sexta-feira, 15 de março de 2019

A morte do meu pai


Fui esperar o corpo no cemitério. Meu pai havia morrido durante as férias de verão, num hotel fazenda em Conservatória, interior montanhoso do estado do Rio. Ele passava sempre as férias ali, com minha mãe e uma penca de netos. Havia muitas atividades para crianças e adolescentes, passeios a pé ou a cavalo, uma lagoa onde se nadava, remava, mergulhava, além de recreadores, guias, contadores de histórias. A seresta é uma característica local e toda noite seresteiros encantavam os hóspedes.

Aquela era a primeira vez que Ravi, meu filho, havia sido convidado – ele estava com quinze anos e havia conhecido essa família pelos doze, sem nenhuma convivência antes. Na tarde daquele dia ele havia passado pelo avô no estacionamento do hotel, que estava limpando o carro com uma flanela e reclamando de um arranhão no parachoque, “não sei se fui eu que esbarrei em alguma coisa ou se alguém “ruim de roda” raspou aqui no estacionamento”.

À noite ele teve um acesso de tosse interminável e minha irmã mais velha, que passava uns dias das férias ali, sugeriu e foi com ele ao hospital local pra uma consulta de emergência. Depois dos primeiros exames, o médico achou melhor aprofundar e levou meu pai pra dentro, onde estavam os aparelhos mais pesados. Minha irmã viu meu pai pela última vez com o soro na veia, caminhando com o médico pro interior do hospital. O médico carregava a haste metálica onde se pendurava o soro, meu pai reclamava, “tira esse negócio do meu braço, doutor”. Tempo depois, o médico veio com a notícia: “infelizmente o seu pai teve uma parada cardíaca e, apesar de todas as nossas tentativas, não foi possível reanimá-lo. Meus pêsames”.

A notícia desabou sobre a família inteira. Ele tinha oitenta e dois anos – a mesma idade da minha mãe – e tinha uma saúde ótima, sem nenhuma das doenças comuns na velhice. Foi um choque geral. Recebi a notícia na manhã seguinte, por Helena, uma das “funcionárias” da família. Minha primeira reação foi idiota, “cê tá brincando”, como se alguém pudesse brincar com um assunto desse. “Pior que não”, foi a resposta. Eu entrei numa espécie de transe. E o resto do dia se passou entre lembranças e reflexões. Nosso abraço, tão esperado havia tantos anos, tinha sido adiado. Agora, só quando eu chegasse lá também.

Havia cinco anos que minha relação com eles tinha sido retomada, ainda que muito superficialmente. Aos dezenove anos eu deixei pra trás faculdade, casa, vida confortável e socialmente “segura”, com a finalidade de encontrar algum sentido numa vida que, até então, não tinha nenhum que me parecesse satisfatório.

Desde os quatorze anos, quando passei num concurso pro Banco do Brasil, eu questionava os objetivos da vida. Todos me pareciam pouco, vazios e frustrantes. “Deve haver algum sentido maior, não é possível que a vida seja só isso”, trabalhar no sacrifício, esperar pra viver nas horas vagas, nas férias, pra garantir conforto e segurança e nada mais. Em dez meses eu sentia repulsa à idéia de passar a vida naquele ambiente medíocre, com aqueles valores que não me diziam nada, e pedi demissão.

Então começaram as cobranças sobre o que eu queria da vida, o que eu seria, o que escolheria fazer, cobranças que não eram assumidas, mas sugeridas – eu havia “jogado fora” uma “oportunidade de ouro” de um emprego público, com plano de carreira, garantido até a aposentadoria – isso era o que me apavorava, passar a vida naquele ambiente – com privilégios e garantias como poucos outros empregos. A garantia de frustração não era considerada, nem pensada. Só eu sentia, era um vazio, uma falta de significado na vida que eu intuía a partir dos assuntos que ocupavam os mais velhos, dos valores que eu assistia serem exercidos. Era uma repulsa irresistível, incompreensível pra minha família. Pra mim também, "o que eu tenho de errado, que não me enquadro?" Na visão deles, isso era motivo de preocupação comigo e com o meu destino. Na minha também.

Eu não tinha ideia do que “fazer na vida”, estava no ensino médio e nenhuma das profissões universitárias me atraía, eu parecia não ter vocação pra nada. Procurando satisfazer as expectativas familiares, resolvi pela carreira militar – que me parecia fácil – e entrei por concurso na Preparatória de Cadetes do exército. A família comemorou, certa de que eu seguiria a carreira do meu pai. Um ano e meio depois eu pedia desligamento, enojado com aquela hierarquia e com o papel que entrevia das forças armadas, no controle e repressão do povo. Era pior que o BB. As finalidades sociais eram de envergonhar, eu não queria colocar minha vida a serviço daquelas finalidades. Não valiam o plano de carreira, a segurança, a moral social, nada valia a violação da minha consciência – e o sentimento de que seria uma necessidade cotidiana definiu minha decisão de sair dali.

Foi inevitável a enorme decepção familiar, principalmente a do meu pai. A família e os mais próximos viram na minha atitude uma afronta a ele. Não era. Era a minha visão projetada na vida que eu teria, seguindo por ali, em grande parte previsível. E que me dava angústia, por não ver sentido e me sentir obrigado a seguir ordens que não me respeitariam e me fariam violar minha consciência. Essa era a função da tal "hierarquia". Não questionar e obedecer, era o que me esperava. Me envergonhava a idéia, mas eu não podia dizer, era uma "heresia" imperdoável. Não havia opção, tive que sair.

Um ano e meio depois, entrei na universidade, ainda na tentativa de me enquadrar nas expectativas da família. As angústias do final da adolescência, começo da juventude, só aumentavam. Eu estava com dezoito anos e os três primeiros meses universitários foram de boa surpresa. Vi sendo discutidas as injustiças sociais e a estrutura da sociedade, assuntos que me ferviam na cabeça e que eu não encontrava com quem falar. Entrei com vontade nas discussões, só pra me decepcionar. Logo percebi que os discutidores não sabiam ligar suas teorias à realidade que eu vivenciava todo dia, que eram jovens de classe média em sua maioria, vindos do ensino particular, e não se aproximavam das dificuldades vividas pela maioria mais pobre, tinham aquele sentimento programado de superioridade e se achavam capazes de “conduzir as massas”, não tinham a menor dúvida disso. Eu tinha. Aliás, tinha certeza de que ali ninguém suportaria viver e superar as dificuldades cotidianas da maioria. Com o couro duro adquirido no exército, eu viajava de carona em férias e feriados, com muito pouco dinheiro, dormindo ao relento, em postos de gasolina, em casas abandonadas ou em construções, convivendo com os mais pobres e os observando com total interesse. Passava dias na reserva florestal do Mestre Álvaro, sozinho ou com um ou dois amigos, "esquecendo" a vida cotidiana na atividade mateira, facilitada pelos treinamentos militares. Encontrava pessoas vivendo em pobreza extrema, em casinhas pelo meio das trilhas, analfabetas e ainda assim com sabedoria de vida, com substância profunda e forte que me confundiam os valores aprendidos. Sentia haver alguma coisa errada no que me ensinaram.

Eu sentia uma diferença ainda incompreensível pra mim, mais espontaneidade, mais afeto, mais transparência de personalidade, mais solidariedade, mas capacidade de encarar e superar dificuldades. O sentimento de inferioridade que eu via neles não combinava com a vida que eles levavam. Eram muito mais fortes que os meus colegas universitários, embora se sentissem, eu via, inferiores. E a distância entre as teorias acadêmicas e a prática cotidiana se fez visível pra mim. Falava-se em “mudar a sociedade” ou “o mundo”, sem a menor condição pra isso. Falavam em "conduzir as massas" mas nem a língua das massas eles falavam. Logo estariam com seus diplomas, sentadinhos em seus lugares sociais, caladinhos pra não se darem mal em suas carreiras profissionais de “nível superior”. O tempo mostraria que eu estava certo.

As reflexões sobre a vida, a busca de sentido, os questionamentos que se aguçavam à medida em que eu me aproximava da idade adulta, me faziam sentir que estava diante de uma encruzilhada decisiva. Na minha frente, estava a opção entre a frustração e o risco. Os caminhos visíveis me pareciam de uma frustração certa, uma vida repetitiva, previsível, onde eu esperaria férias, fins de semana e feriados pra poder viver e ter algum prazer na vida. O objetivo seria apenas manter meu patamar social – de preferência subir degraus – privilegiado, isolado da realidade e conformado com as injustiças. “O mundo, infelizmente, é assim mesmo e não se pode fazer nada além de se garantir individualmente e, pra satisfação da própria consciência, se ela assim o exigir, fazer caridade ou algum trabalho voluntário de ajuda aos mais pobres”, nunca engoli esse egoísmo cheio de vaselina. 

A visão intuitiva da minha própria frustração foi se tornando insuportável. Aqueles valores, aqueles comportamentos, os privilégios e garantias, o conforto e a consideração social já não me diziam mais nada. Os privilégios me constrangiam, apareciam como usufruto de injustiças, davam a sensação de uma vida artificial e cheia de falsidades. Isso me fazia meio estranho no mundo em que vivia.

No auge das angústias, antevendo as frustrações de uma vida convencional e previsível, sentindo uma necessidade imperiosa de encontrar algum sentido maior na vida, que me satisfizesse a alma, me desliguei da universidade e fui procurar. Devia haver algum sentido além dos sentidos vazios que me apresentavam. Peguei a mochila e caí na estrada, “ou vou encontrar algum sentido pra essa vida ou vou morrer procurando”, falei muitas vezes, naquela época, a quem me perguntasse por que eu estava fazendo aquela “loucura”. E muitos me perguntaram, antes de cortar relações... eu havia ficado maluco, pra eles. Na minha visão, eu havia ficado incômodo. Precisavam me desqualificar pra não se sentirem prisioneiros, eu imaginava.

A família, horrorizada, decepcionada, não tinha condições de perceber os sentimentos que me moviam, de entender as minhas motivações. Não podiam aceitar, compreender, nem mesmo respeitar – era a suprema traição, pra eles. Meus pais achavam que eu não os respeitava, confundindo respeito com submissão. Era a minha vida e era meu direito e minha obrigação decidir o que fazer com ela – afinal, seriam minhas as conseqüências das minhas decisões. Mas eles não me ouviam mais e, depois de todas as tentativas de me manter no padrão de vida que eles me deram, sem sucesso, cortaram totalmente as relações comigo – corte que se estendeu a todo o meu convívio social, parentes, amigos e conhecidos.

Então as vivências se fizeram, a angústia desapareceu, a vida ficou muito mais interessante, embora muito mais arriscada também, e o aprendizado se intensificou, na prática do dia a dia. Era um outro ponto de vista pra observar a realidade, muito mais rico e profundo que os anteriores. A dor da incompreensão durou pouco. A vida tomava toda a atenção, o trato cotidiano com as variadas situações que se apresentavam não deixavam espaço pra lamentações, o dia a dia fez sumir a lembrança de um dia ter sido parte dos privilegiados. Ficava apenas na formação de visão de mundo, agora mendigo, maluco, hippie, micróbio, pária social. Com o passar dos anos, tive filhos, uma em Vitória, outra na Bahia, o caçula em Minas Gerais.

Dezoito anos se passaram até que minha segunda filha, então nos seus quatorze anos de idade, resolveu conhecer os avós. Tentei demover essa intenção – lembrando que já havia feito uma tentativa de apresentar as duas, pequenas, que foi sumariamente recusada por meus pais –, mas ela estava decidida. “São meus avós no documento? Estão na minha certidão de nascimento?” Sim, estão, são meus pais e tinham que estar. Ela fulminou, “então eu acho que tenho o direito”. Eu não tive o que dizer, além do número do telefone que, pra minha surpresa, saiu de uma vez só, sem esforço. E não precisei dizer duas vezes.

Ela telefonou, pensei que eles iam recusar de novo, mas a convidaram pra jantar. Ensinei como chegar, dei a grana das passagens. Ela foi de ônibus e voltou de táxi, pago por eles com um motorista conhecido. Acharam um absurdo mandar uma adolescente sozinha do Catumbi – estávamos morando na beirada do "complexo" do Fallet, em Santa Teresa - ao Leblon. Desconheciam a minha realidade e, por conseqüência, a realidade dela, desde pequena criada entre a periferia e a rua, a estrada, as situações de risco que a sociedade impõe a enorme parcela da população. E ela trazia um convite, que eu fosse jantar com eles no dia seguinte.

Começava ali uma nova relação, meus pais haviam envelhecido muito e, apesar deles esperarem uma continuidade da relação interrompida, não havia a menor condição disso acontecer. As vivências que eu trazia eram inimagináveis pra eles, assim como a visão de mundo que eu formara nas práticas atentas da sobrevivência com as dificuldades dos excluídos periféricos. Eu era outra pessoa, com a visão a partir de baixo, opiniões formadas na lida cotidiana, distante dos privilégios, convívio íntimo com a falta de direitos e com o desrespeito social pelas áreas periféricas e pelo povo mais pobre. 

Foram cinco anos de convívio rarefeito com a “antiga” família, até a partida do meu pai. A relação se mostrou distante, eu havia me tornado uma pessoa estranha – agora na prática, com vivências, além da teoria intuitiva da adolescência – àquele meio. Mas percebia, às vezes, meu pai me olhando de longe, com uma expressão que eu interpretava como a percepção de que eu não era uma pessoa tão ruim quanto ele havia pensado. Eu imaginava que aos poucos ele iria se tocando, até que a gente pudesse se reaproximar de verdade. Não deu tempo.

Quando recebi o telefonema com a voz emocionada da Helena, pensei “o nosso abraço foi adiado, vai ter que ser lá do outro lado”. Sempre admirei meu pai, como pessoa boa e reta que é, caráter honesto e temperamento amistoso. Onde há afeto, há ligação, é o que me diz a intuição. Mesmo com todo o afastamento, em todos esses anos, a ligação afetiva não se desfez.

As vivências e acontecimentos em minha vida, tantos aprendizados e experiências, não seriam possíveis se a relação com a família consangüínea não se tivesse rompido. Em várias ocasiões críticas eu teria pedido socorro. Mas o rompimento era total e em nenhum desses momentos eu sequer lembrei da existência deles. Estava igual a todo mundo à minha volta, nas periferias, exposto a tudo o que a maioria está. Era minha saga, minha sina, minha escola.

Mais tarde no mesmo dia, recebi o recado da minha mãe – eu devia ir ao cemitério São João Batista, onde o corpo chegaria à tarde. Era preciso alguém da família pra receber o corpo. O enterro seria na manhã seguinte. E eu fui.

Havia um salão preparado, com um caixão vazio e duas coroas de flores, uma do exército, outra da Petrobrás – onde meu pai fora assessor de segurança depois de reformado, o aposentado militar. Algumas luzes fracas, castiçais com velas apagadas, grossas e imponentes. Cortinas escondiam as vidraças que davam pra vastidão de túmulos dentro do cemitério e escureciam o ambiente. Lá fora, a tarde anoitecia. Uma escada larga dava pra portaria, de onde se via a rua e a entrada pelas portas de vidro. Subi e olhei pra fora, os pensamentos variando sobre sentimentos difíceis de definir. Nessa hora vi um carro funerário entrando pelo portão. “Está chegando”.

Em pouco tempo dois caras entraram empurrando a maca de rodas, o corpo do meu pai em cima, cabelos brancos, camisa social, calça comprida e meias. Eles me viram olhando do alto da escada, devem ter percebido a semelhança física e me cumprimentaram, sérios. Pensei em perguntar pelos sapatos, mas me contive, “pra quê?" Ele não precisava mais de sapatos. Fiquei observando quando eles encostaram a maca no lado do caixão e, com movimentos profissionais, transferiram o corpo num único impulso, ajeitando um travesseiro sob a cabeça. E foram embora ao mesmo tempo em que um funcionário do cemitério entrava com um carrinho cheio de flores. Cuidadosamente ele foi colocando as flores sobre o corpo, devagar, até ficarem de fora apenas a cabeça, as mãos entrelaçadas sobre o peito e as pontas dos pés. Todo o caixão eram flores até em cima. Aí ele saiu e então eu fiquei sozinho.

Cheguei perto. Ele parecia dormir, tranquilo como sempre. O pensamento corria, tanta distância, tanto tempo, tantos acontecimentos, tanta ligação... Senti que ele não estava dentro do corpo, não tinha ninguém ali mais. Desabitara. Senti também que ele podia estar por ali, por perto, no abstrato, vendo e ouvindo meu pensamento. “Será que você agora pode ver a minha alma? Será que pode ver quem eu sou, de verdade? Será que minha imagem se modificou pra você? Enxergar meus valores, meus propósitos, desfazendo a imagem que teve, de rebelde, desmiolado, drogado, perdido, largado e bandido? Ah, meu pai... quando chegar aí quero te abraçar como não foi possível nessa vida. Agora talvez você possa perceber que os valores do mundo são falsos, superficiais, que os verdadeiros valores são os da alma, abstratos e longe das convenções sociais que foram a base da sua vida. E que os mesmo motivos que te levaram a sentir vergonha de mim são, na verdade, motivos de orgulho.”

No meu sentimento, na minha intuição, a morte é reveladora, um portal que nos leva a dimensões de onde se vê a realidade física de outra maneira, percebendo a superficialidade, a falsidade dos valores sociais, ao mesmo tempo em que se vislumbra valores mais verdadeiros. Praqueles que vibram na sinceridade, na honestidade, na busca de melhores valores. Porque me parece óbvio que há outros níveis de sintonia, cada um vai sintonizar a vibração que cultivou, que exerceu e exerce, que carrega consigo. Mas isso é outro papo.

Os que vêem na morte uma tragédia, uma desgraça – e não uma conseqüência natural de ter nascido – devem ser os que mais se surpreendem. Assim como os fanáticos religiosos que apregoam “verdades” improváveis e, talvez por isso mesmo, têm pavor da morte.

Nathália apareceu sozinha ali pelas nove da noite. Era a primeira neta, minha sobrinha que conheci adulta e que não pude sentir como sobrinha – não a vi criança nem adolescente. Conversamos e depois ela se aproximou do caixão. Eu me afastei em respeito, havia um amor especial entre os dois e era a sua despedida do avô tão amado. Fiquei olhando de longe. Quando ela foi embora eu fiquei sozinho de novo com o corpo e a sensação de que meu pai estava por ali.

Passei a madrugada refletindo, “conversando” com ele, pensando que talvez agora ele pudesse me ver e estivesse surpreso com a visão sobre mim desta outra dimensão. Fui interrompido por três vezes, por pessoas que vivem de explorar a dor dos familiares, aproveitando a tristeza pra extorquir o máximo possível. O primeiro queria grana por uma coroa de flores que havia sido encomendada pela minha irmã. Estava indo embora, "largando", e precisava receber. Eu mostrei as duas coroas, a do exército e a da Petrobrás, não havia outra. Ele disse que estava sendo confeccionada na floricultura em frente, onde ele trabalhava. “Se foi encomenda da minha irmã, é dela que tu tem que cobrar”, eu disse. Eu não tinha nenhum dinheiro. E ele sumiu. Pouco tempo depois, outra assombração surgiu do escuro, perguntando se o falecido “merecia” uma chuva de pétalas e som ambiente na hora de descer ao túmulo. Olhei nos olhos dele, com raiva daquela covardia oportunista, “o falecido tá falecido e não precisa de mais nada deste mundo”, ele sentiu no meu olhar e foi embora. Antes de amanhecer, o primeiro voltou pra mais uma tentativa, demonstrando a mentira de que estava indo embora. Insistiu em receber a grana da tal coroa de flores. Eu fui direto, levantei o dedo na cara dele, “vou perder a paciência com você, urubu safado”. Aí desistiram de mim. Depois eu diria que passei aquela noite espantando os urubus.

O dia começava a clarear quando ajoelhei do lado do caixão, pra ficar mais perto do semblante tranquilo, dormindo. “Ah, meu pai, quanta distância e quanta proximidade ao mesmo tempo...” Tive o sentimento de ser uma relação antiga, de muitas vidas. “Dessa vez não pudemos conviver muito, né, pai...” Aos poucos entrei em estado de oração, não sei como se diz, em nível mais profundo de consciência, evocando luzes, ou irmãos, pra receber aquele cara tão amado, tão querido por todos que o conheceram. Não sei quanto tempo fiquei assim, as lágrimas descendo, numa espécie de transe natural, em estado mental mais profundo, refletindo, conversando com a dimensão onde ele estava, na minha imaginação.

Um burburinho distante apareceu e foi se aproximando, me trazendo de volta, abri os olhos e vi a primeira parte da família chegando. Enxuguei os olhos, levantei, saí de perto do caixão, que foi cercado, e fui lá fora respirar e ver o dia já claro. Saí caminhando entre os túmulos, mausoléus enfeitados com esculturas em granito, em mármore, lindas, bem acabadas, caras, pirâmides, cruzes enormes talhadas com perfeição, granito, mármore, quartzo negro e rosa, anjos, santos, divindades gregas, romanas, uma exposição e tanto. Fui caminhando a esmo, me afastando da administração e me aprofundando naquela “cidade dos mortos”. À medida em que me afastava, luxo era substituído pela sobriedade, pela simplicidade e, enfim, mais longe, pela pobreza. Túmulos de tijolos, com cruzes simples, os nomes e retratos dos enterrados, até os mais pobres, montinhos de terra, sem nada além da cruz tosca de madeira com o nome e data de nascimento e morte. Na morte, como na vida, ricos no centro de importância, pobres nos longes, nas periferias.

Caminhei de volta, de longe vi o salão cheio. Chegando, vi amigos, parentes, conhecidos e desconhecidos, gente que me conheceu criança e de quem eu não lembrava ou lembrava muito vagamente. O falatório era intenso, choros, reclamações, lamentações, “ele era tão bom...!”, fui abordado no meio do caminho, me parecia levemente conhecida, mas não sabia se prima, amiga da família, de qual parte, desolada, "por isso mesmo que ele tá bem, minha senhora, fica tranqüila". Ela olhou nos meus olhos e tinha confusão nos olhos dela. Mas eu não tinha mais nada pra dizer e segui adiante.

Minha mãe estava ao lado do caixão, chorava amparada pelas filhas e por alguns netos. Cheguei perto, dei um beijo na testa, ela me olhou sem expressão e voltou a olhar o rosto do meu pai, acariciando o cabelo dele com as pontas dos dedos. Falei no seu ouvido, “cê vai ter que esperar pra encontrar com ele”. Ela me olhou de novo, interrogativa em sua dor. E eu continuei, “pra onde cê acha que vai esse povo todo que tá aqui?”, fiz um gesto com o braço abrangendo todo o salão, ela acompanhou. “Ele passou pela porta que todo mundo vai passar, cada um no seu momento. Quando passar pela sua, seja no tempo que for, cê vai dar de cara com ele, porque o afeto, o amor une as almas, aqui e lá”. Ela me olhava com uma expressão de surpresa e distância, sem ânimo pra replicar. Mas tive a impressão de que um pouco de calma lhe chegou. Não posso saber se é verdade ou minha vontade.

Passei os olhos pela pequena multidão e fui andando, quase ninguém eu conhecia, nem mesmo os que me abordavam com cara de me conhecerem. As frases, as expressões de consolo e solidariedade, programadas, repetitivas, não me diziam nada e me incomodavam. Garções serviam água, refrescos, canapés, biscoitos, “caraca, contrataram um bifê”. Senti olhares sobre mim, o “filho perdido”, motivo de tanto sofrimento, olhares que me cobravam um arrependimento impossível, traidor da família que nunca me senti, apesar das acusações repetidas por décadas. Não era surpresa e não chegava a me incomodar, de previsível que era. Na mentalidade comum, natural que fosse assim. Diante das manifestações que me incomodavam, me afastei pra um canto e fiquei olhando. Até que alguém chegou, “sua mãe quer falar com você”.

Voltei ao centro do evento, ela permanecia junto do caixão. “Oi, mãe, tá me chamando?” “Meu filho, cê tem que fazer uma coisa muito difícil. Eles vão lá retirar o corpo da sua tia pra poder enterrar o seu pai, alguém da família tem que ir junto”. Parece que ninguém quis ir. “Sem problema, vou lá”.
Senti alívio em sair do ambiente fechado, abarrotado, e respirar o ar da manhã. Fui com dois funcionários do cemitério, era regra ter alguém da família naquela função. Eles levavam um pequeno guindaste que foi instalado em cima da tumba. Rasparam o cimento embaixo da pedra de mármore que cobria, depois passaram cordas e ergueram.

Minha avó, mãe do meu pai, havia sido enterrada ali em 1982. Pouco mais de dez anos depois, era vez da filha dela, irmã mais velha do meu pai, Dinda, a “madrinha” da família, nascida quatorze anos antes dele. Nunca se casara pra viver com minha avó que ficou viúva nos trinta e tantos anos. E se tornou a Dinda da família.

Olhei pra dentro do buraco. Da Dinda só tinha o vestido cor de vinho, com um nó grande sobre a barriga, que eu reconheci de eventos na minha infância e sempre havia achado horrível. Dentro, o esqueleto marrom não lembrava em nada minha tia. Um monte de baratas corriam no fundo e nas paredes. Estranhei, “ué, cadê o caixão?” Um dos caras pulou dentro, indiferente às baratas, dizendo “o caixão é o primeiro que acaba” e meteu a mão no pó lateral, puxando uma das alças metálicas, “tá vendo aí?” Em seguida passou a recolher os ossos e colocar numa caixa branca. A naturalidade com que ele fazia isso era constrangedora. Os ossos das mãos entrelaçadas ainda tinham os anéis de ouro e pedras e se desfizeram ao serem recolhidas com rapidez e jogadas dentro da caixa, com anéis e tudo. Eles tinham pressa e não era à toa. Depois de limpar o fundo, varreram e usaram o guindaste de novo. Pra minha surpresa, o fundo era “falso”. Retiraram a laje do fundo, a cova era maior do que parecia, e apareceu outra caixa branca, igual a que agora continha os ossos que foram da Dinda. Eram os da minha avó, entendi. A de Dinda foi colocada ao lado e a lage, reposta em seu lugar, escondeu as duas.

Acabaram o serviço e o cortejo já vinha caminhando pela alameda, em direção a nós. Tudo sincronizado, eles eram profissionais. Não precisei ir ao encontro. Um funcionário empurrava o carrinho, a família em volta e a multidão atrás.

Vi ao longe, na área pobre do cemitério, outro enterro acontecendo. Impossível não perceber o contraste. Poucas pessoas, o caixão parecia de papelão e era carregado nas mãos por quatro pessoas que não eram trabalhadores do cemitério, mas parentes ou amigos. O que esperava era um buraco no chão, ao lado de um monte de terra com uma pá cravada em cima e um coveiro esperando pra cobrir o caixão na cova.

Olhei pro “meu” cortejo. O caixão de madeira nobre, num esquife de rodinhas todo enfeitado com flores, um monte de gente bem vestida – uns poucos pobres, servidores da família. Atrás, a multidão era variadas, tinha de várias classes, de pobres a ricos. Meus pais tratavam muito bem os que os serviam, vi muito reconhecimento ali. 

Esperei chegar, minha mãe vinha ao lado, já sem lágrimas, abatida, amparada por vários parentes. O caixão foi colocado sobre o túmulo, em cima de duas ripas atravessadas, pro “último adeus” antes de descer ao fundo. Alguém me perguntou “quer falar?” Pego de surpresa e consciente da visão geral de que eu era o “filho maldito”, fui seco, “não”. Ficou um clima estranho, resolvido por um antigo amigo do meu pai que eu não conhecia, embora soubesse da sua existência. José Hermógenes, professor de ioga, companheiro da juventude dele, se adiantou e contou uma história da época em que eram estudantes. Engraçada no final, arrancou alguns poucos sorrisos. Depois o caixão foi descido e a pedra foi recolocada em seu lugar. O nome já estava colocado nela, em letras douradas, com as datas.

Então a multidão foi dispersando, lentamente, e eu me integrei à pequena comitiva familiar que acompanhava minha mãe no caminho de volta. Olhei distante na direção do outro enterro. O coveiro tinha terminado de encher a cova e enxugava a testa, enquanto pouco mais de dez pessoas caminhavam em direção à saída lateral do cemitério. Uma mulher mais velha era amparada por duas outras mais novas. Na minha tristeza pessoal, acrescentei uma tristeza social, “até a saída é outra”.

Fomos pela área “nobre”, saímos pela portaria principal onde um táxi já esperava minha mãe. Fui com ela e minhas irmãs até seu apartamento, onde lhe deram uma droga pra dormir. Não havia mais o que fazer por ali e eu fui embora, com a cabeça em branco.

Chegando em casa, peguei pincéis e tintas, preparei telas e pintei cinco quadros seguidos, coisa que nunca havia feito, mas que me serviram pra equilibrar o espírito. E pelo jeito, só pra isso mesmo, não criei nenhuma ligação. Dei três deles, com a sensação de que não teriam proveito algum, mas como se eu precisasse passar adiante. Os outros dois deterioraram com o tempo, a umidade, a chuva e a precariedade da minha casa. Não me importei. A vida segue e a matéria desaparece.

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.