sábado, 30 de maio de 2026

O tempo passa.

É, rapaz, o tempo passa. Lembro da inexperiência e do espanto diante das coisas do mundo. O início das vivências, das perguntas sem fim, até cansar os maiores. Aí eu calava, mas os olhos curiosos procuravam tudo, se espantando toda hora. Ouvia as histórias dos mais velhos, quanto mais velhos melhores histórias, eu adorava, via na imaginação tudo o que era contado. Depois loroteava entre os meus iguais, contava histórias ouvidas como se tivessem acontecido comigo, inventava detalhes, acrescentava personagens às vezes. Gostava de contar também, não tanto quanto de ouvir, longe disso. Mas contar me colocava dentro das histórias, ficava brabo quando alguém não acreditava. O tempo passando e eu fui viver a vida solta no mundo, vivências de perder a conta através dos anos. Quando se é nômade, sem casa ou mesmo alugando às vezes uma casinha por um tempo, depois seguindo viagem, mudando sempre de lugar, acontece muita coisa o tempo todo, nada se repete, não há rotina a não ser a de não ter rotina. O tempo passou, vieram os filhos - cada um nascido em um lugar diferente -, se criaram, tomaram rumo e as incontáveis vivências deixaram algumas histórias - não dá pra lembrar de tudo. Hoje conto as histórias que vivi. Mas desde cedo já tinha histórias pra contar. As vivências do Banco do Brasil, depois no Exército, nos tempos de cursinho e do curto período na universidade. E a estrada, dois anos sem paradeiro, vivendo de qualquer maneira, de déu em déu, sempre em movimento. Já tinha histórias pra contar e gostava, enquanto mangueava meu artesanato. Um dia lembrei que gostava de contar lorotas na infância e reparei que não precisava mais de lorotas pra contar histórias. Eu tinha vivido as histórias que contava e eram boas as histórias, embora muitas não tenham sido agradáveis de viver. E quando, em alguma mesa em que tinha parado pra vender meus artesanatos artísticos - sempre rolava um papo que dava espaço pra alguma história, no argumento -, alguém desacreditava da história, eu já não me aborrecia. Ao contrário, sorria porque me parecia um elogio, ainda que torto. Na verdade, algumas histórias são tão boas, tão incríveis, que parecem mentira mesmo. Mas eu estava lá e vivi a história, sabia que era verdade. Então eu respeitava o descrédito, tá no direito, ninguém é obrigado a acreditar em nada. Mas eu me sentia elogiado. Era como se a pessoa me dissesse "esta história é tão boa, tão incrível, que só pode ser mentira". Também não eram muitos, a maioria sentia a verdade na forma que eu contava, na força da palavra verdadeira. Mas se não fosse assim também, sem problema. Eu sei o que aconteceu, porque tava lá. Agora eu me vejo no papel dos antigos da minha infância, contando as histórias vividas, vendo encanto nos olhos que escutam, imaginações, reflexões, esclarecimentos. Tento contar da melhor forma possível, trazendo os ensinamentos, as reflexões, os questionamentos que essas vivências podem passar às mentes inquietas, desconfiadas com essa realidade social que se impõe. E encontro identificações em mentes vividas, experimentadas no tempo e na lida da vida, uma espécia de sintonia na visão do mundo, da sociedade, das relações, dos valores, do modo de viver. É, rapaz, o tempo passa. Já me vem a curiosidade - que sempre tive - com o que vou encontrar do outro lado do portal por onde todo mundo um dia passa. Não tenho pressa, aparentemente. Mas sempre fui curioso.

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