quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Distorções, raízes, indução e subversão


Ser radical não é ser extremista. Buscar as raízes, as razões de ser das coisas, isso é ser radical. Mas ser radical, numa sociedade que induz à superficialidade, é subversivo. Por isso se trocou o significado. Radical se tornou "agressivo", "briguento", "intolerante", "desagradável", "polêmico", se distorce o significado da palavra pra evitar a sua compreensão. E evitar a sua prática. Ser radical é ser profundo, reflexivo, buscar entender a realidade indo às raízes das coisas. Posso ser gentil, tímido e, ao mesmo tempo, radical. Mas essa distorção do significado não é nenhum acaso.

Buscar as raízes da miséria e ignorância, por exemplo, ou o por quê de tanta ânsia de consumo como valor social, ou o por quê do tráfico ser combatido há tantas décadas, com fúria, guerra, ódio e matanças, e não ter sido extinto - ao contrário, parece tão forte como nunca, imbatível. O por quê da polícia ser tão agressiva, sobretudo com os mais pobres; os por quês dos serviços públicos serem perversos, insuficientes, torturantes quando se trata dos mais sem direitos da sociedade, dos mais pobres (em saúde, em educação, em informação, em moradia, em saneamento, em tudo). Ou por quê as comunicações são dominadas com fúria pela mídia comercial e o Estado está distribuindo o conversor pra televisão digital na cesta básica. São muitos por quês a perguntar e, se a gente radicaliza, ou seja, busca a raiz das coisas, percebe a infâmia deste modelo de sociedade.

Entender por quê preciso viver um inferno pra ter tanta coisa que não preciso, competindo, aturando situações horríveis, na avidez pelas sextas e na tristeza das segundas, ao custo das coisas que verdadeiramente preciso, minha paz de espírito, minha consciência tranqüila, a troca de afeto com a coletividade, o sentimento de utilidade, de satisfação em viver. A sociedade impõe um modelo de educação centrado na competição, na disputa, em vencer, que apresenta o mundo como uma arena competitiva onde é cada um por si. Seria melhor se tivesse seu foco na formação de pessoas pra integrar uma coletividade harmônica ou que pretende alcançar a harmonia social. Mas a educação imposta atende interesses empresariais, temos os bancos e as mega-empresas no poder, nos bastidores dos poderes dito públicos, dominando e determinando de forma enviesada (a chamada "política") a formação das crianças, das pessoas, de corações e mentes através do modelo empresarista de educação e do controle das comunicações, da mídia que invade todas as casas, formando mentalidades e deformando a realidade.

Não venho trazer "a solução", não teria essa ingênua pretensão. Mas creio que mais e mais pessoas enxergando mais e mais a realidade além da que nos é mostrada, farão surgir - como estão fazendo os grupos de exceção que já existem, invisíveis e invisibilizados pela mídia, quando não atacados ferozmente com calúnias, difamações e criminalizações várias - soluções diversas, locais, regionais, ao longo do tempo e das gerações, como percebo que é o processo de evolução planetária. Estão se formando, continuamente, pessoas que vão construir uma sociedade humana, menos injusta, menos perversa, mais solidária, mais amorosa. O tempo de uma vida é um grão de poeira na eternidade incompreensível.

Participar com o melhor da minha consciência é o que posso ter de mais satisfatório e, pra isso, devo estar em estado de conscientização permanente, de migo pra comigo. As raízes mais profundas a que tenho acesso estão em mim mesmo. Gosto e preciso ser radical. Preciso e gosto de trabalhar com isso. Assim tenho satisfação em viver, num mundo onde se toma toneladas de anti-depressivos todo dia. Um egoísmo que resultou coletivo. Vai ver que nem todo egoísmo é ruim. Aliás, já se reparou como estão ligados individualismo a egoísmo? Não faz o menor sentido, ou faz, mas no sentido da distorção de significado. Individualista é a pessoa que respeita o indivíduo, seja ele o que for, do jeito que for, tenha a forma ou a maneira de ser que for. Desde que respeite todos, merece o respeito de todos. Isso é individualismo. Mas, na sociedade da padronização, não pode. É preciso padronizar formas, pensamentos, comportamentos, visões de mundo, desejos, objetivos de vida, valores pessoais e sociais, pra manter a sociedade como é. Então se distorce o significado e individualismo se torna sinônimo de egoísmo. Porque o significado é subversivo.

Laboratórios de pensamento trabalham no controle mental exercido pela mídia e pelo seu massacre ideológico-publicitário. Seria bom se perguntar "será que o que eu quero da vida é o que eu quero mesmo ou eu fui induzido a querer?" Essa mesma pergunta pode ser feita com "visão de mundo", com "valores", com muitas coisas. Alguns dirão que é alucinação minha e eu recomendaria ouvir com atenção a letra do Belchior em Alucinação. Respeito qualquer opinião, mas mantenho a minha enquanto não perceber algum erro. E acho que a sociedade precisa de mais radicalismo e individualismo - reflexão e respeito. A ordem vigente é desumana, anti-vida. É preciso subvertê-la, evidentemente. Estamos todos num inferno. E as exceções do inferno são os demônios, são o inimigo que se faz de "admirável", de "exemplo inalcançável", sedução e indução.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Trator de Palmeiras agride Celestina, a kombi.

Ele veio de ré, direto, sem olhar pra trás.
Estrada Palmeiras-Vale do Capão, o trator operava espalhando pó de pedra - não sei por que cargas dágua usam isso, levanta uma poeira densa e fina no ar. Paramos à distância, coisa de 50 metros. Ele atravessava, buscava carga na pá, jogava no chão e espalhava de ré, com a própria pá. Não havia nenhum outro funcionário, nada de cones, balizas, nenhuma sinalização, ninguém pra orientar os carros ou o tratorista. Ele pegou mais uma carga do pó, jogou e veio vindo de costas, alisando o chão. Eu vi que vinha na nossa direção, mas a cabine era de vidro e eu imaginei que ele estava olhando pra onde ia. Só que ele não estava, quando vi a pá da traseira chegando perto demais, olhei pelo retrovisor e tinha um carro parado bem atrás. Não deu mais tempo de nada, a pá traseira quebrou o parabrisa e empurrou a kombi pra trás meio metro. Com o barulho e os gritos, o trator parou. Fui ao tratorista, na cabine, um menino de pouco mais de vinte anos, assustado e com medo de perder o emprego. Quis dizer que "cês também enfia o carro debaixo da máquina", esboçando uma agressividade defensiva, mas não pode explicar o movimento sem olhar pra onde estava indo. Pedi pra ele chamar a chefia, um responsável, ele ligou pelo celular. Aí começou a comédia.

Chegou uma moça, num carrão, dizendo ser secretária do vice-prefeito. Vendo as coisas, ouvindo as explicações, ligou pra mais alguém vir. Minha impressão é que disseram pra ela "vai lá ver o que tá acontecendo" depois da ligação do garoto. Em pouco tempo, chegou o secretário de infra-estrutura da prefeitura. Quis saber se a kombi tava com os documentos em dia pra registrar a ocorrência. Claro, kombi velha, qualquer falha aí e poderia esquecer o assunto ali mesmo - e com ameaças. Mas tá tudo certim com os doc da velha senhora, até a vistoria do gás tá em dia, coisa que nem mesmo os guardas rodoviários lembram de pedir. Concordamos em registrar a ocorrência, até pra ir a Seabra fazer o conserto - tem um posto de polícia rodoviária na chegada que pode nos parar pelo vidro quebrado. João Batista, esse é o nome do secretário, discordou quando falei que seria preciso ter mais funcionários e sinalização, "aqui não precisa disso não". Clarinha perguntou se as leis de trânsito no país não valiam por aqui e ele ainda insistiu, "aqui nunca teve isso não". A reação dela fez o secretário parar de falar, se afastar e prestar atenção no celular. Pra chamar a polícia civil, segundo ele, e fazer a ocorrência. Em seguida, disse pra irmos nós mesmos na delegacia, que tinha falado com o responsável - imaginei que era o delegado, mas soube que não fica delegado aqui, talvez escrivão ou agente. Tiramos várias fotos, registrei os números do trator e fomos. Duzentos metros depois um carro em direção contrária sinaliza pra nós. Paramos, era o delegado - ou, sei lá, o responsável pela delegacia -, estava indo ao fórum, em Iraquara, disse que vinha ver o acidente e que dissera ao João Batista que estava de saída da delegacia pro forum. A delegacia estava fechada, não havia ninguém pra registrar a ocorrência. O secretário não tinha como não saber disso, quando nos mandou lá. Decidimos ir à prefeitura pra falar com ele. Chegando lá, Clara entrou e foi informada por uma funcionária que a secretaria da infra-estrutura era noutro lugar e o secretário devia estar lá. Estávamos dando a volta na praça quando João Batista desponta vindo à prefeitura. Fiz sinal e ele parou. Recomendou de novo o BO, afirmou estar em contato - ele tinha passado o uatizape dele pra Clarinha - e que "tudo se resolveria". Sei. Em seguida João encostou o carro na porta da prefeitura, abriu a porta da frente e quem entrou? A funcionária. Ela estava esperando o secretário, que a levou pra almoçar, mas disse que ele devia estar na secretaria, longe dali. Eles almoçaram, inclusive, na mesma "comida caseira" onde nós comemos. Boa comida e preço baixo. Fomos depois até a delegacia, que estava realmente trancada - parece que as "falas públicas" se desacreditam por si, é preciso conferir.

Durante os acontecimentos, ficamos sabendo que o trator não é da prefeitura, mas do vice-prefeito. Está "emprestada" à prefeitura porque a máquina do município está quebrada. Que em Palmeiras não vigoram as leis sobre obras em rodovias - um tratorista sozinho operando numa estrada aberta, sem sinalização, sem funcionários, nada pra orientar os motoristas e os movimentos.

Com tudo o que penso dos poderes chamados "públicos", não espero muito. Na verdade, não espero nada além de engabelação, promessas mentirosas, adiamentos e omissão. Gostaria de estar errado, mas seria preciso pessoas de bom caráter, senso de justiça, que assumissem a responsabilidade pelos erros cometidos que me deram um prejuízo grande, pro meu padrão econômico. E isso, na máquina do Estado, é coisa rara. Sobretudo nos postos de mando. Como não sou ninguém importante (leia-se influente ou cheio da grana), sei bem o trato que me espera. Mais uma vez, espero estar errado. Se estiver e me pagarem o prejuízo, volto aqui pra contar.

Amanhã vamos a Seabra - depois de registrar a ocorrência pela manhã, conforme nos disse o policial. Vamos gastar o que não podemos no conserto, lanternagem e parabrisa. Na volta, procuramos o secretário da infra-estrutura de Palmeiras, João Batista, pra ver o que acontece. Aguardemos.

O agressor e a agredida.
Foi uma cena e tanto ver a escavadeira rompendo o vidro e quase entrando.
A ressaca da porrada é sempre triste. Mas considerar que ninguém se machucou, além da kombi, já alivia. Celestina resiste.


Uma grande covardia...


Meio metro de arrasto, com o pé no freio pra não atingir o de trás. Não atingiu.
A publicidade do poder "público" e um efeito da sua ação. Tá certo que um é estadual, outro é municipal, mas no fim é tudo a mesma coisa, posam de públicos mas defendem interesses privados como prioridade. É o modelo da nossa sociedade.

sábado, 25 de agosto de 2018

Delicadamente expulsos de Igatu, Bahia





O movimento pinta quadros mutantes pelos caminhos.

Saímos de Vitória da Conquista pelas duas da tarde, refizemos o trajeto de vinda, pelas estradas no sul da Chapada Diamantina. O destino era o povoado de Igatu, no município de Andaraí, onde haveria um festival de música. Anoiteceu pelo caminho, durante o fim do dia entramos na estrada pra Mucugê e vimos a placa quebrada que, na vinda, nos fez errar o caminho. Passamos pelo cemitério bizantino, fechado mas iluminado, seguimos até a entrada do povoado, onde pegamos a estrada de terra por alguns quilômetros, até começarem as pedras, pelo jeito colocadas há séculos, irregulares de obrigar à velocidade de caminhada. Chegando em Igatu, havia uma barreira com guardas que não deixaram a gente passar. Paramos numa área aberta pra ser um estacionamento e fomos a pé coisa de meio quilômetro. Era quinta-feira, estava começando o evento, já com palco e músicos locais (da Chapada). Encontramos alguns conhecidos, tomei umas brejas poucas e voltamos pra dormir no estacionamento. Era madrugada e a guarda permanecia. Quando amanhecia acordei e eles não estavam mais, pudemos então entrar em Igatu, impressionante, tudo de pedra e na pedra. Fomos até a área dos cemitérios, havia espaço bastante e plano, coisa rara no lugar. Deixamos lá a kombi, depois de descarregar os painéis e a banca na praça.

Estávamos lá expondo, já com algumas poucas vendas, quando chegou a guarda municipal, dizendo que não podia expor ali, tinha que ser no "mercado", um espaço restrito onde se aglomeravam os artesãos e os artistas com suas coisas. Uma clara segregação, não havia espaço pra todos, nem apelo pras pessoas entrarem. Tentei argumentar, mas parecia guarda de cidade grande, não tinha diálogo, só a "determinação superior", uma lei municipal qualquer que dava no mesmo resultado de sempre: "não pode". Resolvemos ir embora, já tenho tempo suficiente de rua pra não aceitar esses esculachos das convenções com as pessoas não convencionais, uma repressão disfarçada de "regulamento". Igatu ficou pra trás e nós fomos adiante. Ainda era dia e a estrada estava linda. A "festa" continuou sem nós. As burocracias revelam a ignorância artística do sistema. Mais que a ignorância, a repressão aos que não estão de acordo com o sistema social, demonstração de pequeneza cultural. Uma pena, num lugar tão bonito, com uma história tão forte, um povoado que já teve vinte mil pessoas buscando pedras preciosas, cheio de ruínas de casas construídas nas pedras, por cima e por baixo.   

As "otoridades" locais, se tivessem alguma sensibilidade, deveriam se envergonhar da repressão aos artistas - que negarão, obviamente, alegando que "até" destinaram aquele galpão pras exposições dos visitantes. O tal galpão estava lotado, os artesãos e artistas se apertavam, era inviável colocar seis painéis de desenhos e mais uma mesa com fanzines, ímãs, pequenos desenhos, camisas e livros. Na verdade, é apenas uma forma de tirar os artistas das ruas, da praças, onde se colocariam em harmonia e sem atrapalhar ninguém, se os institucionais não se metessem. Uma segregação hipócrita, como hipócrita é todo o poder dito "público", que prioriza os interesses empresariais, o patrimônio, o lucro, muito acima dos direitos da população, acima da vida, do equilíbrio da natureza, de tudo. O que houve em Igatu (e que acontece cotidianamente, em qualquer lugar) é um reflexo do modelo social em que vivemos, o predomínio de uma mentalidade superficial, embrutecida, que não percebe os valores da parte sutil, da alma, nem a necessidade desse desenvolvimento.

Essa placa nos fez errar 40 km. Tivemos que voltar, no todo foram 80. Sem crise, dirigir à noite em estrada deserta é ótimo. Ainda mais em noite de lua cheia.


Depois de Anagé, o trevo da estrada pra Mucugê e Igatu. A placa está à esquerda. Quer dizer, o que restou dela.
                                                                     

O fim do dia, de dentro da Celestina.
                                           
A casa de pedras debaixo da pedra.

Há muitas casas nas pedras e das pedras em Igatu.


Os gentis rapazes da guarda, implacáveis no cumprimento das ordens anti-artísticas do município de Andaraí.

"Perdoai, pois eles não sabem o que fazem..." Quem sabe é quem dá as ordens mas não dá as caras.
O caminho pra Andaraí é assim por uns dez quilômetros, pedras irregulares.

Apertos aqui e ali são comuns.


O rio exibe suas areias, pouca água.


domingo, 19 de agosto de 2018

Três textículos - não necessariamente ligados

Fora da sintonia trabalhista
Quando entrava nos dezenove anos, despedi meu último patrão. De uma forma bem fácil, simplesmente dizendo a ele pra falar baixo comigo. Me despediu na hora, mas não falou nada, só soube no fim do dia, quando o barco atracou - eu era mergulhador. Pagou tudo e mais ainda, pra não me ver nunca mais. Era angolano, o cara, empresário lá e cá. Passei dois meses trabalhando sem ele aparecer na empresa. Em uma semana da sua presença, despedi ele. E resolvi que nunca mais teria patrão na vida. Aliás, nem patrão, nem empregado, nem chefe, nem chefiado, nem superior, nem subordinado. Não me dou bem com essas coisas. Eu não sabia como seria. Descobri vivendo.

                                                                     ************

Nem solução, nem saída. O que tem é a lida.
Andam me perguntando por "solução", por "saída", já que os caminhos da institucionalidade me parecem minados, controlados, dominados pelos verdadeiros poderes, os econômicos. Não gosto de recomendar comportamentos. Já respondi "bota na água e mexe, se dissolver aí tem uma solução". E também que "a única saída é a morte", mesmo sem saber se é isso mesmo, talvez morramos e não saiamos, veremos depois da passagem por esse portal. Não preciso saber de verdades pra perceber as mentiras. E se não sei, não quer dizer que vou me deixar enganar, quando as evidências estão esfregadas na minha cara. Gente largada como lixo, ignorância, analfabetismo, fome, miséria, tudo muito fácil de resolver pra uma sociedade humana de verdade. Só que esta estrutura social é desumana, por ser empresarista, uma ditadura banqueiro-mega-empresarial exercida através do aparato estatal tendo como porta-voz a mídia. Desde que "derrubaram" a monarquia.

                                                                       ************

Mentira e distorção como matéria-prima da publicidade
A publicidade no rádio diz: "A Petrobrás mudou... e está seguindo em frente." É verdade, o asqueiroso presidente nomeou um cara que nunca foi funcionário pra presidência da estatal (a constituição proibia isso, mas uma "emenda" safada pôs uma vírgula e abriu, "a não ser por determinação do presidente da república") e ele tratou de mudar mesmo, amputando distribuição, paralisando refinarias que cobriam todo o consumo interno de derivados (gasolina, diesel, querosene, ... - o que obrigou à importação destes produtos), despedaçando a melhor petroleira do mundo (nenhuma outra possuía condições de buscar o petróleo de alta qualidade do pré-sal). Um projeto de lei do senador Serra praticamente doou o petróleo (cru) pras transnacionais do petróleo, Temer "perdoou" mais de um trilhão em impostos devidos por essas mesmas petroleiras. Enquanto isso, acabam-se com aposentadorias, direitos trabalhistas, ataca-se ferozmente a educação e o acesso da população como um todo a ela, destróem-se e cortam-se programas sociais que diminuíam o sofrimento de parte das vítimas permanentes dos crimes sociais cometidos pelo Estado, numa rotina macabra. Enquanto isso, a mídia faz a mão do mágico, que engana o público no ilusionismo de sempre. A Petrobrás "mudou" mesmo. Amputada, esquartejada, infiltrada, sacaneada, diminuída. E "indo em frente", na direção dos interesses estrangeiros inconformados com uma empresa estatal tão formidavelmente superior às suas petroleiras internacionais criminosas. Que o digam os países produtores de petróleo.









sábado, 4 de agosto de 2018

Embriões da nova sociedade

Fukushima despeja radioatividade no oceano Pacífico há oito anos. O rio Doce despeja metais pesados no oceano Atlântico há quase três. A população dos mais de oitocentos quilômetros do vale do rio Doce está exposta aos metais pesados e tem câncer, muitos. As mineradoras destróem vales e mananciais, distribuem resíduos químicos mortais em todo lugar em que se instalam, poderes públicos calados (ou mentindo) e cúmplices, pelo colossal poder econômico e pelas estratégias de infiltração e domínio das mega-mineradoras. O agronegócio, grandes espaços de território onde se cultivam transgênicos de todo tipo, seca pra irrigação ou empesteia com fertilizantes e venenos agrícolas nascentes, rios, lagoas, lençóis subterrâneos. Envenena a terra, os bichos, comunidades pobres, aldeias indígenas, populações ribeirinhas. A natureza é morta, cotidianamente, e com ela a vida. Os aquíferos foram vendidos a empresas internacionais que sugam o máximo da água pra exportação, na ânsia de lucro. As águas secam nas periferias de muitas grandes cidades e também de cidades médias e pequenas, as doenças se espalham, todo mundo toma remédio, o atendimento médico falta às multidões, o alimento industrial adoece.

Na África, na América Latina, onde a miséria obriga a migração de milhões, e nos países em guerra por conta do petróleo, onde é a violência e a destruição o que empurra outros milhões, se forja a mistura, a miscigenação da raça humana do futuro. A ameaça das bombas atômicas paira sobre o hemisfério norte, onde estão concentradas as bombas e os poderes mundiais, as ameaças e as maiores guerras em curso. Na África, as guerras são mais explícitas entre as mega-empresas ocidentais e os povos locais, os interesses não se disfarçam em nada. Em nossa latinoamérica, a hipocrisia domina os poderes públicos, debaixo do mercado financeiro, dos grandes bancos mundiais e das mega-transnacionais do petróleo, da mineração e outros interesses empresariais. A miséria e a pobreza, a ignorância e a desinformação são impostas às multidões. O egoísmo e o consumismo são implantados nas classes médias, como cabresto pra administração da sociedade em troca de direitos e até alguns privilégios. A conivência e a cumplicidade com os crimes sociais são exigidas, a perversidade com as vítimas desses crimes é premiada.

Nas áreas de exclusão e extrema exploração, em meio ao abandono, surgem focos ainda embrionários de uma nova sociedade, uma nova mentalidade, novas formas de se relacionar, novos valores pra se viver. Isolados, em meio à escuridão de consciência, são visíveis a olhos atentos. Dispersos, sem nenhuma articulação, sem saberem uns dos outros, estão nascendo autonomias psicológicas, comportamentais, artísticas, "loucas" em seus locais periféricos, mas sem perseguição, sem agressividade, apenas uma respeitosa e gozadora estranheza. Uma das leis comuns às periferias é que se pode ser qualquer coisa, seja o que for, desde que não incomode nem prejudique ninguém. Não quero dizer que nestas tantas áreas não exista discriminação e preconceito - isso é característica da sociedade como um todo, uma indução social permanente pelo aparato midiático e seu massacre ideológico-publicitário e, por isso mesmo, existe em qualquer meio. Mas a lei do respeito é uma lei implícita que vigora nas relações periféricas, quem anda por aí sabe do que tô falando. Essas exceções mentais não são hostilizadas, ao contrário, são olhadas, na maior parte das vezes, com curiosidade. E é bom que seja assim. É uma autonomia que passa pela dispensa de consideração social. A percepção de que tudo o que a sociedade tem a oferecer aos periféricos é precariedade, maus serviços, exploração, desprezo, agressividade, repressão e ausência faz com que se perca a consideração pela administração pública, pelos valores sociais, pela sociedade organizada, porque organizada de cima sobre o esmagamento dos de baixo. Isso faz com que a consideração social perca o valor. E se ganhe autonomia psicológica, auto-estima como resistência, capacidade de superação. Em várias comunidades em muitos lugares diferentes estão surgindo sinais de autonomia, seja em hortas comunitárias, cooperativas artísticas, plantas medicinais, rádios comunitárias, jornalismo independente - busca e distribuição de informações além mídia -, enfim, pequenos, às vezes pequeníssimos grupos, aparentemente isolados, começam o esboço da sociedade que surgirá dos escombros desta que caminha pro seu próprio colapso. Exatamente onde devia ser, nas periferias, nos espaços abandonados pela sociedade, de onde se retira a "mão de obra barata" que põe tudo pra funcionar.

Afinal, pra construir uma nova sociedade mais humana, ninguém melhor do que os que carregam o mundo nas costas, que lutam com dificuldades todo o tempo, roubados nos seus direitos, que aprendem a solidariedade como ferramenta de sobrevivência. Na longa agonia de morte desta sociedade desumana, surgem os embriões do que nascerá na solidariedade da reconstrução. Um processo, digamos assim, "geracional" - de geração em geração, cada uma na parte que lhe cabe e focalizada na formação das futuras, exemplificando em primeiro lugar. É o que estou vendo nos embriões de consciência nas periferias. Ainda embriões - sendo gestados em barrigas periféricas. Criando novas formas de se relacionar, entre si e com o mundo, afetivamente, de igual pra igual, com respeito, profundidade e disposição ao entendimento, construindo e priorizando a harmonia coletiva, pouco a pouco eliminando as condições de existência do egoísmo, da competitividade, dos condicionamentos profundamente enraizados no inconsciente das populações por tantas gerações. Exceções ainda, invisíveis ao sistema social como invisibilizadas são as periferias e favelas - e é bom que seja assim pra que se desenvolvam - mas são essas exceções os embriões da nova sociedade, que têm a função e o poder de contaminar e se alastrar pra brotar dos escombros da velha estrutura social que, depois dos muitos e inconformados espasmos, estará inapelavelmente morta.







Todas as fotos de Maria Clara, em São Mateus, zona leste de São Paulo, 2017.

domingo, 8 de julho de 2018

A perversidade travestida de política

A privatização como perversidade. Como um processo estratégico de dominação mundial pela economia, pelos poucos donos do mercado, de todas as áreas por extensão, até mesmo na formação de mentalidades favoráveis a este sistema social anti-humano, anti-mundo, criador e estimulador do inferno na terra, competitividade, consumo excessivo, conflitos, destruições até o genocídio.
Mais uma pérola cinematográfica de Sílvio Tendler, em informações e responsabilidade social, um artista que cumpre sua função, que põe sua sensibilidade na lapidação social, no acendimento de luzes tão necessário nesta realidade trevosa. Estamos aprendendo a ver como a estrutura social funciona, em gerações contemporâneas, como somos impregnados de consentimento, pela sujeição da administração pública aos poucos podres de ricos internacionais com as elites locais, através do modelo de ensino empresarial e, sobretudo, da mídia também empresarial.
O ensino empresarista é competitivo, formador de peças pro mercado de trabalho e não de seres humanos pra compor uma sociedade harmônica, sem abandono, onde todos tenham seus direitos constitucionais, humanos e sociais respeitados por inteiro. Não se encontram escolas que eduquem no sentido da harmonia, da paz de espírito, da verdadeira realização pessoal, social e humana. E isso é interesse de toda a sociedade, ainda que não se pense nisso, ainda que a inconsciência prevaleça.
E a mídia, implantada e enraizada na "cultura nacional" de 1964 até 69, quando virou "rede nacional", exatamente por estar na cabeça do apoio ao golpe militar, exerce o massacre publicitário-ideológico permanente em defesa de interesses empresariais, criando mundos de fantasia, usando psicologia do inconsciente, distorcendo notícias, criando mentalidades que apóiem ideologia do consumo, da competição, do punitivismo, da sabotagem em todo investimento na própria população e nos seus direitos constitucionais.
Não posso deixar de falar de uma meia-discordância no final do filme. "O momento é agora" é um jargão antigo que prepara a desilusão pra depois, muitas vezes até o desânimo. Todos os momentos são agora, o conjunto de todos os agoras forma a eternidade. Prefiro ir espalhando o que tá escondido, falando o que tô vendo, como por toda minha vida, desde os dezenove anos, refletindo, causando reflexão, aprendendo com as práticas cotidianas. Escolher os próprios caminhos, desentranhar condicionamentos, chacoalhar os valores pra ver quais são implantados e quais podem ser verdadeiros, junto com desejos, com objetivos de vida, no que me traz paz ou me inferniza e, a partir disso, fazer escolhas, tomar decisões e levar à prática cotidiana. A história caminha com passo próprio, é preciso medir o passo com ela - sabendo que ela também pode dar seus pulos. Vigiemos.

O libreflix.org tem bons filmes e é de graça.


https://libreflix.org/assistir/privatizacoes-a-distopia-do-capital

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Candidatos, ora candidatos...


Somos uma nação entre nações, formando uma família planetária. Chegaremos a saber, um dia, sermos parte de uma incalculável família universal. Caminhamos ao longo dos milênios e os acontecimentos se sucedem sem interrupção, nas idas e vindas em busca de harmonia coletiva, cada um em sua própria individualidade, no exercício cotidiano do convívio coletivo. No atual modelo social, não temos o ser humano como o centro de importância, mas sim  interesses econômicos que sacrificam vidas, coletividades inteiras, que criam divisões e conflitos, dominam as comunicações e semeiam discórdias lucrativas. Superficializam ao máximo as mentalidades, induzem valores falsos e comportamentos condicionados, sempre competitivos, intolerantes, conflituosos, divididos por superioridades e inferioridades falsas. Os poderes de verdade estão muito acima de quaisquer candidatos, todos colocáveis ou derrubáveis de acordo com seus interesses. E estão enraizados em nossas mentes e nossos corações, através de uma educação com índole empresarista - desumanista -, um massacre publicitário permanente, uma formação cultural induzidamente superficial, voltada mais ao consumo que ao desenvolvimento da alma, da sensibilidade, da harmonia coletiva, e muito, muito medo, paralisante e conformador a caminhos afinal frustrantes. Cabe a cada um e a todo mundo desenvolver sua própria percepção da realidade, a própria consciência das coisas, desacorrentando, mesmo que pouco a pouco, a própria mente dos condicionamentos inevitáveis que estão postos nos próprios caminhos da estrutura social.

Já fui chamado, ironicamente, de "defensor de pobres". Claro, entre ricos pra quem vendia meus quadros a óleo. Os pobres não precisam de "defensores", mas de consciência da própria força, precisam ter seus direitos constitucionais, básicos, humanos, respeitados pela sociedade que os viola a todos. É interesse de todos, sem exceção de ninguém, a evolução de todos, sem exceção de ninguém, no caminho de harmonia social. A miséria, a ignorância, a desinformação, o abandono de seres humanos devem despertar a repulsa e a indignação de toda a sociedade. As academias devem se ocupar dessas prioridades, a extinção das condições miseráveis é prioridade planetária, ainda inconsciente, na escuridão da consciência humana. Condições pra isso, inegavelmente, há. Mas a manutenção dos privilégios exige a manutenção da miséria, da ignorância, da inconsciência.
As mentiras sociais vigentes ainda serão estudadas com espanto, no futuro, de como um punhado de pessoas emanava tamanhas perversidades por todo o planeta, controlando Estados e todas as instituições, manipulando as classes sociais. Pouco a pouco se percebe como a estrutura funciona, mudam-se hábitos, valores e comportamento, nos embriões de uma nova sociedade, enquanto a velha se encaminha pro colapso, visível e previsivelmente, entre embates e expectativas institucionais iludidas e repetitivas, cheias de idas e vindas manobradas pelos "poderes invisíveis", com o nosso consentimento inconsciente. É a "política" cênica, o teatro de marionetes simulando poderes que não têm.

Aí se situam os "candidatos" sobre quem me pedem opinião, quando só posso apontar qual o boneco mais engraçadinho, como acho que será o estilo de cada pretenso governante. Em alguns, como eu disse, é visível e previsível, nem precisa ser dito. Mas enfim, não basta melhorar a economia, os índices, o consumo... essa conversa fiada, repetitiva, dispersiva, esse jogo cênico das campanhas eleitorais. É preciso melhorar a sociedade, o ser humano, a convivência, os sentimentos, a vida em si, longe da ilusão dos excessos como necessidade, as superioridades como busca, o respeito de todos pra com todos, a existência sem destruição e envenenamento, tanto material como espiritual. E é exatamente pra impedir isto que estrutura social da atualidade está montada. A harmonização social é atacada com histeria por todas as forças que a concentração de poderes dispõe, desde a mídia com seus jornalistas, comentaristas e especialistas de consciência comprada, até as forças de segurança e informação controladas pelas marionetes políticas, com o apoio da área jurídico-carcerária. Tudo com a concordância das mentalidades condicionadas, superficializadas pela educação e conduzidas pela mídia empresarial. A prioridade "social" da atualidade não está no ser humano, no meio ambiente, em qualquer espécie de harmonia, mas sim nos interesses empresariais, no patrimônio, na forma acima do conteúdo. No entanto, ainda que sem consciência, somos conteúdo - envolvidos temporariamente na forma - e caminhamos através do espaço e do tempo, sem parar.

Este agora é o nosso ponto na mutação permanente em que existimos, estamos acendendo luzes na escuridão. Período de clareamento, esclarecimento, acendimento de luzes sobre os mecanismos de funcionamento da nossa sociedade, do nosso mundo, da nossa atualidade. O desenvolvimento da consciência é permanente, não há ponto de chegada. As atualidades se sucedem ininterruptamente.
No indivíduo, cada passo se completa com a manifestação prática das reflexões, seja em sentimentos, em visão, em pensamento, em valores, mas sobretudo nas escolhas, na prática cotidiana, nas formas de relacionamento, nas reações, no trato geral. Do individual pro coletivo assim como dos fios das raízes para a planta como um todo. Da reflexão à prática, da consciência às escolhas, e o mundo vai mudando, sem parar nunca, geração em geração, incontáveis nos milênios, nos milhões de anos. Temos algumas décadas de vida, raramente além de dez, frequentemente menos, e a sociedade nos adestra a uma vida sem sentido ou pior, cheia de sentidos falsos que nos levam à sensação de vazio na vida, a angústias profundas e aos anti-depressivos, às vezes desde a infância. Há cada vez mais resistência, dentro da coletiva conformação, se manifestando das mais variadas formas. Exceções que foram raras, se multiplicam, são cada vez mais numerosas, exceções ainda, mas com poder de "contaminação" incomparável, pela própria vibração pessoal entre os convencionais. O processo tem seu ritmo. As exceções têm a sua função coletiva. E isso não lhes dá nenhuma superioridade, ao contrário, é preciso exercer a responsabilidade com espírito de serviço, de fraternidade, de interesse no desenvolvimento geral, com respeito e afeto.

Saberes e sabedorias se completam. A estratégia de domínio estabelece superioridades imbecis. O saber, freqüentemente, é impregnado de arrogância, de sentimentos de superioridade, o que o esteriliza e acorrenta a interesses empresariais. A sabedoria nasce das vivências, da superação de dificuldades, da necessidade de harmonia em coletividades abandonadas pelo Estado, empilhadas, aglomeradas, desassistidas, roubadas em seus direitos sociais, humanos, constitucionais, em tudo. Os que têm o saber institucional, apesar do sentimento de superioridade induzido, dependem inteiramente dos injustiçados sociais. Na falta deles, não são capazes de nada. Por isso é preciso manter a ignorância, a desinformação, a alienação, a superficialidade mental, pra que os de baixo não percebam a sua importância na estrutura social. É uma divisão estratégica. Enquanto a chibata canta no lombo dos mais pobres, via segurança pública, a classe média é tratada com direitos, precários mas direitos, e mesmo privilégios salpicados à disputa classemediana, que se divide em camadas. Afinal, são quem administra a massa de baixa qualificação produzida pela farsa do ensino público, que semeia ignorância simulando "educar". São quem exerce o controle e as pressões sobre os sabotados, os executores das perversidades.  E esses direitos e privilégios têm seu alto preço, na consciência, nos sentimentos. É preciso coniver com a maldade do sistema social, se acumpliciar, ser perverso também, calar, cumprir ordens... Não é à toa o consumo colossal de anti-depressivos. Essa covardia existencial tem seu prazo marcado, em breve tenderá à extinção.

Nos tempos do cursinho e da universidade, sentia o engano dos ideais, alguma coisa errada no que me era apontado como objetivo, como vencer na vida, como realização pessoal. Os valores do mundo, da sociedade, da civilização nunca me convenceram, desde criança intuí alguma coisa fora do lugar, alguma coisa escondida, alguma coisa não revelada, inexplicável como a miséria. Minha posição social me era extremamante desconfortável, é engraçado hoje me dizerem que saí da minha zona de conforto. Pra mim, o conforto externo não é nada, perto do conforto interno, com a própria consciência, com os próprios sentimentos. Quero terminar minha vida com o prazer de ter vivido de acordo com minha consciência. A intuição me diz que estar bem com a consciência, trabalhando no seu desenvolvimento, é estar bem com a espiritualidade. Posso passar tranqüilo pela porta da morte.
O todo está além da minha capacidade e, acredito, da capacidade humana. Por enquanto, há muito caminho a caminhar. E caminhamos. Sem parar.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

O domínio interno é a base do externo


Constrangedora subalternidade cultural, psicológica, política, social, econômica, entre tantas subalternidades sovadas pelos colonizadores, na manutenção da submissão nacional aos interesses banqueiro-mega-empresariais. É de envergonhar tanto letreiro em inglês, tanta programação derivada da cultura do consumo, tantas "estátuas da liberdade" em frente a chópins (shoppings). Os exploradores europeus, a que se somaram os estadunidenses depois da segunda guerra mundial, pra estender sua dominação pra além das "independências" nacionais, criaram elites dirigentes em cada uma das suas colônias, de forma bem parecida. Geralmente brancas, com profundo desprezo pelo seu próprio povo e repulsiva admiração, idolatria e servilismo pelo colonizador, explorador e escravizador.
Em toda ação destinada a realizar verdadeiramente a independência e a soberania nacional, se vê o levante das elites, protestando até em inglês contra o investimento social, no desenvolvimento - com instrução, informação, com o atendimento dos direitos constitucionais - das populações. Cúmplices e usufruintes da escravidão não declarada, da ignorância, da desqualificação, da pobreza e da miséria do povo, que resulta em baixos salários e na extrema exploração do trabalho, as elites locais tremem de pavor e ódio diante dos coletivos mais conscientes e conscientizadores, criminalizando, atacando, difamando toda iniciativa de esclarecimento, de reivindicação, de união dos de baixo, o alicerce fundamental da sociedade como um todo.
Nessa atividade reacionária estão colocados os meios de comunicação (de forma inconstitucional inclusive) e as instituições do Estado, em todas as áreas. A saúde pública é sabotada por pressão de planos de saúde e da indústria da medicina lucrativa; o ensino público é sabotado pra manter a ignorância fundamental pra se facilitar a eficiência da mídia em formar a opinião pública de acordo com interesses empresariais; a mineração é uma sinistra caixa preta, saqueando permanentemente as riquezas da nação no escuro da desinformação; a indústria armamentista vende horrores, sem que se tome conhecimento; as forças de segurança são treinadas e preparadas ideológica e psicológicamente contra sua própria população, sem noção de cidadania, de história e da realidade, consciências distorcidas sob a pressão insuportável das "instruções" ideologicamente formadas (ou deformadas) em laboratórios de pensamento anti-social, anti-humano, a serviço de um punhado de podres de ricos, dominantes internacionais, fabricantes de guerras genocidas, destruidores de países inteiros - quando não se submetem aos seus interesses.
Não é por acaso que países produtores de petróleo estejam sempre na alça de mira do atual imperialismo euro-estadunidense (só um exemplo). Os países árabes são difamados, criminalizados e atacados quando não se ajoelham no altar das mega-petroleiras, enquanto os "aliados" são protegidos, mesmo sendo ditaduras sanguinárias de verdade, por massacrarem os movimentos nacionalistas que se opõem a essa colonização tardia. Ninguém fala na Arábia Saudita, um reino dinástico extremamente violento não só com seu próprio povo, mas também com países vizinhos que se atrevem a "pisar fora da risca".
Os "golpes de Estado" na América Latina estão todos dentro deste contexto, sejam institucionais ou não. As artimanhas das corporações - atualmente representadas pelos "países de primeiro mundo", os colonizadores continentais - não conhecem limites. A formação ideológica - através do modelo de educação e, sobretudo, pelo massacre midiático-publicitário - mostra seus resultados nas reações de classes médias e altas, furiosas, em pânico diante da possibilidade do desenvolvimento social verdadeiro, na formação de um povo instruído, solidário e consciente, que busca atingir a harmonia social, a erradicação da situação de lixo humano - que é prova mais que suficiente de que a vida vale menos que o patrimônio e os interesses mega-empresariais.
Acordar pra essa realidade acaba resultando na mudança de valores e comportamentos. As mudanças internas, íntimas, pessoais, são fundamentais pra se realizarem verdadeiras mudanças sociais. Se não se faz a revolução interna, qualquer revolução social é ilusória. E aí voltamos aos sinais de subalternização em cada um. Admirar a "evolução social" dos países do "primeiro mundo", não por acaso os maiores escravizadores, invasores, saqueadores do planeta, é subalternidade mental. Admirar pessoas formadas em Sourbone, em Harvard, em Oxford, quando na verdade elas deveriam ser suspeitas de desprezar seu próprio povo e tender ao favorecimento dos algozes euro-estadunidenses, é subalternidade mental. Ter orgulho em ostentar marcas caras - sempre escravizando trabalhadores nos países menos desenvolvidos em leis trabalhistas - é subalternização publicitário-midiática. São as marcas do inimigo e deve ser uma vergonha ostentá-las, pra quem tem um mínimo de consciência social. É constrangedor o sentimento de inferioridade diante do márquetim imperial estrangeiro, que planta no inconsciente coletivo essa falsa incapacidade, essa inferioridade construída pra manter o domínio sobre os povos e, sobretudo, as riquezas das nações.
É tempo de enxergamento, de acendimento de luzes. Mas que ninguém se engane. O processo leva gerações e quem esperar ver um mundo justo e equilibrado e alguns anos, vai se frustrar, desistir, amargar o sentimento de impotência e desqualificar os mais novos que pensam em "lutar" por mudanças de verdade. É preciso se dar conta que cada um de nós nasce num processo milenar e participa, por algumas dezenas de anos, dessa marcha permanente, desse caminhar mutante através dos tempos do planeta como um todo. Ter satisfação em estar vivo, em trabalhar no que se gosta, em determinar os próprios valores e comportamentos - e não adotar os valores falsos impregnados no inconsciente coletivo - é a atitude mais revolucionária no momento histórico, o embrião de um outro modelo de sociedade, mais humana, menos perversa, menos injusta e mais solidária.

terça-feira, 15 de maio de 2018

Vida, serviço e satisfação


Há gerações de serviço pra trás, milênios a perder de vista. Há gerações de serviço pela frente... tamo no proveito do serviço passado e preparando o terreno pro serviço que vem. Quem quiser ver algum resultado final, vai desistir pelo meio do caminho. Não tem final. Ou tem, mas são finais provisórios, sinais de novos inícios. Participar da construção, consciente da sua ínfima participação, dá sentido à vida. Criar expectativas é o passaporte pra frustração. Antes de "fazer a sua parte", é preciso perceber qual é a sua parte. Somos insignificantes no todo, mas somos tudo o que temos.

Querer fazer o que não se pode é frustração certa. Deixar de fazer o que se pode é um desperdício, de tempo, de vida, de oportunidades. Discernimento é o canal, o desenvolvimento pessoal necessário. Participamos de um processo de mutação permanente e universal que já vem de não se sabe quando, bilhões, trilhões de anos. O que são 50, 70, 90 anos nessa eternidade, nesse passar contínuo do tempo? Nascemos, vivemos a infância, a juventude, amadurecemos, envelhecemos e morremos, assim é o ciclo. As pressões se fazem fortes pra que escolhamos como programado, vivamos vidas vazias e frustrantes, lutando e disputando o que não tem valor verdadeiro, o que se dissipa e perde o sentido com o tempo. De tal forma que a maioria só percebe a merda de vida que viveu na iminência da morte, quando a vida anuncia seu final e se percebe o vazio dos valores que exercemos no caminho. Evitar isso é fundamental. Qualquer coisa, menos isso. Mas aí é preciso encarar o mundo.

Ao que parece, escolher desenvolver e seguir a própria consciência, as próprias tendências e vocações, procurar o que se gosta pra viver, não é bem visto ou bem aceito na esmagadora maioria das vezes. É preciso estar pronto pra estranheza, pra desconfiança, pro preconceito. É um mundo mau caráter, que estimula e cobra o mau caráter, a conivência, a indiferença com a injustiça, a omissão. Não existem à toa a miséria, a ignorância e o abandono pela sociedade de grande parcela das pessoas. Uma sociedade planetária que cria e mantém milhões, bilhões de pessoas em situação de lixo, com todas as condições materiais de desenvolvimento social e humano, não merece meu respeito nem pode me impor o que devo escolher na minha vida. Não tem moral pra me criar valores ou me cobrar comportamentos. Só a profunda lavagem cerebral permanente feita pela mídia, pelo massacre publicitário, pela superficialização de pensamentos e sentimentos, em campo aberto pelo ensino empresarista e anti-social que forma competidores alucinados em vez de pessoas equilibradas pra integrarem a busca - que seja - de uma sociedade menos desarmônica, só essa lavagem cerebral pode criar aceitação pra aberração social em que vivemos.

Um ensino humanista - e público, tão amplo que abranja todos -, que estude as causas dos problemas em profundidade, que aponte a direção de uma sociedade harmonizada, sem miséria, ignorância e abandono, com investimento verdadeiro no desenvolvimento do ser humano e sua coletividade como um todo, no desenvolvimento de um sentimento solidário de família humana, é considerado um ensino subversivo, criminalizado, difamado e perseguido. Um ensino que revele como foi construída esta sociedade e a sua história, que aprofunde os fatos e suas causas, que procure as raízes de todas as coisas, que trate o conhecimento como direito, é o terror dos dominantes da atualidade. A formação de cidadãos conscientes da realidade, em condições de pensar, analisar e escolher os seus caminhos, naturalmente desfaria toda a estrutura atual da sociedade, construindo outra muito diferente. Onde o ser humano, a vida, o equilíbrio ambiental e a harmonia social estejam em primeiro plano, não o poder econômico, a propriedade, o lucro, os interesses mega-empresarias de muito poucos, que desprezam tudo o que está no caminho das suas ambições. E que mantêm o poder público seqüestrado e a seu serviço.

Estes poucos podres de ricos, miseráveis de espírito, produtores mundiais de sofrimento, estiveram por muito tempo na escuridão completa. Mas os ciclos se sucedem e pequenas luzes aparecem, iluminando precariamente a escuridão, dando os vislumbres dos mecanismos que movem a realidade que nos cerca. É tempo de acendimento de luzes, cada vez mais gerais. Muitos acreditam que estão vendo uma degradação geral, um retrocesso abissal, que regredimos como sociedade. Mas não, a visão é que está se apliando, está se vendo o que sempre existiu e até pior, mas não se via. As mentiras, as escabrosas armações por trás dos poderes constituídos estão se escancarando, pouco a pouco. Há muitas gerações nesse trabalho. Pra trás e pra frente.

São milênios de história, de mutação, de experiências, de modelos de sociedade, de evolução humana neste planeta. Nascemos num processo de mutação e participamos dele. A questão é como participamos, em geral de forma programada, com valores induzidos, como desejos, objetivos de vida, gostos, comportamentos, visão de mundo, tudo fabricado, estratégico, mentalidades produzidas no atacado. Perceber isso, na minha opinião, é um dos trabalhos em foco neste momento da história. A pulverização das comunicações é um foco importante e será ainda por várias gerações, é preciso se comunicar, trocar informações, buscar raízes nos fatos, nos acontecimentos, desenvolver a capacidade de percepção e o discernimento. Escolher como participar, de vontade própria, já é uma satisfação na vida. É preciso perceber os próprios condicionamentos e ver que o descondicionamento é um trabalho profundo e sem final... são muitos, entre primários, secundários, sutis e profundos.

No pequeno tempo que temos, algumas décadas, se tanto, fazemos muito se conseguimos pensar por conta própria e escolher com critérios próprios. No meu caso, aos dezenove anos tive um pavor imenso de chegar ao fim da vida sem ter sentido nenhum, com a sensação de ter vivido uma vida vazia. Em todas as possibilidades que a sociedade me apresentava, só via frustração, vazio e falta de sentido, parecia tudo ilusão. Então saí atrás de sentido, tomando várias atitudes, e a vida ganhou sentido com todas as mudanças que rolaram, embora então eu só me encantasse com as novidades e, mesmo sem perceber o quanto estava aprendendo, tudo já ficou muito mais interessante. Eu pensava que morreria logo, diante dos riscos a que me expunha e dos acontecimentos à minha volta. Achava que não passaria dos trinta, mas ainda estou vivo. Vivito y coleando por aí, com meus fazimentos. E com a única pretensão de gostar de estar vivo, que foi o que consegui. Com todas as dificuldades, gosto muito da minha vida. Até que termine. Na consciência de que a vida é uma passagem, na certeza intuitiva e íntima de que não acaba com a morte, quero comemorar minha vida vivida nesta passagem, quando passar pra outra dimensão. Não lamentar, embora sempre haja algo pra se lamentar. Que seja pouco.

A espiritualidade é um estado de consciência, nada mais. Que se reflete na conduta, no caráter, nos sentimentos, no temperamento, na própria vida e suas relações.

sábado, 12 de maio de 2018

Exército treina policiais pro genocídio popular


O fiasco da tal "intervenção" continua sendo escamoteado pela mídia e pelas instituições. Em seu lugar, a fantasia. "Forças de segurança prendem 153 em festa de milícia", na zona norte da cidade. A maioria não tinha nada com milícia, pagou ingresso pra entrar e estava só se divertindo. O movimento dos familiares e as denúncias nas redes sociais se impuseram, em parte, e até ontem a "justiça" havia mandado soltar 138, que tinham provas da sua inocência e familiares ativos em manifestações. Quantos não tinham familiares pressionando, quantos não têm "provas" de inocência? A injustiça contra os pobres é institucional. E a ação, puramente cênica, causa efeito na mídia. Cara de pau deslavada.

Anunciam pelos jornais que o exército vai treinar policiais. Pra alguns, isso seria "a solução", mentalidade superficializada pelo massacre midiático, especializado em convencer de mentiras. O exército treina combatentes que têm como objetivo a eliminação do inimigo ou sua incapacitação completa. É a demonstração de que o Estado, com essas "autoridades constituídas", não tem interesse nenhum na paz social, mas sim na guerra total. As tais "autoridades" são reles marionetes enfeitadas e cheias de pose, controladas dos bastidores da farsa política pelos "donos" do poder, dinastias de podres de ricos acostumados a fazer dos "governos" seus servidores, sempre em prejuízo do todo, da população em geral, em favor dos seus interesses egoístas, perversos e anti-sociais. Protegidos em suas bolhas de segurança, de riquezas e privilégios, circulando não pelas ruas, mas em helicópteros e jatinhos, dominam as instituições ditas "públicas" de acordo com seus interesses, que atropelam interesses coletivos, indiferentes ao sofrimento causado a milhões, à miséria e ao abandono das periferias, áreas de abandono social.

Está declarado e em execução intensiva o genocídio nas favelas e periferias. A própria estrutura da sociedade cria o campo da criminalidade, descumprindo sua constituição em tudo o que diz respeito à maioria do povo. E, ao invés de eliminar suas causas, cria a idéia mentirosa de "combate ao crime". As vítimas "colaterais", trabalhadores pobres, periféricos e favelados, não têm importância social suficiente, nem instrução, informação e consciência pra impor as soluções óbvias da criminalidade epidêmica. São mentirosos os governos, são mentirosas as empresas de comunicação. Mas é verdadeira a guerra civil em que vivemos.

Os gastos com deslocamento de tropas, com armamentos e munições, com caminhões e tanques, helicópteros e caveirões são colossais. Bilhões e bilhões são gastos nessa "guerra", sem nenhum resultado positivo, sem acabar nem diminuir a criminalidade. Ao contrário, quanto mais brutais são as ações do Estado, mais brutais se tornam os crimes, quanto mais se mata "bandidos", mais os bandidos matam sem hesitar. Com a vida em alto risco, não consideram a vida de ninguém. Com esses recursos aplicados no simples cumprimento da sua constituição, em seus artigos sobre os direitos da população e de todo brasileiro, a criminalidade cairia vertiginosamente. Quem vai arriscar a vida pegando em armas, se há condições de se desenvolver, se as necessidades básicas estão atendidas e a sociedade centraliza seus esforços na resolução dos primitivismos sociais? A mão de obra do crime não seria tão farta como agora, quando a miséria campeia, o desabrigo é visível em todas as cidades e a exclusão é perseguida, desprezada e reprimida. O crime organizado surge como uma espécie de vingança social que dá acesso ao que a publicidade massacrante impõe.

Se as populações das periferias fossem atendidas em seus direitos, isso sim seria um fator de diminuição da criminalidade. Escolas bem estruturadas, com professores bem preparados e bem pagos, com um modelo de ensino voltado à harmonia social e não puramente para o mercado de trabalho, com ensino de qualidade e recursos didáticos e formadores de senso crítico e consciência social; saneamento básico e condições de vida digna e cidadã, transporte público sem a tortura imposta pelos empresários do transporte; comunicações honestas, sem o domínio empresarial que distorce as informações e falseia a realidade, produzindo com seu massacre ideológico-publicitário valores falsos, conflitos de ego, necessidades artificiais e consumo compulsivo como finalidade da vida. Aí sim, se estaria trabalhando a causa, a fonte da criminalidade, a ausência de perspectiva e de possibilidades de melhor qualidade de vida, que levam milhares e milhares de adolescente desatendidos a ansiarem por uma vaga no crime organizado - organização que parte das elites, onde estão os empresários bandidos cujos "funcionários" morrem como moscas e são facilmente substituídos, sem nenhum encargo trabalhista, vivendo e morrendo por conta própria e sem se darem conta de ao quê estão servindo. O tráfico e os demais crimes organizados têm uma infinita fonte de reserva de trabalhadores. A miséria, a ignorância e a ânsia de consumo e de ostentação que os publicitários fazem crer - usando psicologia do inconsciente e todos os recursos de indução - que é a "valorização" social.

Falam em repressão e encarceramento, uma estupidez, e o investimento na formação de um povo instruído, informado e consciente é ostensivamente sabotado. Cadeias são escolas superiores do crime, da perversidade, instrumentos de vingança da classe média, vítima primeira das ações criminosas mas inconscientes das causas verdadeiras, conduzidas pela hipnose midiática ao ódio vingativo que, ao invés de resolver, agrava a situação.

Vamos à constituição. Ali está escrito que cada brasileiro tem o direito, garantido pelo Estado, à boa alimentação, à moradia digna e sã, ao ensino de qualidade, à informação honesta, ao atendimento médico que for necessário, ao desenvolvimento humano e profissional, entre outros. E o Estado não cumpre nenhum desses artigos. Seqüestrado pelos poderes econômicos, pelos mais ricos do mercado financeiro, pelos banqueiros e mega-empresários, o "poder público" é impedido de cumprir a sua constituição, a "carta magna", a "lei maior" - permanentemente violada pelo Estado e deformada pelos legislativos comprados, exercidos pelos poucos ricos em prejuízo da totalidade.

Os bolsões de miséria, pobreza, ignorância e exclusão, estimulados pelo massacre ideológico, midiático e publicitário, fornecem inesgotável fonte de "funcionários" às empresas dos crimes organizados. A idéia de combater o crime com "guerra", com operações de combate, na base do armamento pesado e sempre nas periferias, seria estúpida se não fosse mal intencionada. Ao mesmo tempo em que estabelece um controle populacional com o extermínio de pobres, cria pavor nas classes médias que possuem voz social, pra que apóiem com sua "opinião pública" induzida pela mídia o incremento e o investimento nas forças de "segurança pública". Que, pelo que se vê, não tem nem de longe o objetivo de criar paz social, ao contrário, são elementos do caos, ingênuos ou perversos mas, de toda forma, utilizados pelos criminosos do verdadeiro poder.

Na idéia desumana de explorar o trabalho e a inconsciência, está a eliminação dos excessos, porque "pobre reproduz demais e isso pode ser perigoso", como ouvi de um podre de rico que não vê gente nas periferias, mas sim estatísticas, uma sub-gente merecedora das condições em que é mantida pela estrutura empresarista da sociedade. Uma certa quantidade de miséria é necessária pra pressionar os trabalhadores a aceitarem qualquer condição de trabalho, mas é preciso manter essa miséria sob controle, monitorada pra não se perder o controle.

São esses seres desumano que controlam toda a estrutura social, dos bastidores. Seu porta-voz é a mídia privada, conduzindo com mentiras, distorções, difamações e campanhas massivas a opinião pública que, planejadamente sem condições de pensar criticamente, acaba apoiando decisões e ações contra a população, em benefício dos seus algozes, dos criminosos engravatados e institucionalizados, dos reais donos do sistema social. Como bem dizia Eduardo Galeano, a criminalidade do poder é a mãe de todas as criminalidades. Não é de se estranhar que a sociedade seja constituída por máfias, desde as altas - banqueiros, mega-empresários, grandes fazendeiros - até as baixas - flanelinhas, taxistas, camelôs -, passando por todos os níveis, comerciantes, transportadores, distribuidores, etc, etc. Sem ser mafiosa, uma empresa não entra numa licitação sequer. É a natureza do sistema em que vivemos, que de humano só tem o nome, pois existe em torno dos interesses de um punhado que chafurda em riquezas, privilégios e poderes acima dos poderes constituídos, chamados falsamente de públicos e totalmente subalternizados.

É isso que está se revelando na atualidade. As tais "delações premiadas", o jogo jurídico escandalosamente interesseiro, os cortes nos poucos direitos ainda concedidos à população, tudo isso não revela a "corrupção" de empresas com governos. Revela, isso sim, o funcionamento de um Estado que desde a sua criação é como um "robinhude" ao contrário, rouba dos pobres pra dar aos que menos precisam. Estão se revelando os mecanismos internos do funcionamento desta sociedade, nos bastidores dos seus cenários de poder público, que nunca foi público. A descoberta, a revelação do funcionamento, das relações ocultas entre os "poderes da república" e os poderes de verdade, mostra as causas tenebrosas da manutenção desta estrutura desumana e empresarista. Está em curso a percepção desta realidade, a quebra das ilusões institucionais, a tomada de consciência, é tempo de acendimento de luzes. O processo já vem há milênios e tem seu ritmo, que ninguém tenha a pretensão ingênua de o conduzir, mas sim de participar dele da forma que escolhermos, não como fomos induzidos a participar. Com valores próprios, não com os valores induzidos por uma educação tendenciosa e pelas falcatruas sedutoras da mídia. Com objetivos de vida além dos materiais, paz de espírito, solidariedade e união entre todos. Uma sociedade humanista, que tenha nas pessoas e na harmonia social seu principal objetivo e não na economia, no patrimônio e nos interesses empresarias que põem em plano secundário o ser humano, a vida, o bem estar e a harmonia social.

quinta-feira, 26 de abril de 2018

A “inconveniência” das leis trabalhistas


No final do século dezenove, sob pressão do Império Britânico, foi “abolida” a escravidão, depois de toda uma arrumação pra evitar que os ex-escravos se tornassem verdadeiros cidadãos, com acesso à instrução, à informação, ao desenvolvimento pessoal, humano e profissional. Monteiro Lobato, um raro mestiço com presença social, sugeriu no senado da recente “república” um programa de alfabetização para as vítimas da escravidão, até como uma reparação às incalculáveis injustiças sofridas por séculos. A pergunta que ouviu de um senador – um latifundiário do café, então um dos maiores produtos de exportação – é simbólica e explica a posição da elite até hoje, “ô Lobato, se ensinar essa negrada a ler e escrever, quem é que vai pegar no cabo da enxada?” A ignorância sustenta a escravidão, informalmente. É a natureza hipócrita do sistema social em que vivemos.

É uma sociedade escravista. A “república” proclamada por banqueiros e latifundiários nunca teve nada de república. Fala-se em nome do povo sem se levar em conta as necessidades e os direitos do povo. A base da sociedade é o trabalho escravo, braçal, ignorante, desinformado, inconsciente da estrutura social pela própria formação estrutural. Os luxos e privilégios dos pequenos grupos dominantes necessitam da exploração brutal do trabalho e, pra isso, direitos humanos e constitucionais, tidos como fruto do desenvolvimento humano, das sociedades e das relações entre as pessoas, são roubados à esmagadora maioria da população. O desenvolvimento espiritual, moral e afetivo demora mais a chegar na minoria mais rica, pois é quem depende da exploração pra manter privilégios, excessos, luxos e poderes. Ali se valoriza apenas o desenvolvimento tecnológico – inclusive pra servir à manutenção desse estado de coisas. O desenvolvimento tecnológico sem o desenvolvimento moral, espiritual, torna-se facilmente criminoso.

A espiritualidade foi feita refém de religiões que, ao mesmo tempo que funcionam como controle de grupos, servem à formação de divergências e divisões, separando, segregando e impedindo a união e a solidariedade irrestrita como elemento agregador e harmonizador na coletividade. A nível institucional, não há ligação entre religião e espiritualidade. Na arrogância religiosa, não basta perceber a interação entre várias dimensões, a existências de realidades além da matéria como a conhecemos. É preciso explicar, entender e acreditar. A razão humana, tão precária e restrita, torna mesquinha a espiritualidade. E a espiritualidade amesquinhada é um elemento conservador da estrutura social, um obstáculo ao desenvolvimento verdadeiro na formação de uma sociedade sem excluídos, sem miséria, sem ignorância. Um entre tantos elementos estratégicos armados pra manter o domínio de tão poucos sobre o todo, tentativas de parar a mutação natural de tudo o que existe. Nada fica como está e, quando se bloqueia o fluxo das coisas, há um gradual acúmulo e depois é a avalanche que leva tudo de arrasto. É o que estamos vendo acontecer a nível planetário.

Alguns anos atrás, a organização Repórter Brasil divulgou uma pesquisa concluindo que quarenta mil pessoas são escravizadas por ano, no país. Naquele mesmo ano, as equipes estatais de busca e eliminação de trabalho “análogo” à escravidão – um total de seis, chamadas força-tarefa, pra todo o território nacional – anunciava a libertação de quinze mil trabalhadores encontrados nestas condições, de fazendas amazônicas às fabriquetas de roupas pra grifes famosas, em São Paulo. Dos outros vinte e cinco mil, não se falou.

O centro de importância da nossa atual sociedade está longe do ser humano. Mais importante que a vida é o lucro e o patrimônio. E os privilégios de uns poucos consomem direitos da esmagadora maioria. É preciso ver a realidade como ela é – e limpar a visão de mundo das lentes distorcedoras que nos impõem – pra conseguir decidir o que fazer, sem as induções e condicionamentos que são a marca registrada deste sistema. De outra forma, decidimos como induzidos, como fomos condicionados – e até as contestações são feitas da forma programada, incapazes de tocar na estrutura social tão profundamente quanto é preciso pra torná-la menos injusta, perversa, covarde e desumana.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Documentário sobre a ordem social vigente.

Não sei o ano exato, mas esse filme foi feito muito antes da crise dos bancos, em 2008. O que significa crise geral, por extensão. Uma crise fabricada, que drenou quinze trilhões de dólares (TRILHÕES), dinheiro público arrancado de muitos Estados do mundo, submetidos pelo sistema financeiro. O domínio banqueiro-mega-empresarial submete Estados, países, governos, e dita a ordem criminosa da sociedade, a estrutura onde vivemos todos. Os privilegiados se encastelam atrás de muros e grades, com segurança armada, vivem ameaçados e cheios de medo do mundo "lá fora". Os garantidos e os que têm seus direitos respeitados no mínimo necessário se defendem como podem, muito mais próximos do assédio que a criminalidade e violência que a miséria, o abandono, a ignorância e a desinformação produzem - sem que existam "forças de segurança" capazes de conter. Está-se vendo repetidas vezes, todos os dias. O combate ao crime não impede o crime de crescer cada vez mais, inclusive contaminando a fundo as próprias forças de segurança, os parlamentos, os tribunais e os governos. É o "alto nível" do crime organizado que comanda a segurança pública, através do controle do Estado como um todo, em todas as suas instituições, com uma bolha de honestidade aqui, outra ali, isoladas pra não "contaminar" o sistema e muito úteis pra exibir como "provas" da honestidade do próprio sistema. A mídia taí pra isso.

Alguns sentirão arrepios quando ouvirem o nome de Marx, citado um par de vezes pelo Jean. Mas eu não tenho essa alergia, embora não seja devoto, e isso não diminui em nada a importância das informações e visões de mundo expostas no filme. Achei brilhante o Galeano, como sempre, em suas metáforas e ironias finas na interpretação da realidade. Ele toca fundo nos conceitos impostos, nas estratégias de criação de imagens e idéias a serviço do punhado de parasitas podres de ricos que explora a humanidade, mantendo o sistema criador de miséria e sofrimento.

A construção de uma sociedade verdadeira humana, que tenha na vida o seu maior valor, e não na propriedade, no lucro e nos interesses banqueiro-empresariais, passa pelas percepções necessárias a respeito da realidade à nossa volta mas, sobretudo, em nossa própria visão de mundo, em nossos valores, nossos objetivos de vida, nosso comportamento, na forma de se relacionar com as pessoas, com os acontecimentos, em nossas expectativas e no que acreditamos. É preciso perceber os próprios condicionamentos, porque ninguém está imune ao massacre publicitário-midiático-ideológico, estendido ao sistema de educação do primeiro ao último patamar.

No documentário, Galeano e Ziegler apontam "o que fazer", no último bloco. Ver é o primeiro passo pra modificar a si e à própria vida, pois é isso que cria condições de mudar o mundo. Exemplificando para as gerações que  não páram de chegar, sucessivas e permanentes, se trabalha na evolução social, planetária, no longuíssimo prazo que é sua característica e não adianta querer apressar - só frustra. Essa arrogância pretensiosa de querer "mudar o mundo", "fazer a diferença", "organizar a classe trabalhadora" só resulta em desistências sucessivas, enquanto os que insistem passam a vida dando murro em ponta de faca e colecionando decepções. E já vi várias vezes se transformar em descrença total, "isso nunca vai mudar", outra ingenuidade. A mutação é permanente e nada permanece como é, nascemos em pleno processo de mutação que, neste nosso planeta, conta com coisa de quatro bilhões de anos. A civilização ocidental, essa que nos domina, tem cerca de dois mil e quinhentos anos de existência, passando por mudanças que a história nos mostra, ao longo dos séculos. Uma vida tem algumas décadas e já se pretende mudar como se deseja a realidade. Ingenuidade ou estímulo ao ego, à arrogância, à vaidade, à hierarquização, pelo sistema social, de todas as formas?

Bueno, aí está o filme que considero valioso na formação de visão de mundo, no repensar os próprios pensamentos, no desconfiar de si mesmo - até onde penso por minha própria conta, até onde pude escolher os meus valores e comportamentos, o que desejo da vida?

                                       A ordem criminosa do mundo


observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.