terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Mudanças íntimas, mudanças sociais

Há pessoas que precisam de um mapa, um caminho pras soluções. Como resolver o problema? Como fazer as pessoas se conscientizarem, como tornar o mundo justo, qual a saída, qual a solução? Pessoas apressadas, sem noção do processo multimilenar em que somos parte ínfima, embora sejamos tudo o que temos. Com o olhar voltado ao outro, ao coletivo, ao externo, e não a si mesmo. Antes de pensar em mudar o mundo, é preciso saber se o vemos com os nossos próprios olhos ou se vemos com as lentes distorcedoras que nos impõem desde a infância. Se queremos com nossa própria vontade ou queremos o que fomos condicionados a querer. Se nossos valores são nossa escolha consciente ou foram implantados em nós desde o inconsciente. Se nossos desejos são nossos mesmo ou são fruto do massacre publicitário-midiático cotidiano. 

É preciso trabalhar nos próprios condicionamentos, antes de pensar na evolução coletiva. Ela já acontece e não depende de ninguém, há milênios, milhões de anos. Cada um de nós passa apenas algumas décadas e parte. É pouco tempo demais pra se deixar escorrer, induzido por uma armação social aprisionadora, que me impõe valores fabricados, comportamentos induzidos, estimula o ego, a competição, o confronto, a ânsia do consumo como importância social. Que me impõe envelhecer sem sentido ou com sentidos falsos, vazios de significado, causando tanto sentimento de viver em vão nos que avançam nos anos. Inclusive nos que se dedicaram à revolução social, na busca por uma sociedade menos injusta, mais igualitária, menos perversa e mais solidária, mas não se dedicaram à revolução interior, pessoal, à observação íntima, com profundidade, sinceridade e humildade pra reconhecer e trabalhar nas próprias falhas.

Enxergar em profundidade, em extensão e de forma abrangente já é um serviço pra algumas gerações. O desenvolvimento de alternativas as mais variadas será um processo paralelo a essa percepção. O foco agora é desvendar, destrinchar e expor os mecanismos sociais ocultos que fazem do Estado uma organização criminosa contra o próprio povo, a serviço de um punhado de podres de ricos mundiais com a cumplicidade das elites locais. Que foram formadas pelos colonizadores, desde a colônia, passando pelo império, até agora na dita "república", no desprezo pelo próprio povo e na subalternidade aos colonizadores, "primeiro mundo", "sociedades desenvolvidas", prontas a entregar as riquezas aos exploradores às custas da miséria, da pobreza, da exploração, de todas as perversidades sociais facilmente extinguíveis, se houvesse interesse, ou melhor, permissão pra isso. A estrutura social foi toda formada por poderosos, é óbvio que a seu favor. Os próprios contestadores do sistema exercem condicionamentos sociais, sem se dar conta. Sentem superioridade se têm curso "superior", por exemplo. Numa sociedade que induz à competição, ao confronto, ao conflito, se propõem a mudanças confrontando, disputando, competindo. Incorporam superioridades e inferioridades condicionadas, egos inflados, e abraçam verdades intocáveis. Desejam o que manda a publicidade, aceitam o trabalho como um sacrifício, anseiam pelas sextas-feiras, pelas férias, pelo usufruto. Acreditam que através das "instituições democráticas" se pode alcançar mudanças sociais significativas. Chamam de "redemocratização" o processo de reconstrução do cenário falsamente democrático, escondendo os mecanismos de controle, indução, bloqueio e pressão pelos poucos de sempre. Falam em democracia quando estamos numa claríssima ditadura banqueiro-empresarial, onde o patrimônio vale mais que a vida, o interesse empresarial vale mais que o interesse de comunidades inteiras e o Estado está escancaradamente a serviço dos mais ricos e suas mega-empresas de todo tipo. Um comportamento que se repete há muito tempo, desde antigas gerações de socialistas.  Exerceram as programações inconscientes, pensando em revolucionar a sociedade - "confrontaram" as "instituições", desejaram a vitória, se organizaram em "hierarquias" induzidas, criaram expectativas indevidas, numa repetição de comportamentos, de sentimentos que não puderam resultar em outra coisa senão a frustração de um "fracasso" programado. É a contestação planejada, que não fala a língua geral e tem pouco ou nenhum poder de mobilização e mudanças profundas.

Poucos se dispõem a trabalhar em si mesmos e nos seus próprios condicionamentos, poucos olham pra dentro profunda e sinceramente, serena e humildemente, pra reconhecer suas próprias falhas, suas próprias necessidades. Mas as raízes internas são o que dá espontaneidade e força às ações coletivas, abrindo percepções impossíveis na superfície, permitindo mudanças íntimas, pessoais, que se refletem no trato cotidiano com o mundo, com as pessoas e acontecimentos, nas relações sociais, nos sentimentos que se alimenta e que se provoca nas pessoas em volta. Mudanças que permitem melhor proveito nas relações coletivas, mais harmonia no trato e nos relacionamentos. Nas reações diante de discordâncias, de perdas, frente aos revezes da vida. Melhor freqüência, melhores sintonias. Mudanças íntimas são fundamentais nas mudanças sociais. A curto prazo no individual e a longo prazo no coletivo. Como o crescimento de raízes.

Eduardo Marinho
Bananal, Juiz de Fora, MG. - 27/02/2018


terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Modelo de educação

A educação "oficial" tem um modelo empresarista dividido em três. O primeiro, vasto e destinado à esmagadora maioria, não tem como objetivo instruir, mas criar trabalhadores desqualificados e de baixa qualificação, a chamada mão de obra barata, explorável e descartável. O segundo é preparador dos gerentes, dos administradores diretos da massa desqualificada, originários das classes médias, com a instrução pautada em valores de consumo e propriedade, na visão de mundo distorcida da chamada "meritocracia", altamente empresarial e socialmente ignorante. O terceiro, extremamente reduzido, se destina à formação dos filhos das elites financiadoras de campanhas eleitorais, publicitárias, midiáticas e ideológicas, para serem os exploradores - parasitas sociais que dispõem de condições de controle sobre o aparato público, dominando o Estado na manutenção dos seus privilégios e poderes criminosos, além do modelo de sociedade onde o patrimônio vale mais que a vida e os lucros, mais que o bem estar coletivo.

Pescaria no caderno

Privilégios de alguns, direitos roubados da maioria

Diante do quadro social constrangedor - pobreza, miséria, abandono, ignorância, desinformação, exploração do trabalho - e suas conseqüências - violência, criminalidade, angústia geral e frustrações a rodo - onde saltam aos olhos os direitos constitucionais violados, num Estado criminoso que não cumpre sua "lei máxima", direitos respeitados são uma responsabilidade social. E privilégios são uma obrigação moral de serviço coletivo.
Ostentações de luxos e privilégios são demonstrações de pobreza de espírito, de indiferença com o sofrimento de milhões, de conivência e cumplicidade com os crimes de Estado cometidos contra a população por uma estrutura social empresarista e desumana. Entre as minorias privilegiadas há uma dificuldade imensa em enxergar a realidade como ela é. O privilégio depende de direitos roubados, ou não haveria serviçais e a massa indispensável de trabalhadores braçais. O olhar da conveniência naturaliza as injustiças e as justifica.
Os privilegiados conscientes - ou que têm a intuição - da sua própria perversidade se levantam em fúria contra a simples menção de injustiças sociais. Lançam insultos, acusações e afirmações falsas nas quais precisam acreditar, no apego aos privilégios. E servem de obstáculo ao caminhar coletivo em direção a uma sociedade menos injusta, mas igualitária, menos perversa e mais solidária, em direção à harmonia social que o desenvolvimento científico e tecnológico já permitem há tempos, faltando apenas o desenvolvimento humano, moral, social e espiritual pra isso.

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Não é o mundo que está piorando, nem a humanidade está regredindo. É a tua visão das coisas que está se ampliando, aumentando a percepção da verdadeira profundidade dos problemas, além dos aspectos de superfície.

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Consciência não se alcança, se desenvolve. O que se alcança são degraus de consciência. O desenvolvimento é permanente.

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O orgulhoso têm dificuldade em distinguir humilhação de humildade, pra ele parece a mesma coisa. Mas a humilhação nasce do orgulho. E a humildade é seu antídoto.

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A arrogância intelectual não permite o encontro entre o saber e a sabedoria, a união que será a salvação do mundo, da humanidade e da vida. Por isso o saber foi feito prisioneiro da ganância, acorrentado pelos sentimentos induzidos de superioridade acadêmica. E a sabedoria foi desacreditada, desvalorizada e vestida de inferioridade e convencida da sua própria impotência. Mentiras deslavadas que servem à manutenção desta estrutura social injusta e desumanizante.
Essa união vai pacificar e harmonizar a sociedade, com sentimentos de coletividade, solidariedade natural, consciência social e cooperação, com humildade digna.

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terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Usina de pensamentos


Minha cabeça é uma usina de pensamentos, de reflexões, de captação e análise. Algumas vezes, também, de transmissão, sobretudo através do trabalho. Desenhos, frases, ímãs, broches, pirogravuras, serigrafias, livrinhos, fanzines, camisetas, adesivos, a maior parte do que fiz e faço são meus veículos de comunicação. Mas a usina é compulsiva e muita coisa fica interna, fervilhando. Às vezes eu gostaria de desligar um pouco. Mas só às vezes.

Faço essa compulsão ser produtiva e, dentro do possível, agradável. A sociedade já tem desagrados de sobra pra eu mesmo os produzir na minha vida. É das reflexões que sai a matéria prima pro meu trabalho. E eu me sinto uma antena de recepção e transmissão, não o criador das comunicações, embora não possa impedir minha personalidade na forma de exposição, no estilo ou no traço. Lembro que não se agradece à antena e sim se dá proveito aos conteúdos, quando é e o quanto for possível. Pra isso eles se apresentam, não pra celebração de ninguém.

Sinto que há uma coletividade incorpórea participando dessa atividade, embora não pretenda definir nada quanto a isso - o foco é o uso, o aproveitamento na prática cotidiana, a colocação em prática das idéias, das percepções, dos enganos percebidos, nas mudanças de valores, de comportamentos, de visão de mundo, de desejos e objetivos de vida. Entender o extra-físico não é a função, vamos todos atravessar o portal das dimensões, estaremos de cara pra essa realidade inevitavelmente, em relativamente pouco tempo. As relações do aqui e agora chamam à reflexão, à atividade, às mudanças nos valores e comportamentos cotidianos.

Não permito que minha razão se meta a explicar coisas que meu entendimento não alcança, essa é a área do sentimento. Sinto que há dimensões várias, além da nossa, física como conhecemos. Imagino que há outras matérias em diferentes freqüências, como são diferentes as estações de rádio, na falta de comparação melhor. Mas não perco tempo tentando alcançar com minha precária razão humana, ela precisa estar muito mais desenvolvida e é na lida cotidiana que ela se desenvolve, no trato com o mundo, nas formas de relacionamento, no caráter, nos sentimentos que tenho em mim e nos que causo nos que estão em volta. Nas reações diante do insulto, da perda, das contrariedades da vida, na auto-observação e análise permanente, sincera e profunda, no desenvolvimento da própria consciência. Com o tempo, a capacidade de compreensão vai se ampliando, sem pretensões arrogantes.

Perceber as próprias falhas e trabalhar nelas, com humildade, melhora a relação com as pessoas, aumenta a tolerância com falhas alheias, porque todos as temos, e tende a nos poupar do aborrecimento de julgar e condenar os outros, ao mesmo tempo em que nos imuniza de julgamentos a nosso respeito.

Quanto às espiritualidades, não explico, não entendo e não acredito em nenhuma explicação. Mas sinto profundamente que está bem no espírito quem está bem com a própria consciência. Daqui a pouco eu passo pro outro lado, não demora muito. Aí vou estar de cara com a realidade, não com as concepções que pretendem definir como será. As ameaças de fogo eterno, de banimento do paraíso, de "ira divina", me parecem contos infantis, chantagem psicológica pra mentes infantilizadas. Sem querer ofender ninguém, não escolho minhas opiniões, elas brotam das reflexões. Às vezes contra a minha vontade - e eu tenho que me render às evidências.

Os orgulhosos dirão que estou "chamando" os religiosos de infantilizados. É apenas uma percepção, não um insulto. Posso estar errado, é só minha opinião - que pode ser perfeitamente desprezada como ridícula, sem problema, sem ódio, sem insultos. Esta é mais uma tendência nefasta da ignorância induzida, transformar toda discordância em conflito - uma indução social, programada, estratégica, pra impedir mesmo o entendimento geral. Teremos que conviver com isso durante muito tempo ainda, não nos iludamos.

Minha cabeça é uma usina de pensamentos, de reflexões, de captação e análise. Às vezes, também, de transmissão...

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Televisão e controle mental

A televisão mostra uma árvore de natal feita do lixo catado em rios e praias. Convoca a população a não deixar lixo nos lugares de lazer, mostra o exemplo de pessoas que trazem o seu saquinho pra levar o lixo produzido, "para não poluir as praias", no início do verão. Do lixo industrial, químico, tóxico, cerca de 90% do total do lixo produzido pela sociedade, como um todo, não se fala.

Notícias sobre a escassez de água brotam nos telejornais. Sobre o racionamento imposto às periferias, há muito tempo, nada. A televisão convoca a população a economizar, aconselha fechar a torneira quando escovar os dentes ou lavar as mãos, a não lavar as calçadas e a limpar os carros com panos úmidos. O uso empresarial da água tratada - 70% pelo agronegócio e 26% por indústria e comércio - não é mencionado.

A comissão parlamentar de inquérito (CPI) do Senado sobre o déficit da previdência conclui que não há déficit nenhum, ao contrário, há superávit. O que acontece é que, com a lei de desvinculação de recursos (LDR), o dinheiro da previdência é desviado pra outras finalidades, no atendimento de interesses empresariais. A televisão oculta as conclusões da CPI, continua falando no "rombo da previdência", atendendo, como sempre, aos poderes econômicos que pressionam a privatização da previdência, ao mesmo tempo em que contam com a grana pra entregar a banqueiros, com o pretexto de uma dívida pública forjada e não investigada. A mídia mente, de acordo com esses interesses perversos, com falsidades e distorções da realidade - "é tudo para o bem da sociedade." A massa mais pobre, roubada em seus direitos constitucionais, humanos e básicos, que se dane.

A primeira notícia sobre febre amarela foi localizada em Teófilo Otoni, cidade a 50 km de Governador Valadares - a maior cidade na beira do falecido rio Doce. A segunda foi em Alegre, no sul do Espírito Santo, longe do vale. Valadares, onde os postos de saúde não dão conta de tantos casos, os profissionais da saúde pública atarantados, sem recursos como sempre, só foi noticiada muito tempo depois, sem nenhuma referência ao rio morto onde morreram todos os peixes, sapos e rãs - que se alimentam de mosquitos e suas larvas. Sem predadores, os mosquitos proliferaram sem contenção, aos bilhões, e as doenças transmitidas por eles se tornaram epidemias. A televisão não mencionou nenhuma vez o papel dos rejeitos da mineração que infestaram os 800 km do maior vale da região sudeste. Interesses mega-empresariais, no caso das mineradoras, valem mais do que a vida.

Com um mínimo de consciência, ligar uma televisão é uma vergonha, um perigo, um absurdo. O papel das empresas de comunicação é o de controle mental. Não é à toa que um Estado que não cumpre sua própria constituição está dando o tal conversor pra televisão digital, de graça, na cesta básica. Uma necessidade deste modelo de sociedade, pra manter o controle mental sobre a população.



segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Aprovação traiçoeira


A aprovação social tem um preço alto. Na alma. E jamais vale a pena. O problema é que, geralmente, só se percebe isso no fim da vida. Os poucos que percebem antes, podem se preparar pra discriminação, pra condenação, pro preconceito dos convencionais.
Os que percebem tarde demais, têm a terrível sensação de ter vivido em vão, de vazio, de não ter vivido e de não ter mais tempo. Eu vi isso exposto na minha frente, de um rico empresário, já perto dos noventa, doente, acompanhado de enfermeira. "A sociedade me vê como um vitorioso, um bem-sucedido. E no meu coração eu me sinto um fracassado." Disse mais, "quando percebi que minha vida tá chegando no fim, olhei pra trás e vi um vazio, tudo o que eu achava importante não valia mais nada..." E o que me tocou mais fundo, um sentimento que eu tinha e que pensava ser algum erro meu, "...a sensação que eu tenho é a de que mentiram pra mim lá no começo da minha vida e eu corri atrás dessa mentira a vida inteira." Era o que eu sentia, as pressões pro enquadramento, as promessas de futuro, mentiras, enganos. Tudo o que me diziam que era pro meu bem, não me parecia. Todo ideal de vida que me apontavam parecia frustrante, posição social, excessos, desfrutes, privilégios sociais, me pareciam mais constrangedores que desejáveis.
Estranho eu em meu meio, no princípio da minha vida. Mas a miséria, a pobreza, a exploração de "serviçais", tornavam todo desfrute constrangedor, pra mim, intuitivamente, sem perceber ainda quase nada da estrutura social. Me constrangia, de alguma forma, a posição de privilegiado social, embora fosse muito confortável. Mas um conforto que custava um desconforto interno sem explicação. Um desconforto que vi em muitos dos meus iguais sociais, os mais sensíveis, sempre exceções. Quase todos permaneceram no desfrute das considerações sociais, convivendo com esse desconforto, coisa que eu não fui capaz. O desconforto físico me pesa menos. E se não tenho nenhuma consideração por esta estrutura de sociedade, por que precisaria de alguma consideração social?

domingo, 8 de outubro de 2017

Entrevista de boteco

Foi no bar do André, aqui perto da minha casa. Uma conversa, como tantas, mas conduzida pelo Marcel na sutileza, leve, solto no peso do ambiente periférico. espontâneo e barulhento. Imagino o trabalho da edição. Valeu, mil e seis.



segunda-feira, 4 de setembro de 2017

As entranhas da sociedade

O 'Atlas da Violência' (Ipea - Instituto de Estudos Econômicos Aplicados) diz que 70% dos mortos por armas de fogo são negros e mestiços. O jornalista Boechat se escandaliza. Responsabiliza a "classe política", o "andar de cima", em oposição aos duzentos milhões do "andar de baixo". Mira nas alfândegas, na "negligência" dos agentes do Estado, na perseguição de fronteira aos sacoleiros e não às armas que entram livremente, na preocupação das "autoridades" em "se encher de grana". Atribui às instituições todas as mazelas sociais - e não toca nos verdadeiros controladores de toda a estrutura social e da farsa das "políticas públicas". As tais "delações premiadas" são tratadas como fatos isolados, como revelação de uma relação corrupta, não como o descaramento do modo de funcionamento do Estado, do funcionamento rotineiro das instituições nas relações com os poderes econômicos, em permanente promiscuidade público-privada.

Essas "delações" revelam como o "poder público" se relaciona com empresas, o "poder privado", a naturalidade das propinas e das trocas de favores com o dinheiro e patrimônio público, tanto no Brasil como em outros países. As conseqüências diretas na sociedade - miséria, ignorância, violência e criminalidade - são desligadas das suas causas. Fico pensando se Boechat sabe, percebe essa promiscuidade e não fala porque não pode, ou se ele pensa que vê mesmo as causas da barbárie social em que vivemos nas instituições constituídas, e não nos seus constituidores - mega podres de ricos que chafurdam em privilégios, luxos e poderes acima dos institucionais.

A concentração de riquezas nas mãos de um punhado de podres de ricos coloca poderes irresistíveis nestes parasitas que determinam as "políticas públicas", financiando "políticos", campanhas eleitorais e publicitárias, com a cumplicidade da mídia e seu "jornalismo" distorcedor, tendencioso e construído pra induzir a opinião pública.

O quadro social se explica pelos interesses banqueiro-mega-empresariais - poucas dúzias de pessoas - que amarram o Estado - através das suas "autoridades" -, impedindo o cumprimento da constituição no respeito aos direitos de todos os brasileiros. Impõem a ignorância no ensino público e o modelo enquadrador na educação da parcela - classes médias - com acesso a direitos, conforme os interesses e a mentalidade empresariais. É preciso evitar a reflexão mais profunda sobre a sociedade e seus problemas, superficializando a mentalidade da população. Não se fala sobre harmonia social, a idéia imposta é competição desenfreada e geral, a miséria é a justa punição da incompetência. Os milhões de crianças que já nascem condenadas a essa "incompetência" não são mencionados, não são vistos, não se questiona essa produção infame de excluídos e explorados que resulta nos índices altos de violência e criminalidade. A resposta institucional é falsa, repressão e encarceramento só alimentam os ciclos de barbárie social em que vivemos. Falsa porque imposta por seus causadores.

Investimento pesado em educação, na formação do povo brasileiro, em alimentação e nos serviços públicos seria o melhor "combate" à violência e à criminalidade. É uma evidência óbvia e ignorada, escondida, silenciada e proibida. A estrutura social criminosa dominante se sustenta na ignorância, na desinformação, no roubo de direitos humanos, fundamentais, básicos e constitucionais da maioria esmagadora da população. É proibido investir em educação e cidadania.

É preciso enxergar a realidade como ela é. As soluções surgem a partir daí. É preciso acender as luzes. Soluções serão muitas, variadas e locais, nas bases da sociedade. O momento é de enxergamento. Mostremos uns aos outros, com humildade e espírito de serviço.

domingo, 3 de setembro de 2017

Via Celestina - documentário

O Hare me pediu pra publicar o vídeo que fizemos na função de arrumar uma grana pra comprar parte do material de trabalho que vai bancar a viagem e o filme. Não entendo a diferença, pois já tinha publicado o link da página dele, mas tá bueno, vamo lá. Aproveito pra explicar umas coisinhas.
Essa grana, cinco paus, vai servir pra comprar um microfone de por na roupa, por exemplo, o que já leva boa parte. Camisetas que vão ser impressas com os meus desenhos e vendidas nas exposições por Camila e Hare, pra render e pagar despesas de viagem. Ou seja, vai ser investida em dois trabalhos, no mínimo: as camisetas, que vão servir por aí, algumas provocando reflexões, pensamentos, sentimentos, estimulando contatos que se tornam relações construtivas, às vezes, pelo que já vi acontecer; e os vídeos, que vão compor o documentário e levarão o mesmo conteúdo de outra forma, áudio-visual como são os tempos de agora, com possibilidade de muito maior alcance. Os acontecimentos de viagem, muitas vezes, trazem oportunidades de reflexão e percepção, quando se tem olhos de ver, disposição interna. As lições estão em todo lado, cabe a cada um perceber as suas.
Durante mais de trinta anos eu fiz artesanato pra sobreviver. Logo que pude passei a colocar pensamentos, minha maneira de ver e pensar o mundo no meu trabalho. Vivendo das ruas, em exposição ou no mangueio* - a maior parte do tempo -, sob descrédito geral, o crédito era exceção. Desconfiança, preconceito, provocações, agressões gratuitas, abordagens policiais, assédio das guardas municipais se tornaram parte do cotidiano. Não me importava mais que o incômodo direto, o desvio do caminho ou pior, a perda dos trabalhos pra apreensão. Não era caso de revolta, eu via como da natureza social aquela perda. Não me enquadrava nas categorias que mereciam respeito, não entregara minha vida à mediocridade "normal" e imposta, era natural que a sociedade me atacasse. Eu tinha é que tomar mais cuidado, me antecipar às apreensões, arrumar rotas de fuga, ficar esperto. Em trinta anos, dá pra contar nos dedos as apreensões. É sempre uma sensação estranha, a da injustiça, mas era como a confirmação das minhas escolhas, de que estava no caminho certo pra mim. É uma sociedade mesmo injusta.
O descrédito e a desconfiança, rotineiros também, não me diziam nada. Eram mentalidades convencionais exercendo seus condicionamentos, visões superficiais e induzidas, em constrangedoras demonstrações das mentalidades enquadradas pelo sistema social alienante e condicionador, que induz à intolerância, ao preconceito, à discriminação de tudo que não se enquadra na "normalidade" imposta como padrão. Não é à toa que as coisas são como são e que se aceita miséria, ignorância e abandono como inevitáveis. Também é da natureza social pensamentos que me suponham as piores coisas.
Aprendi que o respeito alheio é muito bom, mas não pode ser necessário. O único respeito que não posso abrir mão é o meu próprio. Com isso, procuro ser inofendível. Qualquer opinião a meu respeito é direito de quem a tem, aliás direito e responsabilidade. Eu não gosto de formar opinião errada, por isso demoro a tirar alguma conclusão. Mas há quem tenha o vício de julgar e condenar, de supor intenções ocultas, geralmente no sentido interesseiro, mau caráter, apegado aos valores vigentes, grana, ganhar sempre, mesmo com traições, mentiras e enganos. Gente que age como determina a ideologia dominante, incapaz de discernir a sinceridade da falsidade. A arrogância de julgar anula o discernimento. Em alguns casos, muitos, as pessoas julgam por si mesmas, por seu próprio caráter, com base nos próprios valores e comportamentos. Aí o insulto diz muito mais do insultador do que do insultado. E o insultado não precisa se ofender, nem se alterar. A cabeça e o coração dão uma ginga e o insulto cai no vazio.
Uma vez eu estava expondo em Santa Teresa, parou um sujeito bem vestido, olhando atentamente os desenhos. Não interferi, fiquei quieto até que ele me olhou, apontando, e perguntou, "serigrafias?" Confirmei e ele, "quem faz os desenhos?" "Sou eu" e ele pareceu surpreso, mas se aproximou, "você numera no verso?" Ele entendia do assunto e ficou confuso quando respondi simplesmente "não". "Como assim?" Olhei pra ele e a expressão deixara por um instante de parecer arrogante e mostrava dúvida. Então respondi sorrindo, "eu não numero". De dúvida passou um instante de espanto, "não numera?" e daí pra indignação quando confirmei, "não". "Então 'isso' não tem nenhum valor no mercado de arte!" Sorri de novo, "é verdade, não tem nenhum valor no mercado de arte", olhando tranqüilamente nos olhos dele. Novamente ele expôs um instante de dúvida na fisionomia, talvez sentindo que havia alguma coisa que ele não estava percebendo. Aí eu expliquei, "eu faço arte é pra qualquer um, não pro mercado de arte. Não me interessam as qualificações do mercado e é natural que ele me desconsidere. Não me importo com isso. Não dou valor ao mercado de arte porque arte pra mim não é mercadoria, mas um meio de comunicação." A expressão facial foi passando da incredulidade pra revolta e daí pro absoluto desprezo. Virou, sem dizer nada além de um som interno, "hm", e foi embora com ostensivo nojo. Olhei ele virando a esquina do cinema, falando com todo o movimento corporal, e achei graça. Depois fiquei pensando que arte pra mim é mercadoria sim, pois é o que eu vendo pra viver. E é também meu veículo de comunicação pra falar com o mundo o que me engasga se eu não falar. Não tenho o foco na arte pela arte, meu foco é dizer o que vejo, penso e sinto. Minhas artes são mais reflexões que artes, mas isso já é outro papo.
Voltando ao assunto, venho de uma caminhada longa, acostumado com as piores opiniões a meu respeito - de quem não me conhece. Acostumado e imune. Um dia começaram a chegar câmeras e filmar eu falando. Não tinha idéia do que aconteceria, nunca pensei em visibilidade nem tive fama como objetivo. Já estava satisfeito fazendo meu trabalho e vendo que pessoas davam proveito, refletiam, questionavam, assimilavam o que eu tava dizendo. Isso já bastava, era o sentido que eu procurava na vida, apesar das escassezes materiais que de vez em quando aconteciam. E que nem pesavam tanto assim. Mas aí comecei a ter a cara conhecida além do que imaginava, a ser chamado pra falar nas mais diversas coletividades, mais ou menos a mesma coisa que falo cotidianamente, no meu trabalho e em toda parte onde andei e ando, onde expus e exponho, sem pretensões além de ter satisfação de verdade na vida - já que o que se apresenta pela sociedade como satisfações não me satisfaz nem de longe, ao contrário, mais fácil me constranger. Não que me dê o direito de julgar quem pensa, vê e quer diferente de mim, cada um com suas escolhas e suas conseqüências. "O plantio é livre, mas a colheita é obrigatória". Colho o que planto, então procuro cuidar do que estou plantando com minhas atitudes e escolhas. Não posso me incomodar com opiniões que me criminalizam, desqualificam ou desacreditam.
Eu me preocupo com o que sou tendo como referência minha própria consciência, ainda que a saiba precária e em desenvolvimento. É aprender com os próprios erros e, se possivel, com os erros alheios também - sem direito a interferências indevidas. E vamos adiante. O que se pensa e diz a nosso respeito não nos transforma nem no que se pensa, nem no que se diz. Não posso levar em conta, a não ser pra determinar de quem me aproximar e de quem me afastar, não muito mais que isso.

* Mangueio era o contato direto, a abordagem às pessoas pra arrancar o sustento. Por exemplo, ir de mesa em mesa, bar em bar, restaurantes, em praias, praças e ruas, em qualquer lugar, oferecendo o artesanato, com licença, boa noite, oi, tudo bem, quer dar uma olhadinha, quer ver um artesanato reflexivo, dá uma olhada, interrompendo conversas ou silêncios, encontrando todo tipo de reação, cotidianamente. Até a adolescência dos meus filhos, o mangueio foi a base da sobrevivência. E quantas vivências...


quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Poesia (?), textículo e percepção.

Eu dizia que não sei por que existe tanta miséria e ignorância,
nesse mundo tão cheio de violência, medo e ânsia.
Mas quando olho pra riqueza, pra luxos,
ostentações e desperdícios, sinto que sei, sim,
só não gosto de saber.
Não quero julgar ninguém,
mas não posso deixar de perceber
que o ter e o saber são impregnados de arrogância
e a sabedoria do conhecimento é afastada,
pra que a imensa maioria sabotada
não perceba seu poder e importância.

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Diante do quadro social constrangedor, miséria, abandono, ignorância, pobreza, exploração desenfreada e suas conseqüências, violência, criminalidade, angústia geral e frustrações a rodo, vejo direitos respeitados como responsabilidade social e privilégios como obrigações morais de serviço coletivo. Ninguém precisa concordar, mas é assim que vejo.

O usufruto de privilégios, de excessos e riquezas são demonstrações de pobreza de espírito, de indiferença com o sofrimento de milhões, de cumplicidade e conivência com os crimes de Estado cometidos contra a população por uma estrutura social desumana e dominada pelos mais podres de ricos, através do controle do teatro de marionetes da farsa política, a simulação de uma democracia.

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A angústia é companheira inseparável do egoísmo. Por mais que se esconda, é visível. Pra quem tem olhos de ver, claro.




terça-feira, 8 de agosto de 2017

Mundo fabricado


Segue a dança das cadeiras no teatro de marionetes. O jogo sujo é descarado, claramente sujo, um jogo de parasitas subalternas fazendo o papel de mandar. Não caio nessa de "fora temer". Fora banqueiros e mega-empresários de cima das instituições públicas - privadas na prática, no escuro dos bastidores. A confiança na ignorância e na desinformação - criadas pelos modelos de educação e pelo controle das comunicações com a mídia privada, globo à frente - faz o descaramento e as mentiras deslavadas desses fantoches de financiadores de campanhas. Esse temer é um merda privilegiado como tantos, por seus serviços prestados na traição das nações brasileiras, na entrega de riquezas, do território, da própria população à exploração dos vampiros mundiais, em bajulação e subalternidade às forças que dominam estados, derrubam governos, controlam a mente das populações.
É preciso enxergar a realidade, profundamente, antes de decidir como agir, pra não se influenciar com os próprios condicionamentos - por exemplo, "lutar" contra um sistema social criador de confrontos, disputas e competições, confrontando suas instituições. Quando alguém fala da minha "luta", esclareço que não tenho luta. Tenho lida, serviço. Não estou "contra" o sistema social, mas a favor de outro sistema, que tenha no ser humano o centro de sua importância.
Os vampiros mundiais põem no tabuleiro institucional os parasitas locais, morcegos, sanguessugas e legiões de pulgas e carrapatos nacionais, em todos os níveis. Estes se entendem e desentendem, subalternamente, sem afetar a estrutura social ou significar nada para as populações.
É preciso que nos juntemos cá embaixo, no alicerce da sociedade, e tomemos iniciativas pra resolver nossos problemas. Quando a periferia se desinteressar do centro, perceber que dali o mais que vem é sofrimento, mentiras, humilhações, promessas e ilusões pra aceitar uma vida sem sentido e não sentir o tempo passando, pára tudo, a estrutura social desaba e se modifica. Quando o ser humano estiver no centro de importância na sociedade, não haverá abandonados, miseráveis, analfabetos. Ignorantes, só os que optarem por isso e serão poucos, se é que será possível. É preciso criatividade, solidariedade, autonomia. É preciso perceber a artificialidade dos desejos, a visão de mundo distorcida, a indução do comportamento e dos objetivos.
Só quando é tarde percebemos o vazio da vida, a desimportância de tudo o que fomos levados a considerar mais importante e a importância do que levamos a vida desconsiderando. Percebendo antes - e confiando nos próprios sentimentos -, podemos mudar esse final e gostar da vida que vivemos, mesmo numa sociedade primitiva como a nossa. E isso muda o mundo pra melhor.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Seqüência da viagem em São Paulo

Em São Mateus, com o Gavião e o Val, achamos um cara que fabrica cabeçotes. Ele tinha um, feito pra motores a gnv, que esquentam mais, reforçado pra segurar sem vazar. A grana dava pra comprar, mas não pra colocar - é preciso retirar o motor pra fazer a troca. Depois andamos por São Mateus, vendo novos e antigos grafites da rapaziada do grupo OPNI.
Clara e o grafite em tela
A sensibilidade sobrevive na barbárie social e se manifesta nas paredes.
O amor feito da dualidade universal, o yin-yang do sentimento, na expressão da menina.
De São Mateus fomos e voltamos no evento da Vila Guilherme, um casarão cultural no momento, administrada pela secretaria de cultura do município. Foi uma casa de fazenda e tem bem o tipo, paredes grossas, teto alto, passagens em arco, escadaria na frente. Um pouco estranha à urbanidade que o tempo trouxe, cercada pelas ruas, casas e construções, absorvida por um novo contexto social, foi transformada em escola por muito tempo, várias gerações estudaram nela. Mas a escola foi fechada, no processo de permanente desvalor à educação, numa sociedade dominada pelos poucos que mais exploram a ignorância, a desinformação, a alienação geral. E por muitos anos permaneceu fechada, abandonada, sem manutenção. Até que a rapaziada do skate, do grafite, da pichação, os socialmente "errados", entraram e começaram a fazer atividades ali dentro. A repressão não podia se fazer de rogada, rolou direto. Mas contatos com advogados amigos, apoio de pessoas que se relacionavam com as instituições ditas "públicas", desinteresse mega-empresarial (ausência de "pressóes irresistíveis" ao sistema social), vários fatores combinaram pra que o casarão cultural se fizesse. Claro, com a imposição da administração "pública". O espaço foi conquistado, mas quem administra é o Estado. 

A exposição e a palestra rolaram em sintonia.

A casa imponente dá idéia do que deve ter sido, como sede de uma fazenda, provavelmente, de café.
A conversa começou mais cedo que o marcado, porque já tinha gente esperando e a exposição estava armada ao lado.
Essa era a sala ao lado. Bueno, ainda é.
Foi chegando mais gente, tivemos que trocar de sala, pro segundo andar. Teto mais alto, antiga área dos mais "nobres".
Um dia depois fomos pra Santos, não sem antes comprar dois cabeçotes pra kombi. Era o que tinha faltado na garibada dada em Inhaúma no motor, que foi aberto e tratado nos seus meandros mais profundos. A grana não dava. Na viagem arrumamos e, "coincidentemente", em São Mateus conhecemos o Walter, que fabrica cabeçotes e tinha feito um tipo exclusivamente pra motores movidos a gás natural veicular (gnv). Compramos e levamos, Walter nos indicou uma mecânica que lhe encomendava cabeçotes, do patriarca seu Miguel, seus filhos com ele e todos com mais de quarenta anos, mais os mecânicos que trabalhavam com eles, na Praia Grande. "Gente honesta" foi o código, a senha pra seguir a indicação.
O convite pra Santos foi de Rodrigo Santo, parceiro nas movimentações de palestras e dações de idéias pra coletividades diversas, dentro do sistema social de enquadramento pela educação. Figura ímpar, arrumou todas as condições pra passagem pela baixada santista, que desenrolou depois em outros acontecimentos, de domingo em diante.

Na saída de Sampa, o cinturão de sempre, dos imprescindíveis que fazem a cidade funcionar, sem ter acesso à consciência dessa realidade, da sua importância no cotidiano social. A foto, obviamente, é da minha parceira amoramante, Maria Clara.
A palestra na escola periférica foi de bom proveito, com muitos olhos brilhantes. Contra as condições, vocacionados dão seu jeito.                 Foto - Pedro Céu
Com essa cara de maluco, inda vou escrever um texto e fazer teatro. História pra contar não falta. Será que é teatro ou contação de histórias?                 Foto - Pedro Céu
Exposição no Gonzaga.   Foto Pedro Céu
Rodrigo Santo é esse de barba, ele que arrumou a licença pra expor. Foto Pedro Céu.
Palestra rola sempre. Foto - Pedro Céu.
Depois dos eventos ficamos por Santos. O domingo acabou numa periferia de Guarujá, em casa de amigas, segunda fomos pra São Vicente, depois de rara praia. Terça era a hora dos cabeçotes e aí começa uma outra história. Na oficina do seu Miguel encontramos Rildo, que montou os cabeçotes no lugar. De caprichoso, apertou demais as válvulas, eu vi, mas como sou inguinorante na mecânica, não disse nada. Saímos dali pra subir a serra e nas subidas o problema se mostrou. A potência caiu e tivemos que parar algumas vezes pra esfriar o motor. Na primeira parada no acostamento, o guincho da via apareceu pra oferecer a volta pra Santos. Recusamos ligando o motor, que funcionava perfeito. O cara foi embora e seguimos viagem até uma subida longa onde a segunda não tava mais dando. Paramos na entrada de um túnel e abrimos o motor pra esfriar mais uma vez. Até fumaça tava fazendo.
Serrando um parafuso grande pra ficar no caminho do eixo das várvula, o balancim.
Edson Estrada, o guincheiro, apareceu pra salvar a situação. Até passeio turístico no Museu do Ipiranga ele nos proporcionou, nos deixando em frente à casa dele, no Ipiranga, com caminho certo e fácil pra São Mateus.
O motor estava ótimo, mas não subia, aquecia. Nem um pingo de óleo. Edson do guincho parou sem a gente pedir, opinou sobre o motor, "tá bom o barulho, o motor tá ótimo". Contei sobre a troca de cabeçotes, ele concluiu que apertaram demais as válvulas, perigava o superaquecimento, era preciso regular melhor. O problema era a subida. E ele resolveu isso levando a gente até o centro de São Paulo, na porta da casa dele, de onde pra São Mateus eram pouco mais de quinze quilômetros. Chegamos e estamos. Amanhã Celestina vai ter as válvulas reguladas. Seguimos.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Um caminho em São Paulo

Saímos na quarta à noite e quinta estávamos em São José, expondo e conversando na Clínica Espelho Mágico - seu reflexo interior, com Denise e Haedyl na pilotagem do encontro. As fotos falam mais e o vídeo também.
Celestina, a kombi, fecha o ambiente na entrada.
E papo rola...
Roquenrou observa a exposição da janela do
quarto.
Gente chegou e saiu, todo o tempo.


Na sexta fomos pra Guarulhos, chegamos à noite e baixamos a exposição na Praça da Matriz. Dia seguinte fomos pro evento no Esco Bar, com música e exposição de vários artistas e artesãos.

No Esco Bar, exposição variada.
Atenção e participação não faltaram.
A Matriz está aí. E nós também.



A viagem segue, amanhã na Vila Guilherme. Estamos agora em São Mateus, em casa de amigos, e partimos pra Santos na quinta-feira, onde ficamos até pelo menos domingo. Depois seguimos viagem, rumo Itapetininga. A rota está sendo feita na caminhada, temos um plano geral e devemos estar em casa no princípio de agosto, pra recomeçar a produção. Temos no caminho Campinas, Ribeirão Preto, Franca, Belo Horizonte, Juiz de Fora já a caminho de casa. Nada planejado, vai depender de convite pra expor, depender dos lugares e possibilidades. Somos em quatro, mais uma kombi sem tranca.
Temos Piracicaba, Tatuí, Limeira no caminho, semana que vem, sem convite pra nada ainda. O plano era ir até Ribeirão Preto, em princípio. A ver o que rola. Coletivos são prioridade, mas vender também é, até pra seguir viagem e resolver as coisas da vida que exigem grana.   

quarta-feira, 5 de julho de 2017

A viagem decorre entre imprevistos e programações imediatas. Passamos por Volta Redonda, onde houve palestra e exposição. Conhecemos Max, o adestrador de cães, que nos arrumou uma consulta pro Roquenrou onde foi diagnosticada "alergia a pulgas", uma contradição pra um cachorro encontrado nas ruas de São Paulo. Medicamento caro, foi dado o derrame na grana das vendas. Dias depois ele parou de se coçar, já em Belo Horizonte, onde chegamos de manhã, depois de uma noite na estrada. Na madrugada, passando pela região da mineração de ferro, uma chuva forte marcou a kombi com o vermelho do minério - Celestina estava limpinha por um dos raros banhos, antes de sair de casa.
UFF, campus da Vila, em Volta Redonda.

Expusemos por dois dias na Praça Duque de Caxias, em Santa Teresa belorizontina, com bons encontros, conversas e vendas. Na terceira, encontramos a praça imersa em festa de São João, lotada, e não pudemos expor.

Fomos a Florestal, num campus da UFV (Viçosa), e fizemos exposição e palestra,

Voltamos de Florestal pra Contagem, onde fomos recebidos por William e Amapola, no dia anterior à exposição no Viaduto das Artes, no Barreiro. A exposição em si estava ótima, as artes cheias de sentimento, pinturas belas nascidas no coração dos artistas que estavam lá. Fui recebido como extra, entrei com a kombi e expus do lado de fora. Achei que o evento merecia maior público, pela qualidade, pelo nível da abordagem social, pelo engajamento e denúncia das injustiças cotidianas, das pressões e insatisfações em uma sociedade mentirosa, criadora de miséria e ignorância, que abandona pessoas e viola suas próprias leis.



Florestal foi uma das paradas nesta viagem centralizada em Belorizonte. Agora estou sem internet, na casa que está em obras, preparando viagem ao estado de São Paulo, durante o mês de julho. Começaremos por Sampa, estendendo pra Santos e, depois, por outras cidades até a fronteira com Minas.

Esta comunicação é pra dar satisfação aos que estão esperando o contato pra viagem, pra saber por onde vai o caminho. Vai desse jeito, improvisando no dia a dia. Não podemos saber como vai a kombi, ou dos percalços do caminho. Mas vamos assim, desse jeito.

Na seqüência de São Paulo, vamos terminar por Minas, no final do mês.

Comunico mais por aqui. E também pelo feice, https://www.facebook.com/eduardo.marinho.3152, meu feice pessoal.

sábado, 17 de junho de 2017

Panorama da falsa república

Logo depois da "abolição" da escravidão, Monteiro Lobato apresentou ao senado brasileiro, recém republicano, um projeto de alfabetização das vítimas escravizadas por tanto tempo, numa forma de resgate desse crime social. E ouviu, na lata, algo como "ô, Lobato, tá maluco? Se alfabetizar essa negrada, quem é que vai pegar no cabo da enxada?" O projeto foi desprezado e a escravidão, desinstitucionalizada, permanece em essência até hoje.

Em 1954, Getúlio Vargas estava cercado, difamado pela mídia, ameaçado de golpe, o "manifesto dos coronéis", afinado com os interesses econômicos das elites estrangeiras e nacionais, ameaçava a derrubada inconstitucional do governo. Ele havia cometido várias "heresias" para essas elites - ensino público gratuito e obrigatório para todos os brasileiros (até então o analfabetismo grassava entre os mais pobres), atendido as já velhas reivindicações trabalhistas de oito horas de jornada de trabalho, férias remuneradas, licença maternidade e outros, revoltando os patrões e, heresia das heresias, mandado investigar a tal "dívida externa" que, reveladas as falcatruas, caiu pra 40% do seu total. Independente da sua índole centralista e tirânica, Getúlio catalizou o ódio das elites estrangeiras e sua subalternidade brasileira e, pra evitar o golpe, cometeu um suicídio político que acuou os golpistas com o levante revoltado das massas populares que o adoravam.

Em 61, Paulo Freire, durante o governo João Goulart, foi convidado pra fazer um programa piloto de alfabetização de adultos, no interior de Sergipe. Cinquenta lavradores analfabetos foram alfabetizados em seis meses, a ponto de lerem em voz alta. A partir daí ele foi chamado para o ministério da educação, pra realizar o mesmo programa a nível nacional, com a finalidade de extinguir o analfabetismo no território nacional. Heresia recebida com ódio pelas elites, somada a outras que levantavam a histeria dos parasitas podres de ricos, como o incentivo à formação de associações de trabalhadores e sua organização na defesa contra os abusos patronais, a lei que limitava a remessa de lucros para o exterior por empresas estrangeiras instaladas no país e, heresia das heresias, decretou a reforma agrária, desapropriando dez quilômetros de cada lado de rodovias e ferrovias federais pro assentamento de pequenos agricultores familiares, facilitando o escoamento da produção, ligando o produtor, que ganharia mais, ao consumidor, que pagaria menos, eliminando as figuras dos atravessadores que encareciam os alimentos. Os mesmos coronéis que ameaçaram Getúlio, então generais, deram o golpe planejado, conspirado e articulado na embaixada dos Estados Unidos pelo então embaixador Lindon Gordon, que fez a quarta frota estadunidense sair carregada de armamentos e soldados pra iniciar uma guerra no Brasil como a do Vietnam, contando com as ações das elites locais, sempre traidoras do seu país e desprezadoras do seu próprio povo. Jango, sabedor dessas ações e intenções, não reagiu ao golpe, "pra evitar o derramamento de sangue de milhões, numa guerra fratricida", como ele mesmo disse. Sozinho, rejeitado pela arrogância da esquerda - como latifundiário e "lacaio" do capital, incapaz das mudanças sociais que só ela seria capaz - não encontrou apoio e seu governo foi derrubado, como disse Darcy Ribeiro, "não pelos seu erros, mas pelas suas virtudes".

Os militares, instalados no poder governamental, cumpriram a agenda programada. Destruíram a educação pública, incentivando a privada, perseguiram e destruíram sindicatos, associações e organizações populares, varreram das universidades todos os professores que tinham alguma preocupação social, com as injustiças históricas, com a miséria, a pobreza, a exploração, a ignorância e a desinformação, com a formação verdadeira de um povo mais evoluído em suas percepções e relações sociais. E pra ocupar os vastos espaços vazios, a Fundação Ford, de conhecido banqueiro estadunidense, se instalou em território nacional na "boa" intenção de formar professores universitários. Foi daí que começou a se formar a mentalidade empresarial que hoje submete o ensino acadêmico, a desumanização dos cursos, a maldade explícita que favorece os favorecidos e sacrifica as multidões historicamente sacrificadas. Ao mesmo tempo se desenvolvia o império midiático, com a Time-Life equipando a Globo golpista desde sempre, destinado a formar mentalidades, valores, comportamentos, desejos, objetivos de vida, relações sociais. E determinar "inimigos", comunistas na época, "terroristas" atualmente, sempre inimigos pra justificar os crimes contra as populações.

(https://www.youtube.com/watch?v=SaU6pIBv9f4https://www.youtube.com/watch?v=AVCoVVpVMTo)

É demonstrativo perceber que, mesmo numa casa pobre onde se encontra dificuldade até pra comer, se encontra uma televisão, com toda sua psicologia do inconsciente, programando mentalidades. É a estratégia do controle mental, direcionado a cada classe social com seu linguajar próprio, especialidade da mídia que as esquerdas nunca tiveram. A mídia inimiga fala a língua do público, em sua sedução criminosa baseada em mentiras, distorções e induções.

Quando os militares começaram a apresentar nacionalismos "incômodos" - a iniciativa de povoamento da amazônia, o reconhecimento da independência de Angola, mesmo levada por uma guerrilha socialista, o investimento no desenvolvimento de tecnologias nacionais,... - , começou-se a armar a "redemocratização", na verdade a remontagem da farsa da falsa democracia de sempre, com as instituições todas sob controle, infiltradas e dominadas pelos poderes financeiro-econômicos anti-populares. Tudo corria dentro do previsto, inclusive quando foi eleito o partido dos trabalhadores, devidamente "esterilizado" da influência popular e lavado das suas correntes mais coerentes com o programa do partido, para conter os movimentos populares que, redivivos, estavam em efervescência. Como planejado, esses movimentos se acalmaram e acomodaram, na ilusão de que "chegamos ao poder", sem considerar que os governos, há muito, não são o poder, mas sim manipulados pelo verdadeiro poder, o do punhado de parasitas sociais podres de ricos internacionais e nacionais. Mas os efeitos colaterais - pobres nas universidades, ascensão de parte da pobreza à capacidade de consumo de classes médias, menos miséria e desabrigo, adesão ao princípio de integração latinoamericana, informações escapando do controle midiático,... - levaram à derrubada desse partido, descaradamente de forma ilegal, com o judiciário elitista dando nó e desprezando leis com malabarismos jurídicos incompreensíveis ao cidadão comum confundido com as campanhas de ódio e difamação pela mídia privada.

Agora estamos vendo a extensão do programa de subalternização acelerada da totalidade institucional, e o povo se ferrando sem entender o que acontece, ignorantizado, desinformado, inferiorizado e enganado. A coisa toda é muito simples e fácil de entender quando se olha a situação de degradação social em que nos encontramos.Fecham-se as portas do conhecimento pras classes "inferiores", exterminam-se programas de inclusão social, ataca-se o ensino público mais uma vez, eliminam-se vagas nas escolas, ao mesmo tempo em que se constróem presídios que se pretende privatizar pra gerar lucros com os milhões de presos que essas atitudes vão criar. O futuro se apresenta escuro. Mas é na escuridão que se percebe o valor da luz. O sofrimento programado está a caminho, para além do sofrimento cotidiano das multidões. Na minha opinião, isso não vai ficar assim. Questão de tempo pra assimilação da realidade, no seu cotidiano.

Estamos trabalhando, os humanos, contra a desumanidade dos vampiros sociais que, cegos em sua arrogância, não sabem com quem estão tratando. As periferias estão, muito pouco a pouco, se ligando e tomando suas atitudes, de forma embrionária e despercebida. São os debaixo, os formadores inconscientes do alicerce da sociedade, quem vai impor as mudanças necessárias à harmonização social. Em seu tempo, que leva gerações, o que desespera os apressados condicionados ao sentimento de superioridade que desejam "conduzir as massas", na permanente pretensão dos declarados "revolucionários", que temem as favelas e não entendem nada do povo de verdade, nem falam uma língua que se entenda no chão da coletividade.

Quando se enxerga o panorama histórico, não há "absurdo" ou "retrocesso", mas a continuidade do programa estabelecido pelos inimigos de sociedades justas, pelos exploradores e mantenedores fervorosos da ignorância, da miséria, da desinformação que permitem a exploração desenfreada da população e dos recursos nacionais, as poucas dinastias de podres de ricos, verdadeiros demônios da humanidade. É preciso enxergar a realidade antes de resolver como agir, como participar da maneira que se quer, e não da forma programada pra ser ineficaz, impotente e cênica.

Quem pretende mudar o mundo está induzido pelos condicionamentos do sistema social escravista, inoculado de sentimentos falsos de superioridade sobre o povo roubado em seus direitos fundamentais. É preciso quebrar esses pedestais de vidro, artificiais e segregadores, criadores de distâncias que impedem a união solidária do saber da academia com a sabedoria das vivências sabotadas, que tem origem no sofrimento e na superação de dificuldades que nenhuma outra classe tem.



sábado, 10 de junho de 2017

Ravi, 29 anos.

Num dia com os números de hoje, em 1988, fomos de Prudente de Morais, cidade com três mil habitantes na sua área urbana, norte de Minas, pra Sete Lagoas, no fusca do prefeito de Prudente, por um motorista da prefeitura - a ambulância estava noutra missão -, onde havia uma maternidade. Às oito em ponto da noite, nascia Ravi, aos oito meses de gestação, de bunda. Moramos em Prudente durante quatro anos e depois fomos pra Visconde de Mauá, quando passei a morar só com meus filhos. De lá pra cá, tanta água passou debaixo desta ponte...

Hoje eu lembro da história. Uma história de muitas histórias. E ele é um homem vivendo.

sábado, 3 de junho de 2017

Investimento em escolas decentes, não em presídios.

Duvido que houvesse tanta oferta de crianças, adolescentes e jovens pro crime se as escolas fossem boas, se o investimento em educação fosse prioridade, como no tempo dos CIEPs. As crianças faziam questão de ir pra escola, exigiam dos pais mais relapsos. Havia café da manhã, almoço, lanches e janta, banho e escovar os dentes antes de entregar aos responsáveis, no fim do dia. Além de aulas tinha música, teatro, esportes, artes, havia interesse na formação integral e os resultados eram visíveis. A criminalidade nunca foi tão baixa, reduzida às bocas de fumo localizadas, assaltos eram raros, os índices eram muito mais baixos. A fábrica de escolas construída na época permitia a montagem em concreto armado de uma escola em um mês ou pouco mais, pra quinhentas, mil, mil e quinhentas crianças, conforme a necessidade local.

Escolas assim, interessadas na formação do ser humano como um todo, formam um povo mais instruído, mais esclarecido, mais capaz de pensar por si, mais difícil de se conduzir com mentiras, promessas e sorrisos. Daí a sabotagem do ensino público, na criação de ignorância, daí o enquadramento do ensino privado e do acadêmico em valores empresariais, apresentando o mundo como uma arena competitiva, um campo de batalha onde se deve vencer, e não como uma coletividade que tem, ou deve ter como objetivo a harmonia, a paz social, a inclusão e o cuidado de todos para com todos. 

Isso deve parecer impossível, nas determinações dos poderes sociais, os econômicos - exercidos sobre o aparato estatal e sobre as mentes formadas, induzidas e controladas com valores, comportamentos, objetivos de vida, desejos programados, visão de mundo distorcida. Acreditamos num monte de mentiras e, no fim da vida, temos a sensação de ter vivido em vão. Enxergar a realidade implantada dentro de si é o primeiro passo pra ver e pensar além do condicionado. E é fundamental na mudança de valores, de comportamentos, muitas vezes de coletividades - e muda o mundo, a vida, os gostos, os sentimentos em viver.

Me parece constrangedoramente óbvio que se o Estado investisse na sua população o que é de direito constitucional, os artigos básicos dos direitos humanos, a criminalidade cairia verticalmente. Como é também constrangedoramente óbvio que se vejo esse mesmo Estado fechar turnos e escolas, reduzir espaços e superlotar salas, desfazer programas que abriam portas de estudos a pessoas da parcela enorme sem condições de pagar, enquanto investe na construção de presídios, vejo as intenções que movem essas atitudes. Percebendo o processo de privatização do sistema carcerário, a fecha o quadro. Quem pretende diminuir a criminalidade não constrói presídios, investe em escolas, no ensino, na população. Prisões são escolas de crimes e se relacionam intimamente com a sociedade, todo o tempo, profundamente. Dorme quem não vê. A criminalidade se entranha em todos os níveis da sociedade, com a mídia como seu porta-voz, condutora da mentalidade, distorcedora da realidade, controladora das informações, malabaristas de verdades fabricadas. 

Refugiados do Desenvolvimento - filme



Uma sociedade comandada pelos interesses de poucos bilionários, com apoio dos milionários locais, sempre às custas das populações, de exploração, expulsão, criminalização de resistências, mortes e perseguições. Uma sociedade criminosa, um Estado seqüestrado pelas forças econômicas que clamam por desenvolvimento econômico - sem eliminar a miséria, a pobreza, a ignorância e a desinformação das multidões -, que louvam o desenvolvimento tecnológico - devidamente patenteado, negado à maioria e usufruído por minorias privilegiadas. Uma estrutura social baseada na competição, no confronto, na disputa, na busca frenética de lucro, consumo e propriedade, nas mentalidades artificialmente criadas em laboratórios de pensamento e implantadas pela mídia - com o apoio do modelo distorcido e tendencioso imposto ao sistema de educação, que marginaliza professores humanistas e vocacionados, que influencia a própria formação destes de acordo com interesses empresariais. Um modelo social de causar vergonha e revolta a qualquer espírito desejoso de harmonia social e minimamente consciente do que acontece na realidade, naturalmente inconformado com as gritantes injustiças e perversidades naturalizadas e costumeiras no cotidiano coletivo.

Uma sociedade criadora de "lixo humano", perpetuadora de "escórias", criminalizadora das suas próprias vítimas, contadas às centenas de milhões, bilhões em escala planetária.

Este filme mostra um pequeno pedaço, uma amostra de conseqüências humanas de uma estrutura social "naturalmente" desumana.

https://vimeo.com/160568538

observar e absorver

Aqui procuramos causar reflexão.