro, no arriscado da exposição sem proteção. Espero pra saber o que acontece no inconsciente, de onde afloram os resultados na consciência e daí segue pra atividade, pra materialização, a dimensão do aprendizado prático, pro plantio no coletivo, seja da forma que for.

"Agora é nossa vez, somos os mais velhos", pensei no enterro do corpo da minha mãe. E falei com minha irmã. Meu pai já tinha ido em 2003, imagino que estivesse no grupo de recepção dela. Não senti a presença dela no acontecimento como senti a dele. Meu pai estava ali, vendo tudo e todos, no enterro dele - ou melhor, do seu corpo. Minha mãe foi levada dormindo. Não estava ali, não viu nada, só o corpo restava pras pessoas "se despedirem". Um dia vou saber o porquê. Um dia vou entender muita coisa que, por agora, não dá, é preciso aceitar, por inevitável. Há entendimentos acessíveis por fazer e é perda de tempo buscar explicações e entendimento inacessíveis, além do nosso alcance. O que mais precisamos aprender está acessível - mas às vezes é o que não queremos, não nos dispomos, impedidos por orgulho.

Fim de um ciclo, começo de outro. Foi assim desde que me entendo. Só que agora os ciclos são mais amplos, levam mais tempo. E a visão do caminho caminhado percebe nuances, profundidades e ligações antes despercebidas. É a digestão da vida enquanto chegam os sessenta anos nessa existência. Uma atividade cumprida no profundo do ser, na camada subterrânea da alma, no inconsciente - as palavras são precárias nessas definições que escapam à razão no estágio em que estamos.

Seguimos nas idas e vindas entre dimensões, numa caminhada onde temos chegadas, mas não vemos a chegada final. A cada fim corresponde um começo - ou recomeço -, a cada morte corresponde um nascimento. 


Fotos - Maria Clara Gusmão e Eduardo Marinho.



sábado, 15 de agosto de 2020

Um fim de mundo

Tenho ouvido muito "quando passar essa pandemia", "quando tudo voltar ao normal", "passando a quarentena"... sei não. Normal? Voltar a que normal? O medíocre? O desumano? Continuar com miséria, fome, desabrigo, abandono? De um lado uns poucos usufruindo de excessos, luxos e privilégios, de outro uma enorme maioria vivendo entre dificuldades, carências, roubada nos seus direitos básicos, humanos, constitucionais.

Voltar ao normal vai ser a pior coisa, se acontecer. Pra quê, então, morreram tantos de covid? Pra quê se dividiu a sociedade tão brutalmente, famílias que se estranharam, personalidades, mentalidades se revelando, se separando, se setorizando. Não se sabia com quem se tratava, ficou-se sabendo e se estabeleceram divisões.

Os descaramentos vieram de monte, os mecanismos de controle social se mostram às claras, pra quem tem olhos de ver. Os poderes chamados públicos nunca foram públicos, uma farsa institucional foi montada, desenvolvida e é permanentemente atualizada. O interesse de um punhado de podres de ricos se insinua pra dentro das instituições e as dominam, controlam, influenciam e corrompem. A propriedade, a grana, o lucro valem mais, bem mais que a vida humana. Todas as vezes que um governo começa a servir aos desservidos, passa a ser difamado, odiado e, afinal, derrubado.

Nunca vi tão descarada a estrutura da sociedade, perversa, empresarista, desumana, mentirosa, covarde, anti-social, controlada dos subterrâneos, dos bastidores do teatro macabro dos marionetes legislativos, executivos e judiciários. Interesses banqueiro-mega-empresariais prevalecem, são rapidamente atendidos em prejuízo das populações. Os que mandam são servidos primeiro. A força da sociedade, inconsciente, é servida de forma secundária, pra que o sofrimento não chegue a ponto de questionar as mentiras. É o que se pode perceber nos movimentos de fato, nas decisões dos poderes ditos “públicos”.

Não tem volta ao normal, esse normal injusto, anti-social e sem escrúpulos, sensibilidade ou respeito à vida. Há muito mais forças e entidades envolvidas do que se percebe. Isso não pode voltar, confio no "apocalipse", na morte desse mundo - pra poder nascer um outro. O "sacode planetário" tá só começando.

Passando a pandemia começa outra coisa, durante já tá acontecendo várias outras - o derretimento das calotas polares, por exemplo, parece que a do norte já foi, a do sul é um continente, tem muita terra por baixo do gelo e já tá aparecendo em várias partes; o nível do mar continua subindo; vulcões explodindo; avistamentos de extraterrestres relatados como nunca no mundo inteiro. Furacões, ciclones, terremotos, tsunamis, num ritmo característico de mutações intensas.

Outras virão na seqüência, dando continuidade ao fim desse mundo. Depois vem outra coisa, e outra, e outra, até que a estrutura institucional se desacredite, desmorone, fique sem condições de funcionar. E a gente comece a construir outra sociedade, cheia de autonomias, cooperativa, humana, solidária. Que tenha no centro de importância o ser humano,  a sua formação desde a infância, alimentação, abrigo, instrução, preparação, informação, desenvolvimento e integração - individual e, por consequência, coletiva - como parte da natureza, do equilíbrio planetário, de um universo de dimensões ainda desconhecidas.


observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.