
Explicando o desenho:
No alto à esquerda, em torno da palavra "loucos", porta fechada, crucificação, enforcamento, cadeia, a fogueira da inquisição, as formas de discriminação, de perseguição em geral impostas aos considerados loucos pelos padrões vigentes, pelos valores superficiais e momentâneos. Aqueles que descobrem, inventam, criam, trazem o novo para a humanidade são repelidos, criminalizados. O astrônomo desvenda o universo, o ciclista se atira no abismo, um mergulhador se aprofunda, o tanque de guerra é o fruto mau da loucura, o navegante de séculos atrás penetra o oceano desconhecido, o caminhante desfruta a solidão das montanhas. Loucura é refletir, nestes tempos de produção e consumo, é voar na imaginação, sempre com o risco de ataque dos predadores medíocres - o homem com a carabina, sobre a letra 's' de 'mais'. No caso exposto, a bruxa é aliada dos loucos voadores, solidária na discriminação e perseguição por conhecer o trato do mundo - sua força anula a intenção do predador. A busca do conhecer, o olho como sol da vida, a música dos loucos encanta a natureza. O louco passa, despido de padrões, preconceitos e valores da sociedade, enquanto esta lhe vira as costas, à esquerda de 'percorridos'. Abaixo, a tristeza olha o mundo a esmagar o louco, que está morto. Só aí os "sábios" - graduados e reconhecidos pelas convenções - se aproximam para estudar as obras da lúcida loucura, terror dos convencionais. A palavra "sábios" está coberta por alguns símbolos sob os quais se abrigam os sábios do mundo, convencionais e numerosos, também, sob os signos acadêmicos, sobretudo nas regiões de cultura ocidental, de origem européia. O quadrinho à direita e abaixo retrata a compulsão dos loucos. O mundo nos impões muros, nos enquadra; os loucos não conseguem ficar enquadrados, pular os muros é inevitável, é isso ou a morte, mesmo em vida. A perda do sentido, o abandono da função, da razão de ser. O quatorze bis é a homenagem ao louco generoso que foi Alberto Santos Dumont, que nunca patenteou nenhum invento seu, e foram muitos, além do avião. Ou aviões, que também foram vários.
* Passei mais de vinte anos dizendo ser Sartre o autor dessa frase. Não é. É de Carlo Dozzi. Mas não importa muito a antena que captou, importa o serviço que ela presta no mundo. Só é bom corrigir o erro.






